Amor à Tarde

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Filme-chave na carreira de Eirc Rohmer, obra aborda a desestabilização emocional de um homem casado que odeia a idéia de traição

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Eric Rohmer se auto-definiu, certa vez, como “um moralista do século XIX vivendo no século XX”. É claro que tal definição impõe, forçosamente, certas expectativas em torno do conteúdo conceitual dos filmes que compõem a carreira dele, uma das mais férteis da nouvelle vague francesa. Por um lado, sempre ficou evidente que os assuntos afetivos estão no cerne da obra dele. Rohmer investigou exaustivamente o amor, a paixão, os envolvimentos afetivos. Por outro lado, tais obras nunca pareceram frutos de uma mente moralista – pelo menos não no sentido que se associa normal ao vocábulo. O diretor francês jamais demonstrou repulsa por comportamentos promíscuos. Sua abordagem sempre foi marcada pela curiosidade saudável, como uma criança que mexe com um brinquedo para tentar entender seu funcionamento.

É possível que “Amor à Tarde” (L`Amour l`après-midi, França, 1972) seja o filme mais pessoal do cineasta, aquela obra que o revela por inteiro. Coloque-se o diretor na posição do protagonista e aí, finalmente, é possível encontrar traços de um moralista sossegado. Ele é o advogado Frédéric (Bernard Verley), sócio de um pequeno e bem sucedido escritório em Paris. Protótipo do burguês satisfeito, Frédéric ama a esposa Hélène (Françoise Verley, mulher do ator também na vida real). O casal tem um filho pequeno e um bebê por nascer. Eles mal se vêem, pois ela trabalha como professora. Mas são felizes, ou acham que são. Vivem com certo conforto, têm tempo livre, gostam da companhia um do outro. São estáveis.

Mesmo assim, Frédéric se sente de alguma maneira oprimido pelo casamento. Ele adquiriu o hábito de passar algumas horas, todas as tardes, passeando sem rumo pelas ruas de Paris. Pára em cafés, observa o movimento, faz algumas compras. Logo um hábito estranho se instala: ele fantasia a si mesmo tendo casos com mulheres de todos os tipos, que encontra nas ruas. São fantasias inofensivas, que o advogado cultiva com prazer. Ele não tem nenhuma intenção de trair a mulher de verdade. A mera fantasia já lhe basta. Pelo menos até que Chloe (Zouzou), a ex-namorada de um velho amigo, apareça no escritório para lhe fazer uma visita. Aí as coisas começam a mudar, para desespero de Frédéric. Desespero? Sim: ele odeia a idéia de mexer na própria rotina.

“Amor à Tarde” é ao mesmo tempo bem parecido e muito diferente de títulos posteriores de Rohmer. A faceta tagarela do diretor – seus personagens se guiam mais pelas palavras do que pelas ações – está preservada. Eles adoram discutir a relação. Por outro lado, a magnífica fotografia (do grande mestre Néstor Almendros) possui um rigor formal difícil de encontrar nos filmes de Rohmer, a partir da segunda metade da década de 1970. São cenas longas, muitas delas feitas em locação, com movimentos de câmera sutis, quase minimalistas, e um poder poético bem forte. Preste atenção, por exemplo, no trabalho brilhante de câmera durante a cena em que Frédéric vê Chloe tomando banho. Toda a ação se passa em dois planos distintos, ambos focalizados com precisão.

Além disso, há seqüências de humor delicioso (numa delas, que materializa as fantasias eróticas do advogado, ele se vê beijando todas as mulheres que lhe chamam a atenção durante um lanche). O grande mérito do filme, porém, é o ritmo perfeitamente contido, que captura o diretor no controle absoluto sobre suas criaturas – Rohmer também assina o roteiro da obra. O andamento da narrativa segue, aos poucos, a lenta desestabilização emocional do advogado, enquanto ele e Chloe iniciam um perigoso joguete amoroso de conseqüências indefinidas. É uma trama bem ao gosto do diretor francês, que Rohmer finaliza com uma brilhante, abrupta e inesperada cena final, de forte densidade dramática. Um dos melhores filmes do cineasta, e isto não é pouco.

O DVD nacional faz parte de um pacote de filmes do diretor lançados pela Europa Filmes. Embora não seja um lançamento de qualidade técnica digna de nota, o filme aparece com qualidade razoável de imagem (tela cheia, 1.33:1, formato original) e áudio (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– Amor à Tarde (L`Amour l`après-midi, França, 1972)
Direção: Eric Rohmer
Elenco: Bernard Verley, Zouzou, Françoise Verley, Daniel Ceccaldi
Duração: 97 minutos

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