Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, O

15/06/2007 | Categoria: Críticas

Olhar infantil e delicado marca belo drama de Cao Hamburguer sobre uma criança solitária no regime militar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Criar filmes ambientados em momentos históricos de muita dor faz parte do processo de cicatrização das feridas emocionais abertas pelo grande trauma. Via de regra, qualquer sociedade leva alguns anos (ou, dependendo do tamanho da ferida, décadas) para lidar com essa dor. Por isso, não é de espantar quando, após evitar durante muito tempo a época sangrenta do regime militar brasileiro, os cineastas nacionais saíram do casulo durante os anos iniciais do século XXI. Os longas-metragens que dissecam os chamados Anos de Chumbo são abundantes e muito diferentes entre si, indo da comédia rasgada (“A Taça do Mundo é Nossa”) ao drama político clássico (“Batismo de Sangue”). Entre as muitas obras que abordam o período negro, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (Brasil, 2006) é uma das mais bem sucedidas.

O segredo do sucesso faz parte do background profissional do diretor Cao Hamburguer. Egresso da televisão, o cineasta comandou durante muitos anos o elogiado programa infantil “Castelo Rá-Tim-Bum”, na TV Cultura, desenvolvendo assim uma sensibilidade toda especial para captar os dramas das crianças. Utilizando-se dessa bagagem, Hamburguer soube montar com presteza e sobriedade um drama delicado sobre as solitárias e dolorosas experiências de um menino de 11 anos, durante o ano de 1970, período em que a perseguição aos militantes esquerdistas que resistiam aos militares recrudesceu ao máximo.

“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” não é um filme político, talvez nem mesmo uma crônica sobre a ditadura. A história de Mauro (Michel Joelsas), pirralho mineiro fanático por futebol e praticante inveterado do jogo de botão, utiliza o contexto político difícil como mero pano de fundo. O filme reproduz o período em que, perseguidos pelos militares, os pais de Mauro o deixam de surpresa na casa do avô (Paulo Autran, em ponta curta), alegando estarem entrando “em férias” e prometendo voltar para buscá-lo o mais rápido possível. Um lamentável incidente ocorrido no mesmo dia da chegada, porém, faz com que Mauro precise ficar sob os cuidados de um vizinho do avô (Germano Haiut), em meio à comunidade judia de São Paulo, sem conhecer ninguém no bairro.

A minuciosa e detalhada reconstituição de época é uma das maiores virtudes do longa-metragem. Neste aspecto, talvez “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” seja um dos filmes brasileiros mais bem sucedidos, com figurino (calções, chuteiras, calças, camisas), objetos cênicos (bolas de couro, automóveis, móveis) e cenários (bar, fábrica) absolutamente impecáveis, perfeitos nos mínimos detalhes. Nada disso seria útil, porém, se o roteiro – assinado por quatro nomes de peso, incluindo o próprio diretor, Anna Muylaert (“Durval Discos”), Bráulio Mantovani (“Cidade de Deus”) e Cláudio Galperin – não abordasse o drama de Mauro com sensibilidade e delicadeza. E isto é feito de maneira sutil e engenhosa, como os melhores filmes devem fazer.

Observe, por exemplo, o fato de Mauro gostar de jogar como goleiro não é gratuito. Como bem observou o crítico Cássio Starling Carlos, jogar no gol é sinônimo de solidão dentro do campo. Todas as outras dez posições, no futebol, exigem um jogo coletivo. O goleiro, ao contrário, é uma figura passiva e solitária durante quase toda a partida. Ele fica sozinho, contemplando o jogo, passa quase ao largo dele. É uma posição até certo ponto melancólica. Uma postura exatamente idêntica à que Mauro é obrigado, pelas circunstâncias, a tomar diante da vida: observar o movimento no bairro pela janela, interagir pouco com os vizinhos, suportar a solidão.

Por outro lado, Cao Hamburguer conhece muito bem o processo de construção da personalidade de uma criança, e usa esse conhecimento em favor do filme, dotando-o de um ponto de vista essencialmente infantil – curioso, desarmado, ingênuo. Por razões óbvias, Mauro não compreende muito bem o que aconteceu com os pais, mas intuitivamente sabe que há algo errado. Sabe que eles não estão exatamente de férias, e que a situação tende a piorar cada vez mais. A tristeza perene de Mauro se confunde com a tensão na comunidade judaica e também com os arroubos de alegria da população em geral, extremamente preocupada com a disputa da Copa de 1970. “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” lida muito bem com situações complexas, com muitos sentimentos distintos envolvidos, e por isso se destaca entre tantos outros longas que passam a limpo o mesmo período histórico.

O DVD é da Buena Vista. O filme surge com ótima qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há dois making of, um deles bem completo (28 minutos) e o outro curtinho (10 minutos). Uma galeria com seis cenas excluídas, um segmento com erros de gravação e outro contendo entrevistas (16 minutos) completam o pacote.

– O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Brasil, 2006)
Direção: Cao Hamburguer
Elenco: Michel Joelsas, Germano Haiut, Daniela Piepszyk, Caio Blat
Duração: 110 minutos

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