Anjos da Noite – A Evolução

30/08/2006 | Categoria: Críticas

Continuação do sucesso de 2003 retrabalha conceito de guerra secreta entre vampiros e lobisomens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

Não é difícil entender o sucesso que filmes como “Anjos da Noite” (2003) conseguem junto ao público jovem. A equação violência + sexo + música pesada + efeitos especiais em CGI, aplicada ao cinema de fantasia, revigorou um gênero que parecia condenado ao limbo por não conseguir mais dialogar com a juventude, público que é maioria nas salas de projeção e no mercado de DVDs. Com base nessa fórmula, os mesmos responsáveis pelo longa-metragem que arrecadou US$ 100 milhões em 2003 resolveram repetir a dose. “Anjos da Noite – A Evolução” (Underworld: Evolution, EUA, 2006) burila os mesmos ingredientes do primeiro filme, e é um prato cheio para quem gosta do gênero, apesar da grande quantidade de clichês cinematográficos que apresenta.

A maior virtude da produção de 2003 era retrabalhar a mitologia acerca de vampiros e lobisomens em torno de um novo conceito: as duas raças imortais seriam inimigas naturais e travariam uma guerra secreta, ao longo dos séculos. Os vampiros, mais aristocráticos e inteligentes, estariam levando vantagem sobre os lobisomens, seres bárbaros e violentos. Esse equilíbrio era quebrado pela aparição de Michael (Scott Speedman), humano que virava lobisomem e logo começava a apresentar uma série de poderes especiais, ao mesmo tempo em que vivia uma paixão proibida com Selene (Kate Beckinsale), uma vampira atlética de olhos azuis.

“Anjos da Noite – A Evolução” continua apostando no mesmo conceito, mas abandona um pouco o lado romântico da história, obviamente inspirado no clássico “Romeu e Julieta”, para investir em pancadaria bruta, ritmo frenético e efeitos digitais de bom nível. Dessa vez, Michael e Selene precisam juntar forças ao descobrir que as duas raças descendem, na realidade, do mesmo homem, o primeiro imortal. O sujeito, chamado Alexander Corvinus, teria nascido no século XI e tido dois filhos gêmeos, cada um responsável pelo desenvolvimento de uma das raças rivais. Assim, William (Brian Steele), mordido por um lobo, teria virado um feroz lobisomem, enquanto Markus (Tony Curran), mordido por um morcego, seria o mais poderoso dos vampiros.

Durante o primeiro ato da produção, o diretor Len Wiseman – o mesmo do primeiro filme – enfrenta problemas para explicar esse enredo complicado ao público. Recorre, por exemplo, a letreiros que abrem a projeção e também a um longo flashback do passado, em uma cena de ação que mostra como William e Markus foram enganados e aprisionados por Viktor (Bill Nighy), responsável por espalhar a informação de que seria, na realidade, o primeiro dos imortais. Já no presente, Markus está finalmente livre e planeja soltar também o irmão, para que juntos possam governar o mundo. A tarefa de Selene e Michael é impedir que isso aconteça. Mas todo esse enredo amarra a abertura do filme, que demora a engrenar.

Enquanto isso, Wiseman lança mão de truques manjados para garantir a atenção do público: lutas ferozes com uso farto de efeitos digitais, cortes rápidos e som alto. O CGI (técnica de manipulação da imagem por computador), utilizado para gerar criaturas como os lobisomens, é empregado com certo exagero, mas pelo menos é bem feito. Confira, por exemplo, a cena do ataque dos lobisomens aos vampiros, durante a seqüência inicial de flashback, que se passa no ano 1202, e repare na grande quantidade de transformações de lobisomem que o filme mostra, banalizando um dos momentos mais climáticos do cinema de horror. Um destaque interessante é o design de Markus, que o mostra com duas longas asas de morcego – além de uma presa afiada que usa para matar os inimigos – que o deixam parecido com um demônio bíblico.

Um acerto é que, ao contrário do primeiro filme, quando o roteiro pareceu esquecer por completo a mitologia envolvendo vampiros e lobisomens, aqui as regras clássicas para que “permitem” a existência dessas criaturas são restauradas. Selene e Markus, por exemplo, precisam evitar os raios de sol para não morrerem. Mesmo com isso, Len Wiseman não resistiu à tentação de dotar suas criaturas de armamento militar pesado, o que transforma os confrontos em lutas corporais que envolvem tiroteios ensurdecedores e duelos de artes marciais. Ou seja, não se trata de um filme de horror, mas de uma produção de ação. Mais uma vez, o estilo de direção, repleto de cortes abruptos e mudanças na velocidade de projeção (câmera lenta ou ultra-rápida se alternam), bebe da fonte de “Matrix”, bem como os figurinos.

O resultado final está longe de ser uma obra-prima, e certamente não vai agradar os fãs do cinema de horror à moda antiga. Por outro lado, “Anjos da Noite – A Evolução” é o tipo de filme que a geração criada com uma dieta de videogames consome com prazer, e está um degrau acima do primeiro exemplar da franquia, por ter tido mais dinheiro para gastar (U$ 50 milhões) e, assim, alcançado um patamar satisfatório na área dos efeitos especiais. Pelo jeito, Selene e Michael terão vida eterna também nos cinemas.

O DVD é da Sony. Disco simples, com imagem boa (formato widescreen anamórfico), som OK (Dolby Digital 5.1), mais um documentário de bastidores e comentário em áudio do diretor, tudo com legendas em português.

– Anjos da Noite – A Evolução (Underworld: Evolution, EUA, 2006)
Direção: Len Wiseman
Elenco: Kate Beckinsale, Scott Speedman, Tony Curran, Shane Brolly
Duração: 106 minutos

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