Amor Sem Escalas

20/05/2010 | Categoria: Críticas

Comédia romântica de Jason Reitman resgata o velho tema da humanização de um ser insensível, com roteiro inteligente, muito duplo sentido, montágem ágil e derrapada no final

Por: Rodrigo Carreiro

[rating: 3.5]

Filho de cineasta famoso, Jason Reitman apareceu no cenário independente do cinema norte-americano com a sátira “Obrigado Por Fumar” (2005), uma brincadeira sofisticada que imagina os quatro cavaleiros do apocalipse como lobistas de indústrias potencialmente letais. Depois de uma pausa na esperta comédia adolescente “Juno” (2007), em que teve o trabalho eclipsado pelo roteiro oscarizado de Diablo Cody, ele escolheu material bem parecido para realizar seu terceiro longa-metragem. E se deu bem, realizando uma comédia romântica inteligente que atualiza para o século XXI um tema tão velho quanto o cinema: a humanização de uma pessoa que vive uma vida robótica e aparentemente insensível pela paixão.

Reitman, que co-escreveu o roteiro ao lado de Sheldon Turner (baseando-se num romance de sucesso, mas modificando-o quase ao ponto de transformar o enredo numa obra original), afirmou diversas vezes durante a promoção de “Amor Sem Escalas” (Up in the Air, EUA, 2009) que o protagonista do filme, Ryan (George Clooney), foi baseado nele mesmo. Ryan é um sujeito boa pinta que passa 300 dias por ano em aeroportos, viajando de cidade em cidade para cumprir uma tarefa ingrata que muitos executivos fazem rotineiramente, mas abominam: demitir pessoas.

É isso mesmo: Ryan trabalha numa firma cujo ofício consiste, basicamente, em fazer o trabalho sujo que ninguém quer fazer. Sempre que os executivos de alguma grande empresa precisam demitir, Ryan é chamado. Para ele, é só um trabalho como qualquer outro. O raciocínio rápido e o charme pessoal lhe garantem sucesso na tarefa. De fato, Ryan vive de aeroporto em aeroporto, e adora cada minuto disso. Sua maior meta pessoal é acumular 10 milhões de milhas aéreas e se tornar a sétima pessoa do mundo a alcançar esse índice. De fato, ele odeia ter que passar algum tempo em casa (um quarto-e-sala sem móveis que tem cheiro de “Clube da Luta”). Não existe nada lá ele goste mais do que uma mala de viagem.

O protagonista de “Amor Sem Escalas” é o retrato perfeito da Geração Y, com incapacidade crônica de sentir afeto por algo ou alguém, e absoluta incompetência para se apegar (novamente, a algo ou alguém). Durante as viagens, entre um uísque duplo e outro, ele conhece Alex (Vera Farmiga), espécie de versão em saias dele mesmo. Como ambos percorrem os Estados Unidos de ponta a ponta várias vezes por ano, acontece com freqüência dos caminhos se cruzarem, de forma que eles iniciam um romance sem compromisso. Para ambos, é apenas mais um romance. Parece um tédio. Mas não para os dois.

Verdade seja dita: embora Jason Reitman reitere que o personagem parece uma versão intensificada dele mesmo, Ryan parece ter sido escrito sob medida para George Clooney, que cultiva na vida pessoal a mesma fama que sua versão ficcional neste filme: solteirão convicto, com horror a crianças, sempre com o pé na estrada, acompanhado de mulheres lindas (uma diferente a cada semana) e uma taça de Martini. Provavelmente não há nenhum ator que dê conta de um personagem com Ryan com tanta eficiência, e Clooney brilha no papel. Sua química com Vera Farmiga é excelente.

Ademais, Reitman dribla os percalços desse enredo – que consiste basicamente de uma sucessão ininterrupta de celas de diálogos – injetando dinâmica a partir de truques de edição: montes de jump cuts, cortes e elipses abruptas, cenas curtas, ritmo acelerado de diálogos (os atores dizem suas falas rapidamente e às vezes se atropelam, como nos filmes de Howard Hawks), câmera bem próxima dos rostos, movendo-se com bastante freqüência. Os diálogos inteligentes, cheios de duplo sentido, garantem uma camada extra de diversão. E há todo um subtexto sobre o tema da dificuldade de conectar emocionalmente – tema muito atual – que dá bom caldo para reflexão posterior.

Claro que há problemas. Um deles é a chatíssima Natalie (Anna Kendrick), novata com PhD em Psicologia que, craque na teoria, se revela um desastre na prática de demitir pessoas, porque consegue enxergar gente de carne e osso por trás. A função dela na trama é óbvia: encarnar o fator que humaniza Ryan sem que ele perceba. Assim que cumpre essa tarefa narrativa, a personagem sai de cena. E aí o filme, que até então se revelava uma comédia de costumes ácida sobre um tema bastante atual, vira um pequeno dramalhão. O terceiro ato cai na velha lição de moral, que inclui uma punição simbólica para o protagonista e uma redenção pessoal pouco crível. Mas nada que comprometa a diversão.

O DVA da Paramount tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), contando ainda com uma faixa de comentário em áudio do diretor, featurette (3 minutos) e cenas cortadas (15 minutos).

– Amor Sem Escalas (Up in the Air, EUA, 2009)
Direção: Jason Reitman
Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman
Duração: 109 minutos

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