Amor em Fuga, O

13/09/2007 | Categoria: Críticas

Filme nostálgico de 1979, repleto de flashbacks, encerra ciclo de aventuras do personagem Antoine Doinel

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Depois de concluir “Domicílio Conjugal”, em 1970, François Truffaut decidiu aposentar seu alter-ego, o personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud). O pivete insolente de “Os Incompreendidos” (1959) havia crescido, casado, tido um filho, enfrentado uma crise no casamento e se transformado em escritor. Parecia o fim da linha, até que em 1978 o fracasso do filme “O Quarto Verde” deixou o diretor francês falido. Ele imaginou, com razão, que a melhor maneira de recuperar a confiança (e o dinheiro perdido) seria trazer Doinel de volta à vida. Nascia “O Amor em Fuga” (L´Amour en Fuite, França, 1979), quinto e último filme (foram, ao todo, quatro longas e um curta-metragem) a reviver o personagem.

Um dos grandes trunfos da série de aventuras sempre foi à atmosfera levemente melancólica dos filmes (o próprio Truffaut diria, mais tarde, que os filmes dele sempre ficavam mais tristes do que ele desejava). Este elemento é reforçado pela generosa quantidade de flashbacks inseridas na trama, o que aumenta ainda mais a nostalgia. Praticamente um terço da duração de “O Amor em Fuga” é composto por seqüências pinçadas dos outros filmes, especialmente do curta “Antoine e Colette” (1962). Isto acontece por duas razões. Primeiro, porque o filmete é a passagem da vida de Doinel menos conhecida do público. A segunda razão é ainda mais importante – o reencontro com Colette (Marie-France Pisier) é o centro emocional da nova história.

“O Amor em Fuga”encontra Doinel no dia em que ele está se divorciando de Christine (Claude Jade). É um acontecimento importante, porque se trata do primeiro divórcio amigável na história da França. Doinel finalmente tem um emprego normal, de revisor em uma gráfica, e namora uma vendedora de discos, Sabine (Dorothée). Ainda no tribunal, Colette o vê de longe. Imersa em antigas memórias, ela compra o livro dele logo depois e, por uma incrível coincidência, o revê na mesma noite, na porta de um trem. Desta vez, ele a vê também. Impulsivo como sempre, Doinel pula para dentro do veículo. O papo entre os dois não será apenas recheado de lembranças, mas também o fará pôr em perspectiva todo o passado.

“O Amor em Fuga” dá toda a pinta de que Truffaut de fato não queria mais retornar a Doinel. A história passa a impressão de acerto de contas com o passado, e inclui ainda outro reencontro, de Doinel com o amante da mãe (Julien Bertheau), visto brevemente em “Os Incompreendidos”. São cenas definitivamente deliciosas para os fãs do personagem. Embora meio cansativas (porque longos demais) para quem já viu os quatro filmes anteriores, as memórias nos lembram que Doinel é um raríssimo caso de personagem tridimensional, explorado ao longo de diversos trabalhos, que amadureceu de maneira sólida, sem perder os vínculos com o passado. Vista em retrospectiva, a vida dele parece mesmo uma bem fundamentada seqüência de acontecimentos interligados em uma cadeia de causas e conseqüências. Como deve ser.

Sem jamais perder a leveza, Truffaut realiza com tato e sensibilidade uma espécie de processo de análise do personagem, cedendo à tentação freudiana de explicar – através do passado – o comportamento dele no presente. O desinteresse demonstrado por Doinel logo após conquistar mulheres por quem batalhou tanto, por exemplo, é associada ao abandono na infância pela mãe (episódio autobiográfico que Truffaut trouxe para a ficção). A bela cena no cemitério, neste caso, funciona como um lindo momento de reconciliação do cineasta com seu próprio passado. Isto reforça a idéia de que o longa-metragem captura um Truffaut em paz consigo mesmo.

A tendência de Doinel a valorizar o instante imediato e não dar muita bola para o futuro também encontra uma explicação lúcida. Goste-se ou não do caminho escolhido por Truffaut, a verdade é que tudo faz sentido, e os créditos de encerramento deixam mesmo o sabor de despedida. Três anos depois de filmar “O Amor em Fuga”, o diretor francês morreria de câncer. Não é possível saber se Antoine Doinel ainda retornaria às telas na velhice, caso o cineasta não tivesse morrido, mas é fato que “O Amor em Fuga” encerra o ciclo de aventuras do personagem com muita dignidade. Para quem gosta do personagem, é imperdível.

O DVD da Versátil possui qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) muito boa, já que o filme passou por um processo de restauração efetivado pela firma francesa MK2. Os extras é que são poucos – apenas os um trailer de cada longa-metragem com Antoine Doinel.

– O Amor em Fuga (L´Amour en Fuite, França, 1979)
Direção: François Truffaut
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Marie-France Pisier, Claude Jade, Julien Bertheau, Dorothée
Duração: 95 minutos

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