Amor Custa Caro, O

26/03/2004 | Categoria: Críticas

Irmãos Coen fazem cinema comercial pela primeira vez e criam filme OK, mas irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um advogado especializado em divórcios se apaixona por uma beldade cujo talento é procurar um marido milionário e deixá-lo na miséria. A partir dessa trama básica, absolutamente tudo na campanha promocional de “O Amor Custa Caro” (Intolerable Cruelty, EUA, 2003) aponta para mais uma comédia romântica insípida, um projeto de estúdio, daqueles filmes a que a platéia vai assistir sabendo como a trama vai acabar. O título nacional não ajuda. O cartaz, que traz os astros George Clooney e Catherine Zeta-Jones fazendo pose, parece confirmar a idéia. Mas tudo isso vai por água abaixo quando você vê o nome do direitor: Joel Coen.

Sim, “O Amor Custa Caro” é um filme dos irmãos Coen. Mas não é um trabalho comum da dupla, que quase sempre filma de forma independente, com orçamentos pequenos, sem dar bola para as bilheterias. Trata-se, na verdade, de um projeto associado, uma parceria entre os Coen e o produtor Brian Grazer, um nome peso-pesado na hierarquia informal de Hollywood. Grazer é o homem por trás do insosso “Uma Mente Brilhante”, grande vencedor do Oscar em 2001, e de vários outros blockbusters (“O Grinch”, “O Professor Aloprado 2”). Nesse caso, uma olhada na lista de créditos pode informar muito sobre a qualidade da película. Ela mostra muitos profissionais que trabalham normalmente com os Coen, do protagonista Clooney ao fotógrafo Roger Deakins, passando pelo responsável pela música, Carter Burwell. Mas o que isso quer dizer?

O projeto associado passa exatamente a impressão que deixa antever: um híbrido de filme de autores (com A maiúsculo) e projeto de estúdio. “O Amor Custa Caro” é comédia romântica ligeira, mas construída com os personagens exóticos que os Coen sabem construir como ninguém. Ocorre que, dessa vez, esses personagens não formam 100% da fauna humana que surge na tela. Eles não entram em cena com tanta naturalidade, como se tivesse vida própria fora do cinema. Alguns (o barão Krauss Von Espy, por exemplo) parecem caricatos, exagerados demais, construídos apenas para o filme. Esse é o tipo de problema que os Coen jamais tiveram dificuldade de driblar. Naturalmente, essa falta de sutileza parece ser um problema de produção, decorrente de uma falta de liberdade nos sets que os irmãos só agora experimentam. É normal, portanto, que os conhecedores da obra da dupla sintam um certo desconforto diante do trabalho.

A cena de abertura de “O Amor Custa Caro” ilustra bem esse dilema – e a falta de sutileza que transparece, em muitos momentos da narrativa. Ela mostra um produtor de TV (Geoffrey Rush, cada vez mais canastrão, numa ponta de luxo) flagrando a esposa com um vendedor de piscinas atraente e burro. O sujeito atira nos dois, que fogem, não sem antes espetar a bunda dele usando o troféu que ele ganhou no Emmy. Apesar da licença poética cínica, a seqüência tem a grosseria típica de um filme de outros irmãos cineastas, os Farrelly. A essa altura, um fã do cinema dos Coen vai ficar questionando se entrou na sala correta e se está vendo o filme certo. Mas aí vem a adorável abertura, uma belíssima animação que poderia ter sido assinada por Terry Gilliam (responsável pelas aberturas dos filmes do Monty Python), se ele tivesse nascido na Idade Média. Sozinhos, esses créditos já valem o preço do ingresso. Eles dissipam qualquer dúvida.

Na verdade, o abismo estético entre essas duas cenas vai se repetir durante todo o filme. Nele, um advogado genial e entediado, Miles Massey (George Clooney, divertindo-se como nunca) vai enfrentar no tribunal uma ‘caçadora de maridos’ (Catherine Zeta-Jones, adoravelmente caricata) bem mais esperta e sedutora do que o normal. O desenvolvimento da trama principal é delicioso, com carimbo do padrão de qualidade dos Coen – o espectador nunca sabe bem o que está vendo, os personagens estão sempre pregando peças uns nos outros (e na platéia), e as cenas muitas vezes transcorrem de foerma diferente daquilo que imaginávamos.

Há, contudo, pequenos detalhes que destoam do conjunto, bem como subtramas que soam óbvias demais para os Coen. Levando em conta as condições peculiares da produção, isso dá margem à desconfiança de que possa ter havido interferência no trabalho dos irmãos. Se existem momentos em que a assinatura da dupla é evidente (os encontros de Massey com o chefe, impagáveis), existem outros que parecem dirigidos por um cineasta de aluguel (qualquer cena que inclua o ajudante retardado de Massey, um coadjuvante cômico que repete um clichê extremamente gasto, e totalmente dispensável, desse tipo de filme). Como o roteiro é assinado, pela primeira vez, por gente estranha à turma dos Coen (Robert Ramsey e Matthew Stone) é lógico pensar que o projeto era muito mais ‘normal’.

O longa segue assim, alternando alguns momentos óbvios (muito raros na carreira dos diretores), e cenas inspiradas. Infelizmente, essas últimas são minoria. Mesmo assim, quem assistir ao filme vai se deparar com algumas piadas com o cinismo característico dos Coen e um dos coadjuvantes mais engraçados dos últimos tempos, Joe Chiado. A bomba de asma do sujeito protagoniza a cena mais hilária de 2003, filmada com uma elegância insuspeita pela câmera sempre surpreendente de Roger Deakins. Filme dos irmãos Coen é assim, feito sexo: mesmo quando é ruim, é bom.

– O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty, EUA, 2003)
Direção: Joel Coen
Elenco: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Billy Bob Thornton, Geoffrey Rush
Duração: 99 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »