Amor em 5 Tempos

25/04/2007 | Categoria: Críticas

Drama conjugal de François Ozon chama a atenção por crueza, despojamento calculado e inteligência dos diálogos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Autor jovem (nasceu em 1967), versátil e sem vinculações com correntes artísticas, o francês François Ozon vem construindo uma obra incomum para um autor europeu. De estilo limpo e despojado, Ozon assina títulos muito diferentes entre si, trafegando entre gêneros diversos e quase sempre os subvertendo, como fez com o thriller (“Oito Mulheres”, “Swimming Pool”). Mas a característica que mais chama a atenção é a rapidez com que filma: um lançamento por ano, entre 1998 e 2006, um ritmo invejável que lhe coloca na posição de mais fértil autor francês da década. E o melhor de tudo é que o talento para diálogos e para a mise-en-scéne cuidadosa confere qualidade homogênea aos lançamentos, o que é muito bom.

“Amor em 5 Tempos” (5×2, França, 2004) não está entre os filmes mais badalados de Ozon, e chama a atenção pela crueza com que o diretor se dedica a observar cinco momentos distintos em um casamento de classe média, na França. Ou seja, estamos diante de uma crônica sobre amor e casamento. A estrutura narrativa é desconcertantemente simples: são cinco longas seqüências (cada uma com cerca de 15 minutos), que funcionam como instantâneos de cinco momentos distintos de um casamento. O objetivo do diretor é expor, de forma aparentemente despojada, mas a partir de diálogos cuidadosamente construídos, a degradação do relacionamento de um casal jovem, Marion (Valeria Bruni-Tedeschi) e Gilles (Stéphane Freiss)

Um detalhe importante é que Ozon inverte a ordem cronológica habitual. Isso quer dizer que a primeira seqüência flagra Marion e Gilles no dia em que assinam o divórcio, pondo fim definitivo ao casamento. A narrativa vai então voltando no tempo, e o longa-metragem encerra com o primeiro encontro entre ambos, de férias num balneário. À primeira vista, “Amor em 5 Tempos” sugere uma visão pessimista, ou no mínimo cínica, do casamento. Quando se observa mais de perto, porém, o retrato que emerge é mais complexo do que isto. Se é possível rastrear, já desde o primeiro encontro, os desvios de conduta de ambas as partes, que culminarão com o fim do casamento, Ozon também dedica boa parte de dois dos episódios para olhar de perto a relação dos pais da noiva – e é aí que nasce a grande sacada do filme.

A mãe e o pai de Marion são casados há décadas. Na terceira seqüência, que se passa no dia do nascimento do filho do casal, ambos estão no hospital. Eles são grosseiros e agressivos um com o outro, e não há contato físico entre eles. Parece ser uma relação negativa, contaminada. No entanto, em certo momento do quarto episódio (a noite de núpcias), Marion flagra os dois sozinhos, dançando uma canção romântica de rosto colado, muito tempo depois que a festa já terminou. A contraposição das duas cenas é emblemática: “Amor em 5 Tempos” abraça a idéia de que uma relação amorosa é sempre mais complexa e contraditória do que seria possível narrar em um filme. Por isso, o diretor se contenta em exibir algumas cenas-chave da relação, deixando que o espectador preencha lacunas e tire suas próprias conclusões.

São cenas de realismo terrível, plenamente reconhecíveis para qualquer um que já passou pelo final traumático de um casamento. O primeiro episódio é particularmente duro, e quem já enfrentou experiência semelhante terá material difícil para lidar. Em termos de atmosfera, a película se aproxima de “Closer – Perto Demais” (2004), mas sem o cheiro de teatro, a sensação de artificialidade que atrapalha alguns momentos da obra de Mike Nichols. Aqui, existe uma sensação muito palpável de que a vida está passando, escapando por entre os dedos dos personagens, e não há muito o que eles possam fazer para evitá-lo. Resumindo, “Amor em 5 Tempos” é uma ótima crônica da relação a dois nos nossos tempos.

O DVD da Imagem Filmes não contém extras. A qualidade de imagem (letterboxed 4:3) e áudio (Dolby Digital 2.0) é apenas razoável. O disco lançado na França traz uma versão diferente do filme como bônus; intitulada “2×5”, inverte a ordem das cinco seqüências e traz pequenas alterações na montagem.

– Amor em 5 Tempos (5×2, França, 2004)
Direção: François Ozon
Elenco: Valeria Bruni-Tedeschi, Stéphane Freiss, Géraldine Pailhas, Françoise Fabian
Duração: 86 minutos

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