Anjos e Demônios

01/12/2009 | Categoria: Críticas

Mais compacto e mais ágil do que o antecessor famoso, nova aventura de Robert Langdon aposta na mesma fórmula narrativa e em novas controvérsias religiosas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Quem acompanhou com algum grau de interesse (mesmo que pequeno) a celeuma envolvendo o sucesso do romance “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, sabe perfeitamente bem que o enredo de “Anjos e Demônios” (Angels & Demons, EUA, 2009), primeira aventura protagonizada pelo simbologista Robert Langdon, antecede a famosa história envolvendo a Mona Lisa e o suposto casamento de Jesus Cristo e Maria Madalena. Na versão cinematográfica da obra, contudo, a trama foi reordenada cronologicamente e ocorre após os acontecimentos vistos no longa-metragem de 2006. Esta é uma das muitas e significativas alterações feitas na narrativa pelo diretor Ron Howard e pelos roteiristas Akiva Goldsman e David Koepp.

De certa forma, esta era uma mudança previsível. Afinal de contas, para quê incluir um dado cronológico complicador em um enredo já repleto de informações históricas (reais e fictícias) e intrincadas teorias conspiratórias, que ocupam tempo precioso de projeção com infindáveis e cansativas exposições verbais? Assim, assume-se desde o princípio que os eventos vistos em “Anjos e Demônios” ocorrem alguns meses depois daqueles mostrados em “O Código Da Vinci”, ao contrário do que ocorre nos livros. Ron Howard aproveita esse dado para tornar a relação entre Langdon (Tom Hanks) e os membros da alta hierarquia da Igreja Católica, que aparecem com destaque neste filme, ainda mais tensa. Ou seja, mais controvérsias religiosas bobinhas à vista.

Outras alterações são mais radicais e podem desagradar aos fãs do romance original, que não são poucos (o livro vendeu mais de 40 milhões de cópias ao redor do planeta, número impactante mas pálido, quando comparado aos 100 milhões vendidos de “O Código da Vinci”). Algumas das mudanças incluem a completa eliminação do relacionamento afetivo que Langdon constrói com a cientista italiana Vittoria Vetra (a atriz israelense Ayelet Zurur) no decorrer da aventura. O filme também descarta parte do inacreditável final melodramático do livro, que inclui Robert Langdon voando sobre os céus de Roma com um pára-quedas improvisado. E deixa de lado, talvez para evitar mais conflitos com a Igreja, a informação de que o papa (falecido no início da história) tinha um filho consangüíneo.

Do ponto de vista cinematográfico, as mudanças funcionam bem, pois deixam o enredo mais compacto, mais ágil, eliminando boa parte dos penduricalhos narrativos que mais confundem do que esclarecem a platéia, obrigada a lidar com enorme quantidade de informação durante as duas horas e meia de projeção. Se “O Código Da Vinci” sofria com o ritmo, paralisando a ação dramática de tempos em tempos para engatar diálogos infindáveis de até 20 minutos (!), “Anjos e Demônios” se sai muito melhor, desenvolvendo um ritmo contínuo e acelerado em que as descargas verbais de exposição estão melhor integradas à ação.

Por outro lado, o personagem do simbologista sofre na mão dos roteiristas, perdendo boa parte da erudição (característica natural de um professor da Universidade de Harvard) e ganhando um raciocínio lógico que o aproxima muito mais de um Sherlock Holmes (atente para a cena inicial, em que ele adivinha a procedência do visitante que o encontra na piscina sem nem mesmo parar de nadar) do que de um professor universitário. Em troca, Akiva Goldsman e David Koepp deram um jeito de injetar mais humor à trama, boa parte dele saído da boca de Robert Langdon, que ganhou uma personalidade mais cínica e menos introvertida do que no primeiro filme. O humor também ajuda a aumentar a impressão de agilidade.

Quanto à trama, segue fielmente a estrutura de “O Código Da Vinci”, que por sua vez remete à estrutura de um game eletrônico, em que o personagem principal precisa resolver um enigma para ser impulsionado à fase seguinte, e assim sucessivamente, com o grau de dificuldade aumentando pouco a pouco, até o clímax. A receita estética também continua a mesma, trocando-se de capitais européias (saem Paris e Londres, entram Roma e o Vaticano), mas mantendo-se a correria desenfreada, a direção de arte suntuosa, a fotografia soturna repleta de sombras e a trilha sonora sinistra, aqui vitaminada por corais masculinos e cantos litúrgicos que, obviamente, ajudam a sinalizar o caráter religioso da história.

Curioso, por fim, é ver uma penca de atores famosos (quase todos bastante competentes, como o sueco Stellan Skarsgard e o alemão Armin Mueller-Stahl) lutando para manter as expressões de gravidade, enquanto dizem algumas das falas mais implausíveis já escritas para o meio audiovisual, em papéis minúsculos. Aliás, dizem que os melhores atores a gente reconhece justamente quando eles desempenham com correção personagens mal ajambrados, o que parece ser bem o caso aqui. 

O DVD de locação, simples, leva o selo da Sony. O filme tem aspecto original (widescreen 2.35:1 anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras. Já a edição dupla, lançada pera venda direta, traz um segundo disco repleto de pequenos documentários sobre locações, efeitos especiais, alterações do roteiro em relação ao livro e muito mais. A versão lançada em DVD contém aproximadamente seis minutos a mais do que a vista nos cinemas.

– Anjos e Demônios (Angels & Demons, EUA, 2009)
Direção: Ron Howard
Elenco: Tom Hanks, Ayelet Zurer, Ewan McGregor, Stellan Skarsgaard
Duração: 139 minutos

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