Any Way the Wind Blows

27/05/2005 | Categoria: Críticas

Belga mistura “Vamos Nessa”, de Doug Liman, com “Short Cuts”, de Robert Altman, e faz filme divertido

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma das maneiras mais simples de explicar um filme às pessoas que nada sabem sobre ele é fazendo comparações com obras que vieram antes. Nem sempre essa estratégia dá uma idéia perfeita daquilo que a obra representa, mas às vezes não dá para fazer melhor, especialmente quando não existe outra referência capaz de chamar a atenção do leitor. Este é o caso de “Any Way the Wind Blows” (Bélgica, 2003). O diretor é estreante, não há rostos familiares no elenco e nem nomes de peso na equipe técnica. Só que o longa-metragem de estréia do ex-cantor da banda belga dEUS é ótimo. Quer saber como é o filme? Então pense em uma mistura do jovem “Vamos Nessa”, de Doug Liman, com o cultuado “Short Cuts”, de Robert Altman.

Se você já assistiu às duas películas, deve estar pensando que a união de duas coisas tão díspares deve resultar em um produto desconexo e mal ajambrado. Errado: o longa-metragem, de pouco mais de duas horas, é coeso e original. A influência de “Short Cuts” é menos temática e mais estrutural. “Any Way the Wind Blows” é um mosaico fragmentado que segue oito personagens, durante um dia, pelas ruas da Antuérpia, na Bélgica. Alguns personagens têm ligações entre si, mas outros não se conhecem. Todos aparecem na mesma festa, na mesma noite. A farra, regada a muito álcool e drogas, é o clímax que domina a segunda metade do filme.

Não há em “Any Way the Wind Blows”, contudo, a gravidade melancólica da obra de Robert Altman. Alguns dos personagens estão deprimidos, e outros parecem vagar sem rumo pela cidade, letárgicos, esperando por algo que não sabem direito o que é. Mesmo assim, o olhar que o diretor Tom Barman dirige a eles é sempre alto astral, bem-humorado. O humor é o fio condutor de “Any Way the Wind Blows”. Não, o filme não é exatamente uma comédia, mas quase todas as cenas têm momentos perfeitos de humor, embalados em ritmo veloz, com muita fluência narrativa.

É exatamente aí – o conteúdo – que o aproxima de “Vamos Nessa”, o pequeno filme festeiro de Doug Liman. O longa-metragem do diretor que faria “A Identidade Bourne” tem muitos pontos em comum com “Any Way the Wind Blows”: muitos personagens, narrativa comprimida em um dia e uma noite, uma festa regada a música eletrônica, drogas ocasionais, humor jovem extraído de situações cotidianas. Só que “Vamos Nessa” tem um pontos de partida e chegada bem definidos, enquanto o recorte de “Any Way the Wind Blows” é mais aleatório, dá mais importância ao acaso. Não seria um erro dizer que há uma pitada de ambição artística no filme belga, algo que não existia em sua contraparte norte-americana. Tudo bem.

A galeria de personagens é excelente e muito bem apresentada. Há um projecionista de filmes que tem uma filha pequena e enfrenta uma demissão (por arranhar a cópia de um Cronenberg, imagine), um professor mal-humorado cuja ambição literária vai de mal a pior, dois irmãos tentando lidar com a morte recente do pai, duas garotas com problemas amorosos evidentes, uma dupla de rapazes festeiros que trabalham colando cartazes de festas. O melhor de todos, no entanto, é o misterioso Windman, homem sem nome, magro e cabeludo, que quase não fala e parece ter o dom de controlar o vento. Windman abre o filme com uma das seqüências mais bacanas, “driblando” os créditos com o uso de sua habilidade incomum.

O Windman é, também, o ponto que aproxima Tom Barman de Krzystof Kieslowski, o genial diretor polonês que utilizou um personagem parecido na série “Decálogo”. Naqueles filmes de média-metragem feitos para a TV, Kieslowski incluiu um sujeito sem nome que não participa da ação, mas aparece nos dez episódios, olhando tudo com pesar. O Windman é mais ativo (há uma seqüência engraçada que mostra uma visita dele ao osteopata; noutra, em plena festa noturna, ele embarca em uma discussão hilariante, com uma garota, sobre a letra de uma velha canção pop dos anos 1980), mas também é um toque de realismo fantástico que, no final, deixa um ponto de interrogação na cabeça do espectador.

“Any Way the Wind Blows” pode deixar muita gente estranhando porque não tem uma trama clássica, com começo, meio e fim. Ele conquista a platéia de outra maneira, usando os ótimos diálogos, os personagens muito humanos e uma aparente displicência na construção formal – cenários, figurinos e toda a parte técnica são muito bem feitos, mas não chamam a atenção, pois o filme dá a aparência de ter sido filmado de qualquer jeito, o que certamente não é verdade, como prova por exemplo o virtuoso enquadramento em que um grupo de jovens conversa e toma drogas no banheiro do apartamento onde rola a festa, enquanto no cubículo ao lado um casal se atraca, hormônios em fúria.

Por fim, um destaque especial deve ser dado à trilha sonora eclética, algo natural vindo de um diretor que é músico. Tom Barman cuidou pessoalmente da música e montou uma banda, Magnus, especialmente para fazer algumas canções (a abertura e a curiosa coreografia dançada na festa por todos). Misturou jazz, pop, dance music e muito mais para traduzir, em sons, o mosaico humano que construiu com as imagens. E acertou na mosca, fazendo um filme veloz e interessante, que não pertence a nenhum gênero, mas flerta com todos sem medo de ser feliz.

Este filme é bem difícil de encontrar. Como não foi lançado no Brasil (em DVD, nem mesmo nos Estados Unidos), resta procurar edições na Região 2 (Europa). A edição lançada em Portugal é ótima: contém o filme com imagem widescreen, trilha de áudio em formato DTS, um documentário de bastidores, um trailer, galeria de fotos e um videoclip da canção “Summer’s Here”, da banda Magnus, formada especialmente para montar a trilha sonora do longa. Como todo o material tem legendas em português, é a edição mais recomendada para brasileiros.

– Any Way the Wind Blows (Bélgica, 2003)
Direção: Tom Barman
Elenco: Frank Vercruyssen, Natali Broods, Diane de Belder, Eric Kloeck
Duração: 127 minutos

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