Amor nos Tempos do Cólera, O

07/07/2008 | Categoria: Críticas

Com mão pesada e nenhuma sutileza, Mike Newell dilui a delicadeza do romance original, criando uma narrativa correta, mas burocrática

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Gabriel García Márquez é um dos artífices do realismo mágico, estilo literário que surgiu na América Latina e migrou na década de 1970, com sucesso, para o cinema. No papel, a história de “O Amor nos Tempos do Cólera” (Love in the Time of Cholera, EUA, 2007), um dos livros mais importantes e conhecidos do autor colombiano, é uma saga épica que equilibra delicadamente, em cinco décadas de amor impossível, tragédia e comédia em doses iguais. Trata-se de uma daquelas histórias de sofrimento e otimismo que enlevam o espírito. Nas mãos pesadas do diretor britânico Mike Newell, porém, sai o realismo mágico e entra o melodrama. A delicadeza dá lugar a uma narrativa correta, mas pouco sutil, burocrática e sem inspiração.

A produção do filme não foi fácil. García Márquez, por exemplo, demorou quase 20 anos para concordar em vender os diretos do filme. A escalação de Mike Newell, que embarcou no projeto enquanto ainda comandava uma aventura de Harry Potter (“O Cálice de Fogo”), provocou desconfiança. Newell foi escolhido pelos produtores por causa de “Quatro Casamentos e um Funeral”, que dirigiu em 1994. O pequeno filme inglês realmente possui o mesmo tom otimista e caloroso, mesmo nos momentos mais tristes, que o livro de García Márquez. Lamentavelmente, Newell não conseguiu repetir a façanha, tomando uma série de decisões equivocadas que dilui a maior parte do humor de “O Amor nos Tempos do Cólera”, transformando-a num daqueles melodramas lacrimosos dignos de telenovelas.

Para começar, a decisão de ambientar a história em Cartagena (Colômbia) acaba se revelando um tremendo erro. Não por causa das locações, cuja arquitetura colonial do século XIX está preservada e fornece a ambientação perfeita para a história, que se passa entre as décadas de 1870 e 1920. Ocorre que fica difícil, para o espectador, aceitar que um elenco repleto de atores de origem latina (John Leguizamo, Catalina Sandino Moreno, Fernanda Montenegro, Javier Bardem) fale inglês com sotaque numa das principais metrópoles da América Latina. Assim, todo o primeiro ato do filme vai embora, enquanto a platéia tenta entrar no clima e aceitar esta imprecisão histórica, quando sabemos que quase todos os que aparecem na tela poderiam, tranqüilamente, conversar na língua original do lugar onde se passa a trama.

O trabalho de condensar um livro de 350 páginas em um roteiro com cerca de 25% deste total presta outro desserviço. Na tentativa de incluir o máximo possível de eventos pinçados das páginas, Newell e o roteirista Ronald Harwood (Oscar por “O Pianista”) optaram por comprimir as cenas ao máximo na ilha de edição, eliminando pausas necessárias para que a platéia assimile apropriadamente não os fatos, mas os significados emocionais por trás deles. Quando não há diálogos – eles são muitos, e terrivelmente expositivos, o que denota falta de criatividade para contar a história através de imagens – entra a narração em off. Tagarela, ela até que preserva a beleza das palavras de Garcia Márquez, mas impede que a saga de amor impossível ecoe na consciência de cada espectador. Afinal, quando somos obrigados a acompanhar alguém falando sem parar, não conseguimos pensar sobre o significado emocional do que estamos vendo.

Portanto, há um problema de ritmo aqui. As cenas movem a história adiante, de forma correta, mas jamais conseguimos sentir a força do drama íntimo que se desenrola dentro de Florentino Ariza (Bardem). O rapaz, dublê de poeta e telegrafista, é obrigado a esperar mais de 50 anos para tentar, sem a certeza do sucesso, consumar o amor flamejante que sente por Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno). Ele muda, ela muda, a civilização muda – tudo muda, menos o amor de Florentino por Fermina. O filme exprime tudo isso com sucesso, através da excelente direção de arte, que não só reconstitui com elegância a América Latina do século XIX, mas ajuda a assinalar a passagem do tempo de forma elegante e sutil. É um dos grandes acertos da produção.

Por outro lado, o elenco não está bem. O problema é menor no par de protagonistas, já que Bardem incorpora o sofrimento do personagem de maneira contida e a italiana Giovanna Mezzogiorno compõe uma mulher firme, decidida e que se sente eternamente devedora ao pai castrador. Os coadjuvantes, porém, não acompanham o ritmo. John Leguizamo (“O Verão de Sam”), que interpreta o pai de Fermina, atua como se estivesse no teatro, com gestos exagerados e nenhuma sutileza. A mesma observação vale para Liev Schreiber (o patrão de Florentino no telégrafo) e para Fernanda Montenegro – esta última, desconfortável, parece ter tanta dificuldade com o inglês que jamais soa natural.

Por fim, a decisão de manter todos os atores encarnando os personagens na maturidade e na velhice acaba depondo contra o filme, graças a um erro de Newell e do bom fotógrafo brasileiro Affonso Beato. Os dois filmam grande parte do terceiro ato, quando todo mundo na história já está com mais de 70 anos, abusando de close ups. Pôr a câmera colada nos rostos dos atores é um recurso cênico tradicional, quando se deseja filmar cenas de forte conteúdo emocional, mas não funciona em “O Amor nos Tempos do Cólera” porque expõe, de maneira claríssima, a pesada maquiagem utilizada para compor a caracterização. Isto acaba por quebrar a ilusão de estamos vendo uma história real, e acrescenta mais uma barreira emocional entre a platéia e o filme. O resultado é um épico romântico bonito, correto, mas que não desperta sentimentos.

O DVD nacional leva o selo da Fox, e não contém extras. A qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– O Amor nos Tempos do Cólera (Love in the Time of Cholera, EUA, 2007)
Direção: Mike Newell
Elenco: Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, Fernanda Montenegro
Duração: 139 minutos

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