Apenas o Fim

25/03/2010 | Categoria: Críticas

Sistema amador de produção e lançamento faz do longa-metragem carioca um caso inédito no cinema brasileiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O que mais chama a atenção em “Apenas o Fim” (Brasil, 2009) não é o estilo e nem a história. A forma ou o conteúdo do filme em si são relativamente banais, apesar de eventualmente criativos e/ou engraçados. Por um momento, é preciso se esquecer do roteiro, dos personagens, da fotografia, da direção de arte – ou seja, das ferramentas de construção da narrativa em geral – para compreender a importância do filme. Vamos nos concentrar no que existe de mais interessante no primeiro longa-metragem do diretor e roteirista Matheus Souza, que são as condições amadoras de produção.

Ao decidir transformar em filme um roteiro escrito como exercício caseiro de cinefilia, o cineasta carioca tinha 19 anos, nenhuma experiência com cinema e bolso vazio. Em tese, seria uma tarefa impossível. Seria. Graças a um esquema de brodagem cinéfila e disponibilidade de equipamentos digitais mais acessíveis do que as câmeras e gravadores profissionais que se usa normalmente no cinema, o filme se tornou viável. Todo mundo nele trabalhou de graça. Toda a equipe técnica foi formada por estudantes universitários; atores foram recrutados entre os alunos do curso de teatro Tablado, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro; equipamentos, emprestados pela PUC-Rio, cujos professores leram o roteiro e deram sugestões. As gravações aconteceram na mesma universidade, a céu aberto.

Mais importante ainda do que a produção em si foi a conquista de um espaço na disputada rede de distribuição nacional. Sem grana para bancar a produção de cópias analógicas em película – o que possibilitaria que o filme fosse exibido em festivais e, talvez, alguns cinemas comerciais – os produtores investiram na distribuição digital. Graças ao sistema digital denominado Rain (adotado por uma rede alternativa de salas de exibição, e que trabalha com cópias digitais em boa resolução), “Apenas o Fim” ganhou o Brasil. Trata-se do primeiro caso de um filme 100% amador que conseguiu distribuição nacional em todo o território brasileiro. Um caso que promete deixar uma marca legítima de pioneirismo no circuito cinematográfico brasileiro.

Em que pese essas circunstâncias extraordinárias de produção e distribuição, que o tornam um filme realmente especial, “Apenas o Fim” não nega ser o que realmente é – um filme amador, escrito e dirigido por um cineasta com talento para diálogos, mas claramente verde, e que não consegue contornar os problemas de ordem técnica e estética evidentes. Imagine mais ou menos o seguinte cenário: uma refilmagem livre de “Antes do Pôr-do-Sol”, de Richard Linklater, escrito por uma versão alternativa e mais jovem de Kevin Smith, cuja adolescência tivesse acontecido nos anos 1990, e registrado com o equipamento de filmagem de um turista. Essa é uma descrição fiel do resultado obtido por Matheus Souza.

Tecnicamente, óbvio, o filme é pobre. A luz estoura com freqüência no rosto dos atores, e praticamente não há profundidade de campo, o que deixa as composições chapadas e sem senso de volume. O som de algumas tomadas exibe um chiado baixinho e irregular, que às vezes desaparece e outras vezes volta. O roteiro peca por uma vontade juvenil de enfileirar uma penca de referências à cultura pop dos últimos 20 anos, de Vovó Mafalda e Pokemon a “Transformers”, incluindo uma infinidade de citações que parecem retiradas de algum almanaque de nostalgia desses que pululam nas livrarias brasileiras. Aliás, a única função dos flashbacks em preto-e-branco parecem ser mesmo acrescentar ao filme essas tais citações juvenis. Não têm qualquer importância para a narrativa.

O enredo se passa numa única locação (sem contar os tais flashbacks) e em tempo real. Consiste, essencialmente, em uma câmera que acompanha, em longas tomadas de caminhadas interrompidas aqui e acolá por amigos de um ou de outro, um casal de alunos da universidade terminando um namoro. Adriana (Érika Mader) e Antônio (Gregório Duvivier) discutem a relação a partir do instante em que ela anuncia a disposição de largar os estudos e ir embora dentro de uma hora. Curiosamente, em que pese a questão da faixa etária, o longa-metragem tem certa semelhança (inclusive técnica) com “Juventude”, de Domingos de Oliveira, que Matheus Souza cita como influência no pressbook. A diferença é que o trabalho do diretor veterano, lançado em formato digital no mesmo 2009, é infinitamente mais humano.

Em circunstâncias profissionais, esse filme provavelmente não teria sido feito. Porque seriam levados em consideração raciocínios como o público-alvo claramente reduzido – é preciso ter passado a infância nos anos 1990 e possuir alguma afinidade com uma cultura retrô-alternativa – e, claro, a impossibilidade logística de registrar qualquer tipo de ação física dos personagens, que talvez ajudassem a agregar ao todo uma modulação emocional inexistente no produto final (a ação dramática evolui em linha reta, algo fatal para qualquer arte dramática). Considerando a relação custo-benefício, porém, nada disso importa. O que realmente importa é o fato de “Apenas o Fim” ter sido feito e lançado. Isso muda tudo. Para melhor.

O DVD simples da Paris Filmes traz o longa com qualidade decente de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Apenas o Fim (Brasil, 2009)
Direção: Matheus Souza
Elenco: Erika Mader, Gregório Duvivier, Nathalia Dill, Marcelo Adnet
Duração: 80 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


13 comentários
Comente! »