Amores Expressos

22/10/2004 | Categoria: Críticas

Wong Kar-Wai produz retrato intimista e colorido da Hong Kong dos anos 1990

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Amores Expressos” (Chungking Express, China, 1994) não é o primeiro filme do cineasta chinês Wong Kar-Wai, mas deveria ser. Foi este pequeno retrato intimista e colorido da Hong Kong dos anos 1990, produzido em apenas 23 dias como uma espécie de descanso após as estressantes filmagens de um épico de artes marciais, que redefiniu completamente a carreira de Kar-Wai. Desde então, o diretor mudou de status. De apenas um entre centenas de cineastas que fazem filmes de kung fu para consumo asiático, virou um dos grandes artífices de filmes que abordam as relações humanas, sob a ótica das coincidências e da globalização.

“Amores Expressos” provavelmente é o melhor filme de Wong Kar-Wai, o menos estetizado, o mais despojado. Desde então, o diretor decidiu destilar seus impulsos visuais (ele é formado em Design Gráfico, e por isso seus filmes parecem portfólios de propagandas, verdadeiros caleidoscópios de cores e luzes), e usá-los de forma às vezes gratuita, funcionando muitas vezes contra as delicadas tramas humanistas que contrói. O frescor de “Amores Expressos”, contudo, jamais foi repetido. Nem poderia. Esta é uma daquelas obras que transbordam de boas idéias, pois estão impregnadas da vontade febril, quase adolescente, de fazer um pequeno filme de grandes dimensões.

Os personagens de “Amores Expressos” não têm tanta importância assim; eles são meramente rascunhos, espécies de metáforas ambulantes para a poesia do cotidiano, material que Wong Kar-Wai se tornou especialista em filmar. O filme está, na verdade, dividido em duas metades bem distintas. Nos dois casos, temos policiais tentando lidar com a dor da separação de suas respectivas namoradas. Eles o fazem de maneira muito diferente.

O policial 223 compra obsessivamente latas de abacaxi em conserva. E acaba por se convencer de que, assim como o produto enlatado, seu relacionamento também possui um prazo de validade. Ele se dá um mês para conseguir reatar a relação, antes que ela apodreça em definitivo. Ocorre que, sem ele saber, um fortuito encontro com uma falsa loira traficante de drogas que anda metida em assassinato (de peruca e óculos escuros, a atriz Brigitte Lin encarna uma Greta Garbo de olhos puxados, em um das mais evidentes referências de Kar-Wai ao cinema clássico de Hollywood) vai transformar a relação em algo muito diferente.

O segundo conto é mais delicado e mais interessante. Outro policial, número 663, rumina a falência do namoro de forma tão intensa que não percebe os olhares penetrantes que garçonete Faye (Faye Wong, uma gracinha) lhe dirige. Esquecido, o rapaz acaba esquecendo a chave de casa no balcão da lanchonete, o que se torna um pretexto para que Faye faça visitas diárias à residência do amado, apenas para limpar a casa e se imaginar por lá, enquanto canta uma versão graciosa de “California Dreaming” (o sucesso do The Mamas & The Papas).

Nenhuma das duas história tem um enredo linear. A narrativa de Wong Kar-Wai é fragmentada, feita de impressões e flagrantes de pequenos momentos do dia-a-dia dos personagens. O filme também funciona como um retrato hipercolorido de uma Hong Kong globalizada, repleta de lanchonetes e bares 24 horas; de certa forma, a relação dos personagens com esse ambiente urbano efervescente é de um interesse vívido, colorido, como se todo o cenário fosse uma grande novidade para eles também. É uma Hong Kong multicultural, que cabe como uma luva na metáfora da garçonete que deseja se tornar aeromoça para poder viajar para a Califórnia (convenientemente, ela trabalha num bar que tem justamente o nome do ensolarado estado norte-americana). Tudo isso faz do filme um singelo e espontâneo estudo sobre a poesia do dia-a-dia.

“Amores Expressos” chamou a atenção de cinéfilos ocidentais. O maior exemplo é o de Quentin Tarantino, um confesso viciado em filmes asiáticos. Foi Tarantino quem se deu ao trabalho de comprar os diretos do filme e lançá-lo, em DVD, nos EUA. Essa atitude abriu as portas do ocidente para o cinema de Wong Kar-Wai. E é esta edição, sem material extra, que está disponível para quem tiver um DVD capaz de rodar discos da Região 1. No Brasil, “Amores Expressos” não foi lançado em nenhum formato.

– Amores Expressos (Chungking Express, China, 1994)
Direção: Wong Kar-Wai
Elenco: Tony Leung, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Brigitte Lin
Duração: 102 minutos

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