Apaixonado Thomas

08/06/2008 | Categoria: Críticas

Pierre-Paul Renders critica a tendência ao isolamento e a artificialidade dos relacionamentos na era da tecnologia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um homem de 32 sofre de uma doença psicológica denominada agorafobia (ataques de pânico em lugares públicos) e está há oito anos trancado dentro de casa, sem manter qualquer contato direto com outras pessoas. Esta é a situação de Thomas (Benoît Verhaert), protagonista do drama futurista “Apaixonado Thomas” (Thomas Est Amoureux, Bélgica/França, 2000). A condição do personagem, que para muita gente poderia parecer insuportável num primeiro momento, é enfrentada por ele com bom-humor. Através da janela digital proporcionada pela Internet, ele pratica sexo (virtual) com prostitutas, consulta um psicólogo, faz compras e conversa regularmente com a mãe. A doença não o incomoda muito. Pelo menos até o momento em que ele se apaixona.

O filme do belga Pierre-Paul Renders, que participou do Festival de Veneza e fez sucesso em círculos alternativos, critica a tendência ao isolamento e a artificialidade dos relacionamentos na era da tecnologia. Para tanto, o diretor recorre a uma técnica narrativa antiga, mas pouco comum e certamente corajosa: ele filma toda a ação dramática do ponto de vista de Thomas, com câmera subjetiva em 100% do tempo. Isto significa que o personagem jamais aparece diante das câmeras – ele vê exatamente aquilo que você, espectador, observa. Não é a primeira obra a fazer isto – “A Dama do Lago”, de 1947, foi pioneiro na técnica – mas acerta em cheio, porque desafia a platéia a uma reflexão adicional sobre o tema, já que dá ao filme a estética de uma webcam, artifício tecnológico tão comum, e tão isolador, nestes tempos de Internet.

Graças a um roteiro bem trabalhado e a uma montagem eficiente, “Apaixonado Thomas” consegue criar empatia entre personagem e espectador. É fácil acompanhar a jornada emocional do protagonista. No começo do filme, ele se situa numa zona de conforto, ri da própria condição e resiste às tentativas de mudança promovidas pelo psicólogo. Thomas não gosta da idéia de freqüentar uma agência de encontros, mas precisa fazê-lo para que o governo continue pagando o tratamento. Durante os encontros, porém, o impensável acontece – Thomas se apaixona. Aí, é obrigado a tomar coragem e enfrentar o problema de frente, para poder concretizar este amor. A não ser, claro, que ele se contente em fazer sexo eletrônico com a parceira, usando um bizarro traje cheio de eletrodos.

A produção é ambientada num futuro próximo, mas não especificado, em que as pessoas recebem tatuagens faciais que refletem aspectos das próprias personalidades. A direção de arte, simples e barata, funciona muito bem, com uso constante e abundante de cenários sem profundidade, repletos de cores básicas e fortes, numa estética que traduz visualmente a falta de profundidade dos relacionamentos que Thomas consegue estabelecer. No fundo, a visão de mundo de Pierre-Paul Renders é bastante tradicional e conservadora, e a ação dramática se mostra bem pessimista em relação aos relacionamentos humanos no futuro. Parece evidente que Renders considera a tecnologia como algo que estimula o comportamento solitário, em alguns casos misantropo, das pessoas. Isto não deixa de ser verdade, embora nem todo mundo vá concordar com isso. De qualquer forma, o filme alcança o objetivo de lançar a platéia à reflexão sobre o tema.

O longa-metragem foi lançado no Brasil em DVD pela LK-Tel. Não há extras, e a qualidade de imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 2.0) é apenas razoável.

– Apaixonado Thomas (Thomas Est Amoureux, Bélgica/França, 2000)
Direção: Pierre-Paul Renders
Elenco: Benoît Verhaert, Aylin Yay, Magali Pinglaut, Micheline Hardy, Alexandre von Sivers
Duração: 93 minutos

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