Amnésia

03/02/2007 | Categoria: Críticas

Montagem invertida deixa a narrativa intrincada e põe espectador na mesma situação mental do protagonista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Muita gente lembra do verão norte-americano de 1999, uma das temporadas cinematográficas mais incandescentes dos últimos tempos. Naquele ano, pelo menos duas pequenas produções despretensiosas se tornaram cult e arrastaram legiões aos cinemas: “A Bruxa de Blair” e “O Sexto Sentido”. Durante alguns meses depois disso, uma moda entre cinéfilos era tentar descobrir qual seria o próximo longa independente a surpreender os grandes estúdios e arrebentar nas bilheterias. Todo mundo errou muito chute antes de surgir “Amnésia” (Memento, EUA, 2000), filme que como os outros dois também é uma produção barata, também ganhou força através da propaganda boca-a-boca e de um site bem bolado na Internet, também está calcado numa idéia engenhosa e também precisa ser visto mais de uma vez para ser compreendido por inteiro.

Produzido na surdina e lançado em março de 2000 nos EUA, o filme surpreendeu muita gente ao emplacar cinco semanas entre os dez mais vistos no país. Nenhuma obra havia conseguido isso desde “O Sexto Sentido”. Elaborado ao custo de parcos US$ 5 milhões pelo então estreante Christopher Nolan, “Amnésia” deu lucro fenomenal e chamou a atenção da indústria cinematográfica para o diretor, que rapidamente se transformou em nome quente na comunidade do cinema. Algum tempo depois, Nolan seria contratado para redefinir o Batman no cinema, transformando-se automaticamente num raro diretor de filmes de ação com cérebro, título que cabe direitinho neste “Amnésia”.

Os números do filme independente são um bom termômetro para um longa-metragem extremamente inteligente. De fato, chega a ser surpreendente que o longa tenha feito uma carreira tão vitoriosa nos EUA, país onde qualquer produção que obrigue o público a queimar neurônios para entender enredos razoavelmente complexos costuma afugentar o público como o Diabo da cruz. “Amnésia” não é exatamente intrincado, mas exige raciocínio rápido e muita concentração do espectador, especialmente por causa de uma opção estética do cineasta: o filme é narrado de trás para frente.

Na trama, o investigador de seguros Leonard Shelby (o inglês Guy Pearce, astro de “Los Angeles – Cidade Proibida”) é um homem atormentado por um raríssimo problema mental: ele lembra-se perfeitamente de todo o seu passado até a manhã em que a mulher foi estuprada e assassinada por dois homens, que também lhe agrediram. Por causa desta agressão, porém, Shelby não consegue mais reter na memória fatos recentes. Ele literalmente esquece dos fatos alguns minutos depois que eles acontecem.

Desesperado, agarra-se a um objetivo para se manter vivo: encontrar e matar o assassino da esposa. Para isso, arruma uma maneira louca de botar ordem no caos que sua doença lhe impõe. Ele registra tudo o que acontece consigo através de fotografias Polaroids rabiscadas, bilhetes guardados nos bolsos, notas escritas no verso de qualquer papel que esteja à mão. Ainda tatua no próprio corpo os fatos mais importantes (a frase estampada ao contrário, no peito, diz “John G. estuprou e matou minha mulher”).

A trama do filme não é complexa, mas a narrativa invertida trata de complicá-la para você. Cada ação de Shelby é vista sem que se saiba o motivo que o levou até aquela situação. Uma cena sempre termina onde a anterior se iniciou. Desta forma, a cada nova cena, desvenda-se um mistério e cria-se outro, e assim por diante. Enquanto a ação regride, vamos conhecendo as pessoas com quem o investigador interage, e aprendemos a desconfiar delas o tempo todo. Há uma garçonete misteriosa (Carrie-Anne Moss, de “Matrix”), o policial Teddy (Joe Pantoliano, também de “Matrix”), o balconista de motel Burt (Mark Boone Jr).

Todo mundo parece suspeito. E por quê? Porque a técnica da inversão cronológica põe o espectador exatamente na mesma posição do protagonista. Como Shelby, não lembramos daquelas pessoas. Não sabemos qual a relação que cada uma delas mantinha com o rapaz antes de cada cena. A sensação é de completa desorientação, graças a uma edição absolutamente magnífica de Dody Dorn. A grande força do filme não está no roteiro, mas na montagem brilhante. Os cortes são precisos, injetando tensão e humor na medida certa.

Vale ressaltar, ainda, que as cenas no presente são entrecortadas por flashbacks em preto-e-branco, com as duas tramas correndo em paralelo por toda a duração e unindo-se no final, quando finalmente percebemos a extensão da tragédia pessoal de Leonard Shelby. O roteiro tem alguns pequenos furos, mas eles não atrapalham a linha de raciocínio básico. E o trio principal está fantástico. Guy Pearce brilha de novo (lembram-se de “Priscilla, A Rainha do Deserto?”), Carrie-Anne Moss (A Trinity de “Matrix”) está cínica e bela, e Joe Pantoliano, irreconhecível atrás de um bigode horrendo, fica à vontade no papel mais dúbio. Quando tudo termina, dá a maior vontade de rever o filme e pescar as pequenas pistas que levam à surpresa derradeira.

O DVD nacional, da Paris Filmes, traz apenas um extra de respeito: uma remontagem do filme, feita à revelia do diretor, onde as cenas são colocadas em ordem cronológica, para facilitar a compreensão de quem quiser rever. O áudio (Dolby Digital 5.1) está ótimo, mas lamentavelmente as imagens são mutiladas na lateral (fullscreen).

– Amnésia (Memento, EUA, 2001)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Guy Pearce, Carrie Anne-Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Jr.
Duração: 113 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »