Anjos da Noite

01/01/2006 | Categoria: Críticas

Romeu e Julieta com vampiros e lobisomens tenta copiar ‘Matrix’ e deixa de brilhar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

Uma das obsessões mais freqüentes de Hollywood, nos últimos tempos, tem sido recontar a secular história de Romeu e Julieta de maneiras diferentes. A última novidade no assunto é “Anjos da Noite” (Underworld, EUA, 2003). Nele, os amantes não pertencem a famílias diferentes, mas a raças que mantêm uma rivalidade secular: vampiros e lobisomens. Se a premissa parece interessante, para amantes de filmes de terror, o resultado final fica bem longe disto, porque investe em clichês e tem trama embolada.

O motivo é simples. O diretor e roteirista estreante Len Wiseman tinha pelo menos duas boas opções para o desenvolvimento estético do filme. Poderia fazer uma gótica história de amor impossível e caprichar na direção de arte, mais ou menos nos moldes do “Drácula” de Francis Ford Coppola, ou um longa-metragem de terror cru e violento, temperado com uma dose de romantismo adolescente e outra de humor camp. Wiseman, contudo, preferiu uma terceira via – e se deu mal, a despeito do relativo sucesso de bilheteria do filme nos EUA.

“Underworld” é simplesmente um filme de aventura. O roteiro trata de vampiros e lobisomens, mas poderia muito bem substitui-los por israelenses e palestinos, ou por brasileiros e argentinos. Ninguém notaria a diferença, já que as criaturas imortais deixam de lado as respectivas marcas registradas das mitologias das duas raças (a lua cheia, reflexos no espelho etc.) para usar roupas de couro preto cintilante, casacos negros esvoaçantes e um arsenal de revólveres, pistolas e submetralhadoras de deixar Zé Pequeno (“Cidade de Deus”) com inveja.

Se alguém pensou em “Matrix”, acertou na mosca. “Underworld” é um subproduto descarado do primeiro longa-metragem dos irmãos Wachowski – e não apenas no figurino. As coreografias das cenas de ação tentam emular o efeito do bullet time, usam e abusam das câmeras lentas e dos cortes rápidos. A música pauleira também copia o sucesso de 1999. Até mesmo a maneira como os personagens caminham estilosamente enquanto suas armas cospem dezenas de tiros por segundo é repetida no filme de Les Wiseman. Seria preciso muito esforço para não reconhecer a cópia.

Como se não bastasse, a protagonista de “Anjos da Noite” é uma mulher durona vestida de couro preto, como uma Trinity de segunda divisão. Selene (Kate Beckinsale, de “Pearl Habour”) está na linha de frente dos guerreiros vampiros, que aparentemente levam vantagem sobre os lobisomens. É ela quem descobre um segredo: um humano, Michael (Scott Speedman), que pode reverter essa vantagem e acaba sendo mordido por um lobisomem logo no início do filme. Claro que os dois vão se apaixonar, mas essa paixão acaba enterrada embaixo de uma subtrama que envolve um segredo sobre a origem da guerra secular.

Selene só não é uma cópia completa de Trinity (“Matrix”) porque tem pitadas de “O Corvo”. Enquanto isso, os cenários e os atores coajduvantes atuam como se participassem de um estilo de moda gótica. Tudo sem novidades, sem surpresas, sem criatividade e até mesmo sem a violência crua que poderia ter dado um chame de filme B ao longa-metragem. O pior mesmo, contudo, é ver o ótimo Bill Nighy acabando com a reputação de bom comediante no papel de uma espécie de múmia vampira. Só funciona como programa inconseqüente de fim de semana.

O DVD do filme foi lançado no Brasil pela Europa Filmes. O disco é simples e não contém extras. O filme comparece com imagem de corte original (widescreen anamórfico) e com som apenas razoável (Dolby Digital 2.0).

– Anjos da Noite (Underworld, EUA, 2003)
Direção: Len Wiseman
Elenco: Kate Beckinsale, Scott Speedman, Michael Sheen, Bill Nighy
Duração: 121 minutos

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