Anti-Herói Americano

28/11/2004 | Categoria: Críticas

Mistura de documentário e ficção traduz com criatividade vida de quadrinista norte-americano para o cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Anti-Herói Americano” (American Splendor, EUA, 2003) foi o grande vencedor do Festival de Sundance de 2003. Isso significa muita coisa. Para quem não conhece, Sundance é o evento cinematográfico que serve de vitrine para os melhores e mais arrojados trabalhos criados fora da fronteiras de Hollywood. “A Bruxa de Blair” e “Central do Brasil”, apenas para citar dois filmes conhecidos, surgiram para o mundo em Salt Lake City, onde o festival acontece.

O longa-metragem do casal Shari Springer Berman e Robert Pulcini enquadra-se à perfeição no tipo de película valorizada em Sundance, pois tece uma crítica brutal à sociedade contemporânea, enquanto nos revela o lado negro do sonho americano. Não que isso seja uma grande novidade, já que muitos filmes (até mesmo dos grandes estúdios, como “Beleza Americana”) o fazem. O maior atrativo de “Anti-Herói Americano” é a estética inovadora. Ela faz do filme uma experiência cinematográfica inesquecível.

A mistura cada vez mais radical entre ficção e realidade, a rigor, tem sido um dos grandes temas do cinema contemporâneo. É possível ver esse tema nos filmes mais díspares, com infinitas abordagens. Bons exemplos são “Matrix”, “ExistenZ”, “Dançando no Escuro”, “Spider – Desafie sua Mente” e “Preso na Escuridão”. A cinebiografia do roteirista de quadrinhos Harvey Pekar, contudo, é o primeiro documentário a investigar a fronteira sonho/real. E o faz de maneira radical, pioneira e bem-humorada.

Na realidade, “Anti-Herói Americano” não deve ser considerado, ao pé da letra, um documentário. O filme é uma grande salada de linguagens. O melhor exemplo desta afirmação está exatamente no personagem principal. Três diferentes Harvey Pekar dividem a tela: (1) o verdadeiro, que dá alguns depoimentos e faz a narração em off; (2) o ator Paul Giamatti, que interpreta o roteirista nas cenas ficcionais; e (3) a versão toscamente animada de Pekar, que aparece nas páginas da revista American Splendour, editada por ele.

Pausa para explicação: Harvey Pekar é um dos mais radicais autores de revistas em quadrinhos dos EUA. Arquivista de um hospital e solitário de carteirinha, Pekar começou a escrever para gibis em 1976, por causa da amizade que mantinha com Robert Crumb, gênio dos quadrinhos autorais (criador do gato Fritz e protagonista do excelente documentário “Crumb”, de Terry Zwigoff). A revista American Splendour funciona mais ou menos como um diário de Pekar, onde ele anota pedaços do cotidiano e tece observações pessimistas a respeito de tudo que lhe dá na telha. São textos crus, de uma franqueza desconcertante, como nos momentos em que Pekar protagoniza uma busca desesperada por uma namorada (qualquer uma).

Portanto, “Anti-Herói Americano” mistura animação, seqüências ficcionais e cenas documentais. E faz isso com muita criatividade, de modo que a estratégia jamais confunde o espectador. Melhor do que isso: funciona como um sopro de ar fresco ao enredo, imprimindo ao trabalho uma agilidade narrativa e um bom-humor que o carrancudo e ranzinza Pekar não possui.

Aliás, o filme evita brilhantemente que Harvey Pekar seja transmutado em uma piada ambulante, como fez o apresentador David Letterman, que levava o roteirista mensalmente ao programa para fazer o público embolar de rir. Essas seqüências, também mostradas em “Anti-herói Americano”, mostram a maneira clássica de a sociedade dos EUA aceitar figuras marginais como Pekar: ridicularizando-as, transformando-as em motivo de riso e, assim, retirando delas toda carga de crítica social que porventura possam ter. “Anti-herói Americano” denuncia essa estratégia, e só por isso já merece ser considerado um grande filme.

Mas a película tem muito mais. Tem, por exemplo, uma interpretação magnética do comediante Paul Giamatti, encarnando Pekar à perfeição. Testa franzida em eterno mau-humor, costas arqueadas como se carregasse o mundo nos ombros, Giamatti transpira fracasso, mas jamais inspira compaixão, o que é uma grande vitória. Já a atriz Hope Davis, intérprete da namorada de Pekar, Joyce Brabner, entrega uma performance energética e nunca menos do que espetacular. Esse é um filme de atores!

Há inúmeras seqüências que merecem destaque, mas talvez o melhor momento do filme seja exatamente o final, que exprime direitinho o ponto de vista de Harvey Pekar. Para a maior parte dos espectadores, pode parecer um final feliz, pelo menos um final digno para um sujeito tão marginal. É dessa forma, quase nostálgica, que as últimas imagens do longa-metragem são inicialmente apresentadas. Mas aí entra a narração em off do quadrinista, e ele raciocina, sobre tudo o que acabamos de ver, dentro da sua própria visão pessimista.

Essa estratégia inteligente dos cineastas transforma completamente o sentido das imagens. Shari Springer Berman e Robert Pulcini parecem dizer que tudo, em “Anti-Herói Americano”, é uma questão de ponto de vista – e o de Pekar transborda pessimismo. Filmes assim, em que ao espectador ainda é dada a possibilidade de refletir individualmente, são um grande triunfo.

O DVD do filme, lançado pela Warner, vem quase pelado, mas com boa qualidade de imagem (widescreen) e áudio (Dolby Digital 5.1). Tem um comentário em áudio (sem legendas) do casal de diretores e um pequeno documentário (6 minutos) que acompanha Harvey Pekar, os atores e cineastas na turnê promorcional do filme, em Sundance, Cannes e nas pré-estréias mais importantes.

– Anti-Herói Americano (American Splendor, EUA, 2003)
Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Elenco: Paul Giamatti, Hope Davis, Harvey Pekar, Judah Friedlander, Toby Radloff
Duração: 101 minutos

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