Anticristo

18/12/2009 | Categoria: Críticas

Repleto de imagens de sexo e violência, filme de Lars Von Trier flerta com a polêmica (de novo) e brinca com códigos do horror e do cinema pornô

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Quem segue mais ou menos de perto a carreira singular de Lars Von Trier sabe que o diretor dinamarquês gosta muito de cinema popular. Uma olhada atenta dirigida aos filmes dele revela, por exemplo, elementos de diversos gêneros fílmicos distintos: musical (“Dançando no Escuro”), melodrama (“Ondas do Destino”), filme de gângster (“Dogville”). Em entrevistas, Von Trier já havia expressado desejo de realizar pelo menos um título de horror e um pornô legítimo. “Anticristo” (Antichrist, Dinamarca/Alemanha, 2009), representa, de certa forma, a convergência desses desejos em um único produto.

As impressões digitais idiossincráticas do dinamarquês estão espalhadas por todo o longa-metragem, realizado durante um período de depressão clínica que ele enfrentou (entre 2005 e 2009). O filme foi lançado sob intensa polêmica em Cannes 2009, recebendo vaias e duras críticas durante as projeções para a imprensa especializada. Embora a atriz francesa Charlotte Gainsbourg tenha ganho o prêmio de melhor atriz no festival, o filme em si acabou agraciado com um inusitado anti-prêmio, atribuído pelo júri, pela suposta misoginia declarada do diretor. Polêmico? Claro. Mas, levando em consideração o tipo de recepção dado às obras de Lars Von Trier, pura rotina.

É um filme duro, capaz de provocar pesadelos em muita gente, mas não pelas razões que se espera ao interpretar o título. Há pouco (ou nada) de sobrenatural em “Anticristo”. Ou melhor, existe o vislumbre de uma visão religiosa meio pagã – certamente fruto da mente do diretor, e também roteirista – a respeito da complexa relação entre o homem e a natureza, perfeitamente expressa na frase-chave do filme, proferida em certo momento pelo personagem de Gainsbourg: “A natureza é a igreja de Satã”. Mas “Anticristo” não tem nenhuma relação com filme de horror bíblico estilo “A Profecia” (1976).

A estrutura narrativa, à moda de “Dogville”, é dividida em prólogo, quatro capítulos e epílogo. As imagens perturbadoras começam já na abertura (espécie de refilmagem-citação da abertura de “Inverno de Sangue em Veneza”, do australiano Nicolas Roeg), filmada em preto-e-branco, que mostram o bebê de um casal (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg) saindo do berço e caindo da janela do prédio para a morte, enquanto a dupla faz sexo furiosamente no chuveiro. A câmera lenta, os planos-detalhes cuidadosamente construídos, a ausência de som ambiente, a música sacra contrastando com uma tomada de penetração explícita, tudo isso contribui para a sensação de estranhamento que poucos diretores além de Von Trier conseguem criar.

O trauma deixa a mãe em estado de choque. Para tentar superá-lo, o casal decide se isolar numa cabana dentro de uma floresta, onde ele – um terapeuta – pode tratá-la sem os inconvenientes do convívio social. Aí… bom, a partir desse ponto o filme passa a recusar a noção de cinema narrativo clássico para explorar imagens perturbadoras que relacionam natureza, sexo e violência, tudo perpassado por um conceito distorcido de maternidade que só poderia mesmo ter saído da mente demente de um Lars Von Trier. Há fortíssimas imagens de violência sexual, efeitos digitais utilizados com discrição e uma paleta de cores frias (verde, azul, cinza) que contribui para amplificar a sensação de desconforto.

Uma chave possível para “entrar” no filme está, talvez, na abordagem original que o diretor dinamarquês costuma dar aos códigos do cinema de gênero. Nesse tipo de filme, a platéia costuma esperar a recorrência de certos elementos formais e/ou narrativos. No caso do filme de horror, por exemplo, pesadelos, visões de monstros e efeitos sonoros irreais (ruídos de baixa freqüência, normalmente) que antecipem os momentos de violência. Lars Von Trier usa tudo isso, mas de maneira que distorce deliberadamente as expectativas do público.

Há monstros em “Anticristo”, mas eles aparecem e desaparecem repentinamente, sem se envolver na ação dramática. Há uma sensação permanente de pesadelo (e, a partir de certo ponto, a noção muito psicanalítica de que estamos talvez num outro plano de realidade, ou dentro da psique de algum personagem… ou de ambos), mas essa tensão não se dissipa porque os personagens não “acordam”. Os passeios pela floresta são freqüentemente sonorizados com ruídos e barulhos anti-naturais que não se concretizam em sustos.

A mesma abordagem vale para a codificação do filme pornográfico, que aparece na tela filtrada pela visão idiossincrática do diretor – e ela inclui cenas de sexo cada vez menos sensuais e doloridas, até um ponto em que o sexo se funde visualmente à violência (física e psicológica), à maneira de um David Cronenberg. Em outras palavras, Lars Von trier joga com os códigos do cinema de gênero, mas os usa de maneira deliberadamente distorcida, até mesmo críptica. Essa abordagem é o equivalente cinematográfico de mostrar a uma criança (nós, o público), uma barra de chocolate, entregá-la nas nossas mãos, só para descobrirmos que dentro da embalagem existe somente uma cocada de sal. Expectativas não saciadas geram frustração; frustração gera decepção. Mas isso não quer dizer que “Anticristo” seja necessariamente um filme ruim. Ele é apenas uma experiência amarga que alguns de nós talvez não queiram enfrentar.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela California Filmes. A edição é simples e não contém extras. O filme tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Anticristo (Antichrist, Dinamarca, 2009)
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Duração: 104 minutos

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