Antes do Pôr-do-Sol

21/03/2005 | Categoria: Críticas

Continuação de pérola de 1995 retoma personagens fascinantes com energia e espontaneidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O filme “Antes do Amanhecer”, de 1995, tinha um fascinante final em aberto. Na produção, dois estudantes, um norte-americano e uma francesa, se apaixonavam durante uma noite de passeios e conversas em Viena (Áustria). Eles se despediam na plataforma de uma estação de trem e combinavam se reencontrar ali, seis meses depois. O filme não responde se o reencontro realmente acontecia ou não. “Antes do Pôr-do-Sol” (Before Sunset, EUA, 2004), a continuação tardia, finalmente dá a resposta a essa questão.

Não se engane: o conceito por trás de “Antes do Pôr-do-Sol” faz com que o novo longa-metragem seja muito mais interessante do que as habituais continuações caça-níqueis de Hollywood. “Antes do Pôr-do-Sol” utiliza um conceito parecido com o que o cineasta inglês Michael Apted usa para a série de documentários “Up”. Desde 1964, Apted acompanha a vida de 14 pessoas, reencontrando-as a cada sete anos e produzindo um novo longa-metragem a cada período. Ethan Hawke e Julie Delpy inclusive já demonstraram interesse em voltar a encarnar Jesse e Celine, em intervalos regulares.

Dessa vez, o filme propõe um reencontro dos dois personagens nove anos depois que eles se conheceram. É 2004 e Jesse (Ethan Hawke) está em Paris, para lançar um livro. Ele concede uma entrevista em uma pequena livraria quando percebe que Celine (Julie Delpy) está acompanhando tudo, atrás dos repórteres. Logo que se desvencilha do compromisso, vai encontrá-la. Como da primeira vez, trata-se de um encontro que vai contra o relógio; Jesse precisa pegar um avião para os EUA dentro de duas horas. De novo.

Embora ter assistido a “Antes do Amanhecer” não seja pré-requisito para compreender a nova produção, os espectadores já familiarizados com a história de Jesse e Celine vão perceber uma simetria evidente entre os dois longas. Ambos são filmes de diálogos, que apresentam apenas dois personagens conversando incessantemente, durante toda a duração (sim, isso significa uma quantidade generosa de legendas; se você não gosta delas, o filme poderá ser um grande enfado para você).

Além disso, ambos têm como cenários passeios encantadores por capitais européias. Ambos possuem, finalmente, esse caráter de “correndo-contra-o-relógio”, que torna os dois encontros impregnados de uma urgência, de uma tensão que somente amantes prestes a perder o amado de vista podem compreender. Essa última característica talvez seja o elemento que faz da série de filmes – se é que podemos chamá-la assim – tão especial.

“Antes do Pôr-do-Sol” não é, de forma alguma, uma variação do primeiro filme. Dessa vez, o diretor Richard Linklater foi mais esperto e envolveu os dois colegas atores no processo criativo, transformando-os em co-roteiristas. Os três escreveram os diálogos juntos, e Julie ainda contribuiu com uma canção (muito bonita, por sinal). Talvez por isso, o filme se transforma em um único e gigantesco diálogo. Um diálogo complexo e fascinante, que flagra o tortuoso processo de reaproximação dos amantes.

O diálogo tem, na verdade, várias camadas. Começa hesitante, cauteloso, com Jesse e Celine se estudando. Progressivamente, eles vão reencontrando o antigo encantamento, a mágica que existe entre os dois. Finalmente, acabam nostálgicos por uma nova separação que se anuncia. O diálogo passeia muito bem por essas fases, e a platéia tem realmente a sensação de que está assistindo a um pedaço da vida, com duas pessoas de carne e osso, e não a uma encenação. Isso é tão raro de acontecer que transforma “Antes do Pôr-do-Sol” em um filme especial, quase que instantaneamente.

O desenvolvimento correto dos personagens de Jesse e Celine é responsável por esse acerto. Jovens românticos e idealistas no primeiro filme, os dois agora já passaram dos 30 anos, já viveram alegrias e decepções. Já conheceram a vida e possuem os corações mais endurecidos. Na essência, porém, continuam os mesmos. Jesse, em particular, sabe disso. “Os acontecimentos não mudam as pessoas. O cara otimista e bem-humorado será, seis meses depois de um acidente, um otimista numa cadeira de rodas. Já o cara chato e arrogante será um arrogante com piscina e carro novo, depois de ganhar na loteria”, diz, em certo momento. É isso. Talvez essa seja a frase que resuma melhor “Antes do Pôr-do-Sol”.

Os diálogos são, novamente, um ponto forte; dessa vez, ainda melhor trabalhados do que antes, pois exprimem com exatidão as mudanças que vão acontecendo durante o passeio. Jesse e Celine começam falando sobre amenidades, vão tateando sobre os limites daquilo que podem conversar. Aos poucos, introduzem as reflexões sobre política, sentimentos, viagens, família, incertezas, dúvidas, medos e paixões – sobre as coisas da vida. Melhor ainda: eles sabem falar, são articulados e inteligentes, mas também são grandes ouvintes.

No aspecto técnico da coisa, “Antes do Pôr-do-Sol” é uma sucessão de proezas, pois se passa em tempo real (ou seja, a ação dramática dura o mesmo tempo que transcorre do lado de cá da tela). Foi filmado quase totalmente em locação, em longos planos sem cortes, o que torna todo o processo ainda mais complicado, tanto para os atores (que precisam recitar os diálogos de modo convincente e espontâneo durante sete ou oito minutos sem parar) quanto para Linklater (imagine a dificuldade de filmar um casal caminhando pelas ruas de Paris sem poder cortar durante quase 10 minutos!).

Ethan Hawke está ótimo, e a química dos dois atores é impecável, mas se o filme tem dono, este é Julie Delpy; linda e inteligente, é ela quem conduz quase todo o diálogo. Sua participação é tão magnética que ela acaba por se destacar além dos dois parceiros. E o mais bacana de tudo é que, para completar uma simetria perfeita, “Antes do Pôr-do-Sol” também possui um final intrigante e aberto, daqueles capazes de deixar o espectador mordendo a cadeira do cinema para saber o que aconteceu depois que a tela ficou negra. Talvez a gente tenha que esperar mais nove anos para saber.

O DVD da Warner é um pacote básico de qualidade. Contém o filme com imagens no formato original, widescreen, e trilha de áudio Dolby Digital 5.1. Há um único extra, além do trailer obrigatório: um pequeno documentário de 10 minutos que traz entrevistas com diretor e atores, além de cenas gravadas nas locações. Legal, mas longe de ser excepcional.

– Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, EUA, 2004)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy
Duração: 80 minutos

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