Amor à Flor da Pele

16/02/2005 | Categoria: Críticas

Wong Kar-Wai faz filme visualmente esplêndido sobre a ética das relações amorosas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um filme sobre a ética nas relações amorosas. Um elegante estudo visual a respeito de coincidências que aproximam e afastam as pessoas. Um documento da complexa integração da sociedade chinesa a um mundo globalizado. Um longa-metragem de partir o coração sobre um casal que compartilha de um amor puro, mas jamais concretizado. Todas essas leituras são possíveis para “Amor à Flor da Pele” (In the Mood for Love, China/França/Tailândia, 2000), o filme que estabeleceu em definitivo o nome do chinês Wong Kar-Wai como um dos mais cineastas mais respeitados da atualidade a investigar as relações humanas.

Para começar, o filme tem um visual de tirar o fôlego. O rigor estético de Wong Kar-Wai é evidente, e isso se reflete em uma fotografia que explora espaços fechados, luz artificial e tonalidades multicoloridas. William Chang, que acumulou as funções de designer de produção e autor do figurino, é o nome de maior destaque na equipe técnica. Apenas para a atriz Maggie Cheung, ele desenhou 46 diferentes vestidos de gola alta, um mais belo do que o outro, quase sempre explorando cores básicas.

A composição rigorosa dos espaços em que o filme se passa realça amplamente o trabalho de Chang. Wong Kar-Wai presta uma homenagem às antigas histórias de amor de Hollywood, nos anos 1940, enfatizando o jogo de sombras e o uso da fumaça como componente cênico capaz de evocar uma aura de charme e mistério (cá entre nós, o filme não tem um quê de “Casablanca”?). Cortinas vermelhas, luzes azuis, vestidos verdes, móveis amarelos e azuis; Kar-Wai utiliza todo um arsenal de artefatos para construir um jogo de cores fascinante. O visual de “Amor à Flor da Pele” é lindo de morrer.

Nada disso funcionaria, porém, se a cinematografia não funcionasse a contento. O diretor de fotografia, Christopher Doyle, bolou então uma técnica inteligente para dar a todo esse rigor estético um sentido narrativo. Ele usa posições de câmera incomuns, às vezes excêntricas, explorando a imagem estática sempre que pode. E vai além: escolhe, para cada tomada, um ângulo original, que assume o ponto de vista de um voyeur. Essa estratégia põe a platéia sempre na posição de alguém que, escondido, espia a ação, sem que os protagonistas saibam que estão sendo observados. A câmera fica muitas vezes longe, atrás de cortinas, em aberturas de portas.

É uma maravilhosa maneira de lembrar a platéia, o tempo inteiro, que ela está assistindo a um romance proibido. Os encontros do jornalista Chow Mo-wan (Tony Leung) com a secretária Su Chan (Maggie Cheung), afinal, são secretos. Quando o filme começa, é Hong Kong, em 1962. Os dois estão à procura de quartos para alugar na metrópole chinesa. Encontram dois, localizados lado a lado, em um prédio decadente. Por coincidência, os dois se mudam no mesmo dia. Repare como as coincidências são fundamentais para a narrativa de Wong Kar-Wai; mesmo sem representar pontos narrativos importantes para a evolução da ação dramática, elas se repetem em vários momentos, e tanto aproximam quanto afastam os dois enamorados.

Chow e Su são casados, mas pouco vêem os respectivos cônjuges. Eles passam longos períodos viajando. Kar-Wai também é inteligente o bastante para não perder tempo com ambos; eles jamais aparecem na tela. Ouvimos apenas a voz, quando muito, do marido de Su e da esposa de Chow. Solitários, o jornalista e a secretária passam a se encontrar quase que diariamente, no restaurante em que comprar macarrão para jantar. É natural, sendo vizinhos, que comecem a conversar. Dessas conversas, nasce uma atração mútua irreversível.

Wong Kar-Wai tece, a partir de então, uma belíssima história de ética no amor. O foco no filme recai não no óbvio romance que floresce entre ambos, mas nos conflitos morais que impedem os amantes de concretizar fisicamente essa paixão.

A certa altura, em uma seqüência genial, Su e Chow descobrem que os respectivos cônjuges estão tendo um caso. É uma cena excepcionalmente bem construída. Durante um jantar, quando já estão irremediavelmente atraídos, Chow elogia a bolsa de Su. Quer comprar uma igual para a mulher. Em troca, ela elogia a gravata de Chow e também diz querer presentear o marido com uma igual. É uma cena sutil, cheia de segundas intenções.

Nenhum dos dois dá uma única palavra em seguida ao diálogos. São silêncios e olhares reveladores. Se o espectador tiver entrado no jogo de Wong Kar-Wai, já terá percebido que o filme privilegia um conteúdo que não está nas palavras e, portanto, nunca é falado; a narrativa do filme está no rigor estético, no clima de fascínio e mistério, na atuação brilhante dos dois atores.

Palavras não são suficientes para explicar o conteúdo do filme. O cineasta chinês vai além. É um filme sobre coisas que existem, que são vividas, mas que não são ditas. Como na vida real. E a trilha sonora, repleta de tangos e boleros (Nat King Cole comparece com três músicas), fornece o toque romântico que faltava para fazer de “Amor à Flor da Pele” um dos mais belos romances já filmados.

A primeira versão nacional do filme em DVD está fora de catálogo. Tem trilha de áudio Dolby Digital 5.1 (chinês) e dublagem em português (DD 2.0), além de um pequeno documentário de 17 minutos, com entrevistas de diretor e atores.

A segunda edição, também da Imagem Filmes, saiu em 2005 e é muito melhor. Contém o filme com corte original de imagem widescreen, um documentário de 51 minutos e uma galeria de cenas cortadas que totaliza 17 minutos.

Essas cenas exploram dois conceitos presentes no roteiro original, que Wong Kar-Wai abandonou na edição. Elas estão divididas em dois grupos. Um deles se passa inteiramente em um quarto de hotel, alugado pelos amantes para encontros proibidos. O segundo grupo de cenas mostra um emocionante reencontro da dupla nos anos 1970 (Tony Leung de bigode, e Maggie Cheung com cabelo escovado).

O documentário, produzido na época em que o filme concorreu em Cannes (Leung venceu o prêmio de ator), em 2000, contém muitas outras cenas excluídas da montagem final. A maior parte delas tem humor e diálogos, muitas vezes explícitos, o que mostra como o filme ficaria diferente se o rigor estético de Wong Kar-Wai não houvesse prevalecido, na hora da montagem.

– Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love, China/França/Tailândia, 2000)
Direção: Wong Kar-Wai
Elenco: Tony Leung, Maggie Cheung
Duração: 94 minutos

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