Anjos Exterminadores, Os

04/12/2007 | Categoria: Críticas

Polêmico longa de Jean-Claude Brisseau usa metalinguagem e seqüências gráficas de sexo para investigar o desejo feminino

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Quase todo cinéfilo que se preze guarda consigo críticas duras à falta de criatividade da produção cinematográfica contemporânea. Não é raro surgir, em rodas de amantes do cinema, opiniões lamentando o quanto os filmes – todos eles – se parecem. Se você é uma das pessoas que compartilha desta opinião e aguarda desde sempre por títulos que apresentem alguma novidade estética ou narrativa, ou que simplesmente se destaque da mesmice, tem a obrigação de conferir “Os Anjos Exterminadores” (Les Anges Exterminateurs, França, 2006). O polêmico longa-metragem de Jean-Claude Brisseau usa metalinguagem e seqüências gráficas de sexo para investigar o desejo feminino, com resultado bastante contraditório.

A originalidade inegável do filme de Brisseau nasceu na própria concepção do projeto. Em 2002, o longa “Coisas Secretas” usou de muita sensualidade para contar a história de duas garotas que usavam o sexo para subir na vida. O longa foi eleito melhor filme do ano pela prestigiosa revista Cahiers du Cinéma, e se tornou o mais famoso filme de Brisseau. Não demorou muito, porém, para que a obra também trouxesse problemas ao diretor. Quatro atrizes que haviam feito testes (não aprovados) para o filme se uniram e abriram um processo judicial, acusando Brisseau de assédio sexual. Tudo isso porque, durante os testes para definição do elenco, o cineasta havia rodado com elas cenas de nudez e masturbação.

Brisseau perdeu o processo (e quinze mil francos de indenização), mas ganhou inspiração para um novo filme. O que ele fez? Transformou o episódio, que lhe trouxe escândalo e fama negativa internacional, em uma espécie de purgação. “Os Anjos Exterminadores” ficcionaliza o caso com ousadia, usando doses generosas de nudez feminina e elementos caros ao realismo mágico (os anjos do título, figuras femininas vestidas de negro obviamente inspiradas nos seres celestiais de “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, influenciando as atitudes das pessoas que acompanham). O resultado é um filme corajoso, mas ambivalente, com momentos interessantes de reflexão sobre a relação entre a sociedade e a sexualidade feminina, ao mesmo tempo em que opta por escolhas estéticas equivocadas.

Na trama, o cineasta François (Frédéric van den Driessche) resolve, a partir de um episódio ocorrido durante a pré-produção de um filme, filmar uma história sobre o desejo feminino. O teste de escolha do elenco consiste em convencer as atrizes novatas – todas lindas e interessantes – a se masturbar ou protagonizar cenas tórridas de sexo lésbico ( “Os Anjos Exterminadores” é recheado de seqüências feitas sob medida para preencher um repertório completo de fantasias masculinas, o que rendeu ao diretor críticas agressivas de exploração sexual e machismo). François consegue reunir três gatas: Julie (Lise Bellynck), Charlotte (Maroussia Dubreuil) e Stephanie (Marie Allan). E fica tão excitado com a experiência que segue com o filme, cada vez mais problemático, sem perceber está comprometendo não apenas a própria carreira, mas também a vida pessoal.

“Os Anjos Exterminadores” não é, nem de longe, um filme comum. Sua narrativa está próxima dos experimentalismos de Jean-Luc Godard, com uso de metalinguagem arrojada e uma série de elementos que nos lembram, a todo momento, que estamos assistindo um produto de ficção: os “anjos” femininos que influenciam atitudes de gente à volta de François, trechos de uma suposta locução radiofônica “do além” que misturam poesia com religião, colapsos nervosos de uma das garotas do filme dentro do filme. Brisseau se mostra perfeitamente consciente de estar transpondo um limite invisível, e até mesmo inclui uma ou duas cenas em que faz defesa prévia das acusações de machismo e exploração da nudez feminina que o filme de fato acabou enfrentando.

É justamente nesta tentativa de defesa prévia que Brisseau começa a se perder. Para justificar o ponto de vista masculino e quase alienígena, no que se refere à mulher, o cineasta usa uma série de clichês rasteiros. No filme, as mulheres entendem melhor umas às outras, inclusive do ponto de vista estritamente fisiológico (não há afinal outra razão para que nenhum homem entre nos jogos sexuais incentivados pelo cineasta ficcional). As três protagonistas do filme dentro do filme, todas heterossexuais, admitem, cada uma a seu modo, que não encontram satisfação completa com nenhum macho. Todas se apaixonam pelo diretor, admitindo que vêem nele uma atenção desinteressada que se fez interessante. Os personagens masculinos, a começar por François, são sempre distraídos e distantes – o comportamento do diretor ficcional em relação a Julie, a mais sensível das três meninas, apenas reforça isso.

Para completar, o cineasta francês filma as tórridas cenas de sexo usando uma estética fetichista completamente equivocada, como se estivesse fazendo um pornô softcore de terceira categoria: iluminação em tons dourados e com sombras cobrindo estrategicamente as partes mais explícitas, e música melodramática que evolui no mesmo ritmo dos orgasmos das personagens. A melhor cena erótica, e também a que tem mais potencial para excitar os espectadores, é a primeira aparição de Julie, quando ela usa uma bolinha de silicone para se auto-acariciar – não por acaso, é também a única cena de sexo filmada de modo cru e realista. Apesar dos deslizes, é fato que “Os Anjos Exterminadores” passa longe do panorama repetitivo e modorrento que tem provocado tantas críticas ao cinema contemporâneo. Por ser um programa tão diferente, merece uma conferida.

O DVD de locação, da Focus, é simples e sem extras.

– Os Anjos Exterminadores (Lês Anges Exterminateurs, França, 2006)
Direção: Jean-Claude Brisseau
Elenco: Frédéric van den Driessche, Lise Bellynck, Maroussia Dubreuil, Marie Allan
Duração: 98 minutos

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