Apocalipse de um Cineasta, O

15/12/2008 | Categoria: Críticas

Documentário oferece um dos mais interessantes registros documentais do caos controlado – ou descontrolado – que é a organização logística de uma grande produção

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O surgimento da cultura de documentários de bastidores, a partir da consolidação do DVD na década de 1990 como formato hegemônico no mercado doméstico de vídeo, criou uma situação bastante contraditória, que pode ser expressa em uma pergunta simples: o making of seria um gênero fílmico autônomo, com a mesma estatura dos filmes de ficção e documentários tradicionais, ou ocuparia um lugar inferior na hierarquia dos produtos audiovisuais? Qualquer resposta possível a essa pergunta passa, forçosamente, por “O Apocalipse de um Cineasta” (Hearts of Darkness – A Filmmaker’s Apocalypse, EUA, 1991), um dos mais interessantes registros documentais do caos controlado – ou, em alguns casos, descontrolado – que é a organização logística de uma grande produção de ficção.

Antes de qualquer comentário a respeito do filme, contudo, é preciso esclarecer um mal-entendido. Grande parte dos cinéfilos acredita que “O Apocalipse de um Cineasta” foi dirigido pela mulher de Francis Ford Coppola, Eleanor. Isto não é verdade – ou melhor, é apenas parcialmente verdade. De fato, ela recebeu do marido a incumbência de registrar visualmente o trabalho nos sets de “Apocalypse Now”, o épico de guerra em que Coppola trabalhou entre 1976 e 1979. A família inteira se mudou para as Filipinas, onde as gravações aconteceram, e Eleanor cumpriu a tarefa. Em paralelo, ainda registrou em um diário as angústias, as dúvidas e o medo do marido, que afundava em dívidas milionárias enquanto o projeto saia inteiramente de controle.

Só que o material bruto colecionado pela mulher, apesar de riquíssimo, jamais foi organizado em um filme. Depois de anos acumulando poeira em algum porão nas vinícolas da família, as fitas e o diário foram entregues por Eleanor, em 1990, aos documentaristas Fax Bahr e George Hickenlooper. A dupla conduziu, então, entrevistas retrospectivas com dezenas de profissionais que participaram, direta e indiretamente, do projeto. Tudo isso, somado a uma pesquisa histórica consistente, foi reunido em “O Apocalipse de um Cineasta”, lançado em 1991 e imediatamente reconhecido como um dos registros mais intensos da agonia de um diretor de cinema, durante a fase criativa do processo de criação de um filme.

Pois bem: é tudo verdade. “O Apocalipse de um Cineasta” vai muito além do mero registro explicativo da fase de filmagens (o tipo de material interessante, mas trivial, que lota os extras da grande maioria dos DVDs). Para começar, tem vida própria; se sustenta perfeitamente como obra de arte isolada, porque contém tudo aquilo que um grande filme deve ter: drama, ambição artística, criatividade e clareza narrativa. Mesmo que o mundo jamais tivesse conhecido o épico de Francis Ford Coppola, “O Apocalipse de um Cineasta” ainda seria um belo filme. Além disso, estranhamente, o longa-metragem funciona como um espelho perfeito da história ficcional criada por Coppola. Os dois filmes, afinal, focalizam um grupo de homens imersos na selva que perdem progressivamente o senso de realidade e invadem, sem perceber, na área cinzenta onde a loucura e a sanidade se confundem.

O material captado por Eleanor Coppola é revelador, e não poupa nada nem ninguém. Há gravações de áudio em que o marido, em profunda angústia, revela ter perdido completamente o controle sobre o roteiro (seguidamente reescrito), a ponto de sequer ter certeza sobre o modo como terminar o filme. As tempestades tropicais que devastaram os cenários, a traumática troca do ator principal – Harvey Keitel foi substituído após algumas semanas trabalhando – e o ataque cardíaco sofrido pelo protagonista Martin Sheen ganham nuances dramáticas, que levaram o diretor a um estado de exaustão emocional absoluta. Depois de assistir a “O Apocalipse de um Cineasta”, dá para entender perfeitamente o progressivo exílio auto-imposto a que ele se submeteu, a partir dos anos 1980. “O Apocalipse de um Cineasta” é mais do que um simples filme – é um documento definitivo sobre a natureza grandiosa e simultaneamente miserável do ofício da direção de cinema.

O DVD norte-americano foi lançado em 2007, acompanhado de comentário em áudio de Francis e Eleanor Coppola. O enquadramento original (widescreen anamórfico) está respeito, e a trilha de áudio (Dolby Digital 2.) tem dois canais.

– O Apocalipse de um Cineasta (Hearts of Darkness – A Filmmaker’s Apocalypse, EUA, 1991)
Direção: Fax Bahr e George Hickenlooper
Documentário
Duração: 96 minutos

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