Amor à Queima-Roupa

08/07/2005 | Categoria: Críticas

Primeiro roteiro de Quentin Tarantino mistura ação inusitada e humor demente de primeira qualidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Assistir a “Amor à Queima-Roupa” (True Romance, EUA, 1993) em seu contexto histórico correto deve ter sido mais ou menos como testemunhar, meio sem saber, a gênese de uma pequena revolução em Hollywood. As pessoas então começavam a apenas descobrir que por trás do esquisito nome “Quentin Tarantino”, que assinava o roteiro, estava uma verdadeira usina de energia e boas idéias cinematográficas.

Tarantino acaba de assinar a direção de “Cães de Aluguel”, que não fez grande sucesso, mas impressionou todo mundo em Hollywood. “Amor à Queima-Roupa”, o primeiro roteiro que ele havia tentado vender, estava circulando há um tempo em Los Angeles, mas ninguém parecia ver algo interessante nele. E de repente, não mais que de repente, uma montanha de astros de primeira grandeza estava a fim de aparecer no filme sem cobrar cachês milionários (alguns fazendo pequenas pontas).

Na verdade, o resultado final não parecia um filme do mesmo Tony Scott que dirigira a aventura juvenil “Ases Indomáveis”. É legal perceber, ao revisitar o primeiro roteiro do homem levado às telas, que tudo já estava lá: humor, ação, grandes diálogos, romance, kung fu, spaghetti western e energia. “Amor à Queima-Roupa” poderia ser um filme assinado por Quentin Tarantino. Teria ficado ainda melhor, pois a maior parte das alterações no texto feitas por Scott (como a música fabular insistente que quasse nunca para) pioram o original.

Mesmo assim é preciso louvar que tudo tenha acontecido do jeito que aconteceu, pois a verdade é que Tarantino talvez estivesse trabalhando em alguma videolocadora de Los Angeles se não vendisse o roteiro – pela bagatela de US$ 50 mil – para iniciar a pré-produção do seu primeiro filme como diretor, “Cães de Aluguel”. E, afinal, “Amor à Queima-Roupa” continua sendo uma maravilha de filme divertido e inteligente.

A produção é uma história de amor distorcida pela ótica hiperativa do diretor de “Pulp Fiction”. Parece estranho? Não deveria – afinal, o que é “Kill Bill” senão o trágico rompimento de uma mulher com o marido? Em “Amor à Queima-Roupa”, assistimos ao encontro do vendedor Clarence Worley (Christian Slater), um vendedor solitário, com Alabama (Patricia Arquette, linda), uma garota recém-chegada do interior. Eles compartilham gostos: quadrinhos de super-heróis, filmes asiáticos de artes marciais, hambúrguer com batata fritas. É paixão instantânea. Se conhecem no cinema (onde mais?) e casam na manhã seguinte.

Clarence, no entanto, fica incomodado com o passado recente da garota. Ela fez programas durante alguns dias a mando de um cafetão, Drexl (Gary Oldman). Clarence resolve fazer uma visitinha ao rapaz. O encontro termina em um banho de sangue e rende, para Clarence, uma mala cheia de cocaína pura. Ao invés de ver na droga um problema, o vendedor enxerga uma chance de ficar milionário. Ruma, então, para Hollywood, onde quer tentar passar a coca para algum barão do cinema, sem saber que tem uma quadrilha de violentos mafiosos italianos no encalço.

“Amor à Queima-Roupa” contém uma enorme quantidade de elementos que Tarantino reciclaria nos filmes que faria como diretor. Os filmes asiáticos de Sonny Chiba entrariam em “Kill Bill” (dez anos depois, Tarantino teria grana e cacife suficientes para fazer do ator um personagem importante da parte 1 do longa). A mala de cocaína é o leitmotiv de “Jackie Brown”. Tiroteiros bizarros e imprevisíveis aparecem em “Pulp Fiction”. A linguagem cheia de palavrões e gírias bate ponto em todos os filmes dele (“Amor à Queima-Roupa” tem 225 vezes a palavra “fuck”). O memorável monólogo do pai de Clarence sobre os sicilianos e os negros está à altura da teoria de Bill sobre o Super-Homem (“Kill Bill 2”). A lista é interminável.

Claro, assistir a “Amor à Queima-Roupa” apenas para colecionar referências que Tarantino usa em seus roteiros seria uma atitude pouco recomendável, pois o filme tem muitas qualidades. O senso de humor demente, sozinho, já faria da produção um excelente exemplo de como Hollywood pode, raras vezes, ser refrescante e original. Observe o diálogo travado durante o impagável encontro entre os personagens de Dennis Hopper (o pai de Clarence) e Christopher Walken (um mafioso siciliano). É coisa para rolar de rir na cadeira, um momento brilhante que os dois atores veteranos transformam em uma cena deliciosa.

Mas tem muito mais. Tony Scott eliminou a narrativa cronologicamente fragmentada e fez um filme linear, normal, mas que funciona muito bem. A viagem animada do casal de pombinhos pelas poeirentas estradas norte-americanas, de Detroit a Los Angeles, parece uma edição super-rápida do bizarro “Coração Selvagem”, de David Lynch. As divertidas cenas que envolvem o ator de segunda interpretado por Bronson Pinchot (Elliot Blitzer) são alfinetadas nos bastidores de Hollywood. E o clímax do filme, em um quarto de hotel luxuoso da cidade, é simplesmente magistral.

Para os fãs de Tarantino, o “extra” principal de “Amor à Queima-Roupa” está nos elementos intertextuais incluídos na narrativa, em forma de citações diversas. Filmes como “Amargo Regresso”, “Dr. Jivago”, “Apocalypse Now”, “Três Homens em Conflito” (o preferido do diretor de “Jackie Brown”) e “Taxi Driver” recebem citações visuais e/ou nos diálogos, componda uma verdadeira lista de referências, homenageadas em celulóide pelo homem mais importante da Hollywood dos anos 1990. Se quiser, anote os filmes e comece a assisti-los. É uma bela aula de história do cinema.

Embora exista uma edição especial do filme de Tony Scott nos EUA, a versão lançada em DVD no Brasil é pobre. Traz imagens granuladas e, pior, mutiladas lateralmente para caber na proporção 4×3, além de nenhum extra. Para compensar, a trilha de áudio em inglês é Dolby Digital 5.1 e está bem mixada (curiosamente, a capa informa que o som é DD 2.0, o que é um erro grotesco). Uma dica: não leia o texto da contrapa, pois ele revela mais da história do que deveria.

– Amor à Queima-Roupa (True Romance, EUA, 1993)
Direção: Tony Scott
Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Dennis Hopper, Gary Oldman
Duração: 116 minutos

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