Antônia

21/06/2007 | Categoria: Críticas

Tata Amaral usa estética crua de documentário para narrar os percalços de quatro cantoras negras em busca da fama

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um dos primeiros longas interessantes da safra 2007 do cinema nacional, “Antônia” (Brasil, 2007) na verdade transcende a classificação de “filme”. O projeto da cineasta Tata Amaral, batalhadora que vem se esforçando há dez anos para dar voz e entender a periferia, vai além da tela grande. “Antônia” foi concebido como projeto multimídia que engloba televisão e cinema, e começou em outubro de 2006, com a exibição de uma minissérie na TV Globo. Ainda na TV, ganhou um apêndice – um quadro no programa Fantástico focado em uma personagem secundária – e migrou para as salas de exibição quatro meses depois. O resultado, registrado em formato documental, é excelente, tanto como musical quanto como crônica da vida nos morros cariocas.

Antes de qualquer coisa, convém deixar claro que o filme não é uma mera reorganização do material já exibido na TV, como ocorrera em “O Auto da Compadecida” (2000), da mesma Globo Filmes. Vai além desta estratégia que, para algumas pessoas, poderia parecer um jogo de marketing. Na cronologia da série concebida por Tata Amaral, os eventos mostrados na minissérie acontecem dois anos depois dos acontecimentos vistos no cinema. Ou seja: no jargão cinéfilo, o longa-metragem é uma prequel do seriado. Como jogo multimídia, portanto, “Antônia” é uma grande sacada, expandindo de dois modos a trajetória de quatro meninas da periferia que desejam serem reconhecidas como cantoras desde a infância: lateral (novos personagens, como a garota do quadro no Fantástico) e verticalmente (ou seja, aprofundando as personagens).

Visto desta perspectiva mais ampla, “Antônia” lembra um pouco o projeto “Matrix”, que além de trilogia cinematográfica também virou desenho animado e jogo de computador. Obviamente, a comparação só é válida deste ponto de vista multimídia, porque em termos estéticos “Antônia” não poderia estar mais distante do mundo de Neo. O longa-metragem narra, em uma história simples, direta e despojada, o início da trajetória de Preta (Negra Li), Barbarah (Leilah Moreno), Lena (Cindy) e Mayah (Quelynah). As quatro garotas são amigas de infância, fazem backing vocals para um grupo de rap masculino e sonham em virar cantoras profissionais.

O sonho parece tomar vida própria quando as meninas ganham a chance de cantar sozinhas num show do grupo, angariam assovios e aplausos, e despertam a atenção de um ambicioso empresário de sorriso canalha (DJ Thaíde). Ganhar visibilidade real, porém, pode ser mais difícil do que parece… e elas ainda precisam lidar com os problemas do dia-a-dia, como namoros, filhos, gravidez e violência urbana. Tata Amaral filma a trajetória como um melodrama honesto, cheio de dor e percalços, mas também esperança e estoicismo. A estética documental encaixa na proposta como uma luva, pois reforça ainda mais a credibilidade, naturalmente alta devido à opção de buscar não-atores para compor o elenco.

Quase todos os personagens importantes são interpretados por gente que nunca havia atuado antes, da mesma forma que Fernando Meirelles havia feito, com sucesso, em “Cidade de Deus” (2002). As quatro meninas, por exemplo, são encarnadas por cantoras iniciantes de verdade, assim como o empresário de caráter duvidoso, e há até uma ponta interessante da veterana Sandra de Sá. Com a ajuda do preparador de elenco Sérgio Penna e de uma estética suja (câmera na mão, longas tomadas sem cortes e som captado diretamente na locação, com vozes sobrepostas que tornam alguns diálogos inaudíveis), todos dão conta do recado muito bem. “Antônia” valoriza a mantém a imperfeição, os erros, e isto é muito saudável em uma cinematografia mainstream que tem se caracterizado pela postura apolítica e pelas imagens certinhas, limpinhas e assépticas.

O filme de Tata Amaral, pelo contrário, mostra um interesse real e palpável pelo cotidiano do morro. A diretora se esforça para capturar em celulóide a textura e as nuances deste ambiente, mantendo o sotaque, as gírias, a maneira de vestir. Este sentido, “Antônia” se mostra uma obra perfeitamente sintonizada com as técnicas de “Cinema Veritè” que têm seduzido grande parte da indústria cinematográfica internacional, vide obras como “Vôo United 93” e “Filhos da Esperança”. O resultado, auxiliado pela montagem de cortes secos e abruptos e pela música (generosa, mas cuja fonte de origem quase sempre está dentro do enquadramento, algo raro), é um panorama quase naturalista da vida nos morros do Rio de Janeiro.

Além disso, a direção simples e calorosa lança aos personagens um olhar isento, sem comiseração ou qualquer tipo de julgamento, seja negativo ou positivo. Desta forma, a platéia jamais é induzida a sentir pena de qualquer personagem, e mesmo assim o filme nunca parece frio e distante demais. As imagens têm calor humano, o que torna aqueles seres ficcionais perfeitamente críveis. A direção despojada evita sublinhar as cenas mais duras, algo que fica a cargo de cada espectador. Um exemplo? Confira a seqüência do aniversário de casamento, em que o grupo é ignorado pela platéia enquanto canta músicas da própria autorias, e acabam chamando a atenção ao entoarem uma versão ultra-pop do hit fácil “Killing Me Softly” (Roberta Flack, regravada pelos Fugees). Em um filme ruim, este seria um momento triste. Em “Antônia”, é apenas o registro isento de situação tão natural que os mais desatentos podem nem mesmo perceber.

O DVD da Playarte tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Antônia (Brasil, 2007)
Direção: Tata Amaral
Elenco: Negra Li, Leilah Morena, Cindy, Quelynah
Duração: 90 minutos

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