Antes Só do que Mal Casado

17/03/2008 | Categoria: Críticas

Filme dos irmãos Farrelly metalha piadas para todos os lados, e algumas até acertam o alvo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Os irmãos Peter e Bobby Farrelly fizeram fama com duas pequenas obras-primas da comédia politicamente incorreta: “Debi e Lóide” (1994) e “Quem Vai Ficar com Mary?” (1998). A partir daí, porém, entraram numa zona de conforto e passaram a desovar projetos de forma burocrática, seguindo sempre uma mesma fórmula. A estratégia consiste em filmar comédias românticas clássicas, preenchendo-as com piadas irreverentes e muita escatologia. “Antes Só do que Mal Casado” (The Heartbreak Kid, EUA, 2007) segue a mesma linha de títulos como “O Amor é Cego” (2001) e consegue um resultado ambivalente: você ri um bocado, mas sabe que está vendo um filme apenas mediano.

É preciso observar, antes de tudo, que não se trata de um projeto autoral. O longa-metragem é uma produção que os estúdios Dreamworks vinham desenvolvendo há anos, e que já esteve ligada a diretores como Barry Sonnenfeld (“Homens de Preto”). A inspiração veio de uma sátira ao casamento feita em 1972, chamada no Brasil de “O Rapaz que Partia Corações”. Essencialmente, trata-se da mesma trama, só que devidamente recheada pelas marcas registradas dos irmãos Farrelly: gags físicas na linha dos amados Três Patetas (os irmãos adoram), elementos politicamente incorretos e gozações envolvendo minorias – depois dos sarros tirados com cegos, deficientes mentais, albinos e gordos, chegou a vez dos velhos e imigrantes.

“Antes Só do que Mal Casado” reúne novamente os irmãos Farrelly com o comediante Ben Stiller. Tanto o ator como os diretores faziam parte da segunda divisão de Hollywood quando despontaram para o estrelato com “Quem Vai Ficar com Mary?”. Uma reunião eventual já era previsível. Além disso, o longa se ajusta perfeitamente à persona cinematográfica desenvolvida por Stiller – a do rapaz simpático e desastrado que vive se metendo em confusões conjugais, como já havia ocorrido com obras como a série “Entrando numa Fria” e “Tenha Fé”. É uma história pobre e previsível, mas contém algumas piadas realmente boas.

Na verdade, o grande truque de Peter e Bobby Farrelly está na enorme quantidade de gags que conseguem enxertar no enredo. Funciona assim: se uma determinada piada não provoca risadas, o espectador não precisa esperar muito pela próxima. De piada em piada, o filme consegue angariar algumas boas risadas. O ritmo incessante só é quebrado, aqui e acolá, com longas e chatas elipses musicais (aqueles trechos românticos em que o tempo é comprimido e canções pop bonitinhas são acompanhadas de tomadas aéreas, ou dos personagens rindo e se beijando). De fato, o cinema dos Farrelly nunca foi muito conhecido pela ousadia técnica – os dois sempre investiram toda a criatividade nas tiradas politicamente incorretas que pontuam a trama. Nenhuma novidade aqui.

A história é sobre um cara de 40 anos (Stiller) que começa a ficar desesperado ao perceber que todos os amigos já estão casados. Após um encontro fortuito com uma loira deslumbrante (Malin Akerman), Eddie não precisa de mais do que algumas semanas para colocar a aliança. Já na lua-de-mel, num hotel mexicano paradisíaco, a princesa vira sapo e se revela ninfomaníaca, grosseira, desempregada e endividada. Ao mesmo tempo em que percebe que entrou numa enrascada, nosso herói conhece uma menina que é um doce (Michelle Monaghan) e se apaixona. Aí o filme vira aquela típica comédia pastelão, enquanto o sujeito corre de um lado a outro, mentindo para todo mundo e se esforçando para esconder uma mulher da outra. Você sabe onde tudo isso vai dar, certo? Nenhuma novidade aqui também.

Por outro lado, há momentos inspirados. Algumas das piadas são realmente engraçadas, como o discurso pós-casamento feito por uma ex-namorada de Eddie, avacalhando todos os parceiros anteriores. As melhores gags são preparadas com antecedência – preste atenção na conversa de Eddie com o melhor amigo, durante a mesma festa de casamento da ex, a respeito da mãe dela, e confira como este momento aparentemente sem sentido faz a ponte para um momento hilariante, que finaliza a piada muitos minutos depois. A caracterização cafajeste do pai de Eddie (interpretado pelo verdadeiro pai do ator Ben Stiller) também é uma boa sacada.

O que incomoda mesmo é que os irmãos Farrelly não têm muito cuidado na construção dos personagens. O melhor exemplo disto está na loira com quem Eddie casa. Até o casamento, a moça é mostrada como um par perfeito – linda, sensual, esperta, cheirosa. Basta a cerimônia terminar e ela muda da água para o vinho. Seria um sinal de inteligência se os irmãos cineastas tivessem pontuado o primeiro ato com pequenos e discretos sinais do que estava por vir, mas isto simplesmente não acontece (ou seja, eles trapaceiam o espectador mesmo). Uma parte do problema está na boa performance da atriz Malin Akerman, que não encontra problemas para modificar o registro da interpretação, transformando o que era uma bela mulher espirituosa numa verdadeira bruxa, egocêntrica e intragável.

De qualquer forma, Akerman não é a única responsável, já que os Farrelly esquecem detalhes das personalidades dos personagens quando é conveniente, demonstrando desleixo com o roteiro. Quer um exemplo? O bom gosto musical da garota, expresso pela figura de David Bowie estampado numa calcinha, é deixado de lado assim que perde a função dramática de aproximar os dois pombinhos. Alguns minutos mais tarde, lá esta Lila cantando histericamente as músicas mais bregas que você pode imaginar, a caminho do hotel onde os dois vão celebrar o casamento, enquanto Eddie fica se perguntando onde diabos foi parar aquela moça divertida com quem ele acabou de casar. Conclusão: fazer rir não é tudo. Difícil mesmo é amarrar boas piadas numa história que deixe saudades quando acaba, o que infelizmente não acontece aqui.

O DVD da Paramount contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem comentário em áudio dos irmãos Farrelly, quatro featurettes sobre os bastidores da produção, galeria de cenas inéditas e erros de gravação.

– Antes Só do que Mal Casado (The Heartbreak Kid, EUA, 2007)
Direção: Peter e Bobby Farrelly
Elenco: Ben Stiller, Michelle Monaghan, Malin Akerman, Jerry Stiller
Duração: 115 minutos

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