Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu

24/11/2005 | Categoria: Críticas

Comédia sem pé nem cabeça é coleção de piadas e gags que citam sucessos do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Embora seja produto de uma série de sátiras a filmes de gênero, produzidas nos anos 1970, a comédia “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu” (Airplane!, EUA, 1980) costuma ser lembrada como o primeiro exemplar de uma espécie de produções que, desde então, se tornou bastante popular, parodiando indiscriminadamente outros longas-metragens através de incontáveis citações a sucessos do cinema, sem preocupação nenhum com a lógica ou o realismo. Em outras palavras, “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu” não é exatamente um filme, mas uma coleção impecável de piadas e gags visuais que colam uma nas outras, ligadas por um arremedo de trama.

A rigor, não é difícil traçar a árvore genealógica que permitiu o surgimento do trio ZAZ (iniciais dos sobrenomes dos diretores Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, também roteiristas do filme). Eles foram uma trupe que é herdeira direta do cinema engajado do grupo inglês Monty Python, cuja tendência à paródia é levada ao extremo – e devidamente americanizada – nas produções que capitaneiam. O sucesso de “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu”, que foi considerado por muita gente uma das 10 mais engraçadas comédias de todos os tempos, acabou levando ao surgimento de um filão cômico do qual o trio ZAZ se tornou maior expoente, graças à série “Corra que a Polícia Vem Aí”.

A trama básica que sustenta as piadas do longa-metragem vem se um filme de 1957, chamado “Zero Hour”. O protagonista é Striker (Robert Hays), um piloto de aviões que, desde um acidente sofrido durante uma guerra, não consegue mais voar. Ele é obrigado a entrar num vôo a fim de reconquistar o amor perdido da aeromoça Elaine (Julie Hagerty). Ocorre que uma indisposição estomacal põe a nocaute os pilotos do avião, o que obriga Striker a superar o trauma para poder pousar a aeronave em segurança. Material perfeito para um melodrama de terceira categoria, que nas mãos do trio ZAZ vira um festival de piadas sem vergonha.

A própria tomada de abertura, que antecede os créditos, já antecipa o truque favorito dos três diretores: fazer a platéia rir através de citações bem-humoradas de filmes conhecidos. No caso, a vítima é “Tubarão”, de Steven Spielberg. No meio de um mar de nuvens, vê-se de repente uma “barbatana” surgir, devidamente acompanhada do tema característico de John Williams para o surgimento do peixe assassino. O objeto é, na verdade, o topo de um avião – o mesmo veículo em que, dentro de alguns minutos, estarão os dois protagonistas da aventura.

A partir daí, as piadas se sucedem aos borbotões, praticamente sem dar chance ao espectador de recuperar o fôlego, entre uma gargalhada e outra,. Surpreendentemente, apesar de uma ou outra gag sem graça, a maior parte das tiradas é mesmo de rachar o bico, como as hilariantes cenas em flashback que mostram Striker relembrando os melhores momentos do namoro com Elaine, cenas que invariavelmente terminam com tentativas de suicídios dos pobres passageiros que, ao lado dele, são obrigados a ouvir os devaneios. Além dessas, a cena da mulher histérica que um grupo de passageiros tenta acalmar tem lugar garantido nos momentos mais brilhantes das comédias americanas contemporâneas.

Pelo sabor de novidade, “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu” ganhou fama como o melhor filme do trio ZAZ, embora a rigor não exista muita diferença entre este título e “Top Secret”, apenas para citar a primeira obra semelhante que veio na seqüência. Para quem gosta de comédias sem pé nem cabeça, o filme é um prato cheio. Já aqueles que preferem filmes com um pé na realidade devem procurar outra diversão.

O lançamento brasileiro do filme pertence à Paramount, e é um disco simples e direto. A imagem aparece com o enquadramento original (wide 1.85:1) e o som é OK (Dolby Digital 5.1). Há um comentário em áudio compartilhado pelos três diretores, mas não está legendado.

– Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (Airplane!, EUA, 1980)
Direção: Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker
Elenco: Robert Hays, Julie Hagerty, Lloyd Bridges, Leslie Nielsen
Duração: 88 minutos

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