Anos de Rebeldia

13/06/2005 | Categoria: Críticas

Dennis Hopper dirige interessante projeto não-autoral com trajetória de família do meio-oeste americano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Dennis Hopper é dono de uma das carreiras mais singulares de Hollywood. Doidão assumido durante mais de 20 anos, ele começou contracenando com James Dean e dirigiu um dos maiores ícones da geração hippie, o road movie “Sem Destino”. O vício em drogas pesadas, no entanto, cobrou seu preço, e Hopper não segurou a onda. Mais lembrado pelos jovens como vilão/psicopata de filmes de segunda categoria (“Waterworld” e “Velocidade Máxima”), Hopper não deu continuidade à carreira como diretor, apesar de ter assinado obras interessantes, como é o caso de “Anos de Rebeldia” (Out of the Blue, Canadá, 1980).

O obscuro filme canadense de baixo orçamento não era, a princípio, um projeto autoral de Dennis Hopper. Contratado como ator, ele havia acabado de conseguir se livrar da cocaína, e tinha energia de sobra para se dedicar ao projeto. Por isso, quando viu os produtores em apuros, assumiu a obra. Em duas semanas, reescreveu o roteiro, mudou locações e deu o toque final no clima melancólico do filme ao decidir usar uma canção de Neil Young (“My My Hey Hey”, de onde vem a expressão do título original, que literalmente traduzida seria algo como “Surgido do Nada”) para pontuar a trajetória de uma família desajustada do meio-oeste americano.

Essa clima de improviso, é claro, vazou dos bastidores para a frente das câmeras, o que foi muito bom para o projeto. Percebe-se, por exemplo, que Hopper não fez uma direção rígida de atores, deixando-os improvisarem os diálogos e impedindo-os de seguir uma marcação evidente. Por isso o filme não tem as características pausas entre uma fala e outra. Você ainda não notou que em quase todos os filmes de Hollywood as pessoas nunca se atropelam falando? Ou seja, os atores esperam que os colegas acabem de falar para poder declamarem suas falas? Se isso facilita a compreensão dos diálogos pelas platéias, por outro lado fica muito diferente da vida real, onde nos comunicamos com frases pela metade e palavras interrompidas.

“Anos de Rebeldia” realiza uma saudável transgressão dessa regra, bem como abre mão de cuidados extras na parte técnica. Filmado em locações reais, como o depósito de lixo em que o personagem de Dennis Hopper trabalha após sair da cadeia, o longa-metragem captura como poucos o ritmo da vida real, enfocando a narrativa em uma personagem feminina fascinante: a adolescente CB (Linda Manz). Garota apaixonada por punk rock e Elvis Presley, cheia de energia e dona de um linguajar rude, ela tem uma porção criança que tenta esconder a todo custo, soterrando-a atrás de pôsteres, de uma bateria e de uma guitarra que ela não sabe tocar, mas que usa para abafar o ruído à sua volta. CB é solitária e carente, mas faz pinta de durona.

Na verdade, ela é uma criança criada no meio da loucura. A mãe, Kathy (Sharon Ferrell), trabalha como garçonete para sustentar o vício em heroína. O pai, Don (Hopper), está preso por ter provocado um acidente com um ônibus escolar que matou dezenas de crianças; para completar, é alcoólatra. Gravitam em torno da família outros personagens típicos do submundo, como o bêbado Charlie (Don Gordon) e o tímido dono de restaurante Paul (Eric Allen), que gosta de Kathy mas não tem coragem de enfrentar Don quando este sai da cadeia.

O filme possui uma narrativa episódica, caminhando de cena em cena sem um objetivo evidente. Na verdade, parece mais uma coleção de esquetes que representam o cotidiano tedioso e confuso de CB. A menina foge de casa e vai parar em um prostíbulo onde o dono fuma maconha e cheia cocaína. Sob os olhares lascivos do sujeito, CB deita na cama e… põe o dedo na boca, preparando-se para dormir como um bebê crescido. Ela não precisa falar muito para expressar a mente confusa que a ausência de ambos os pais produziram. A atriz Linda Manz faz um trabalho excepcional, com o qual chegou a concorrer ao prêmio de atriz do ano em Cannes.

Há pelo menos uma grande seqüência no longa-metragem, que é quando Don, livre da prisão pela primeira vez em cinco anos, reúne a família e algumas garrafas de vinho para ir à praia fazer um piquenique. O dia está frio, e Kathy não agüenta ficar sob o vento gelado do lugar, o que provoca uma explosão de fúria e frustração do marido. CB não entende muita coisa; entende o suficiente para saber que o futuro, como diz o ídolo Johnny Rotten (dos Sex Pistols), não existe. O final da película é surpreendentemente adequado, e corajoso.

A qualidade do DVD infelizmente não é perfeita. A imagem (exibida no formato de tela original, widescreen) apresenta pontos pixelizados nas cenas mais movimentadas. A trilha de áudio é boa, mas está no formato Dolby Digital 2.0. Como extras, apenas biografias e trechos de críticas. Vale lembrar que a Anchor Bay lançou, em 2003, uma edição nos EUA que contém comentário em áudio de Dennis Hopper, com o produtor executivo Paul Lewis e o distribuidor John Alan Simon. De qualquer forma, o simples lançamento de um filme tão obscuro já merece aplausos.

– Anos de Rebeldia (Out of the Blue, Canadá, 1980)
Direção: Dennis Hopper
Elenco: Linda Manz, Dennis Hopper, Sharon Farrell, Don Gordon
Duração: 93 minutos

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