Apocalypto

06/06/2007 | Categoria: Críticas

Polêmica produção de Mel Gibson é aventura alucinante e encharcada de sangue, com direção tecnicamente impecável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A reação desnorteada da crítica internacional a “Apocalypto” (EUA, 2006) comprova como é forte a influência do marketing avassalador dos grandes estúdios de cinema nas opiniões dos especialistas, mesmo os mais independentes ou renomados. Sem receber quase nenhuma informação sobre a produção, que se desenrolou durante quase dois anos nas selvas do sul do México, os críticos simplesmente não sabiam o que escrever sobre ela. Uns poucos até teimaram em achar paralelos improváveis entre o filme e a situação política dos Estados Unidos. Alguns adoraram, outros odiaram, e quase todos escreveram textos hesitantes, com medo de emitir alguma opinião mais firme, que viesse a ser contrariada mais tarde pelos demais colegas.

No todo, criou-se uma situação que reflete particularmente bem a armadilha em que a crítica se encontra presa atualmente. Via de regra, o que acontece é o seguinte: quando os críticos escrevem sobre um filme, em geral já estão soterrados até a raiz dos cabelos com informações sobre ele. É um oceano de idéias, números, estatísticas, impressões, declarações polêmicas, notas de bastidores – e os críticos, mesmo os melhores e mais respeitáveis, não aprenderam ainda a nadar neste oceano. Estão se afogando. Por causa disso, o zum-zum-zum informal sobre as grandes produções, quase sempre estimulado por campanhas de marketing caríssimas, abre caminho sem cerimônia para dentro do discurso da crítica.

No caso de “Apocalypto”, não havia buchicho, não havia marketing, não havia oceano. O ponto de partida era uma página em branco – para muitos críticos, o pior de todos os pesadelos. E o que se viu foi um festival de resenhas contraditórias, que procuravam cabelo em ovo. É fato que este prólogo reflete sobre uma crise da crítica que se arrasta há um bom par de décadas, mas apenas circunda o objeto deste texto, que é o filme de Mel Gibson (sendo, portanto, tema para outra reflexão). Aqui, as perguntas centrais que precisam ser respondidas dizem respeito à qualidade de “Apocalypto”.

Pois bem: o longa-metragem, inteiramente falado em língua quase morta (apenas pequenas tribos mexicanas a falam atualmente), é uma aventura eletrizante, capaz de deixar alguns espectadores cansados só de olhar. Trata-se de uma produção dirigida de forma impecável, com excelente recriação do ambiente selvagem das tribos maias que viviam nas selvas equatorianas, no princípio do século XVI. Nela, abundam as cenas que trazem a principal marca registrada dos filmes dirigidos por Gibson – a violência extrema, gráfica, assustadoramente realista. “Apocalypto” é um filme encharcado de sangue que, como bem observou a crítica Isabela Boscov, não tem a menor inibição de mostrar o fascínio do diretor pela dessacralização (leia-se tortura) do corpo humano.

Curiosamente, é preciso muita boa-vontade para perceber o aspecto político do filme, enfatizado pela epígrafe (do historiador Will Durant) de abertura – o texto diz que uma civilização só é conquistada por outra depois de devidamente apodrecida por dentro. A citação só faz algum sentido nos últimos minutos da projeção, e mesmo assim não se revela completamente, pois nem com esforço dá para traçar um paralelo consistente entre as ações que se vê na tela e a chegada iminente dos conquistadores espanhóis à região. Sendo assim, embora Mel Gibson tenha sido elogiado por acadêmicos pelo rico e fiel nível de detalhes com que retratou as tribos maias (arquitetura, roupas, armas e apresentação física, incluindo pinturas, cicatrizes e piercings), o filme não tem realmente uma dimensão política por trás da trama alucinante.

Em termos de estrutura narrativa, “Apocalypto” está dividido em três partes bem definidas. Na primeira, Gibson introduz a platéia na vida idílica de uma pequena tribo, cujo cotidiano se resume a caçar e procriar. Também centra o foco naquele que será o protagonista: o jovem Pata de Jaguar (Rudy Youngblood), veloz e impetuoso caçador. O ataque de uma tribo rival, mais poderosa e violenta, dá partida ao segundo ato – e é também quando Gibson inicia o festival de atrocidades e imagens violentas que assolam a tela a partir de então. Os vilões (repare que Gibson os filma de modo absolutamente convencional, com os vilões mais desalmados sendo sempre os mais feios, com mais piercings e cicatrizes) torturam, matam e estupram, sem poupar mulheres nem crianças.

Antes de ser preso, Pata de Jaguar consegue esconder a mulher grávida (Dalia Hernandez) e o filho pequeno em uma gruta. Todo o trecho intermediário mostra a jornada dos prisioneiros restantes à vila da tribo vencedora da batalha, com cultos pagãos, pirâmides e feiras livres filmadas em um ambiente que lembram a Jerusalém do ano I, que Mel Gibson conhece muito bem (não esqueçamos do polêmico “A Paixão de Cristo” trabalho em que o diretor já mostrava atenção toda especial para cenas que mostravam o corpo humano sendo despedaçado). A longa parte final é composta por 45 minutos de correria e violência na selva, depois que Pata de Jaguar escapa, seguindo os preceitos de uma profecia que ele desconhece, e é perseguido por um bando de guerreiros sedentos de sangue.

A parte técnica do filme, como já foi dito, é muito boa. A edição de Kevin Stitt e John Wright garante, através de eficiente montagem paralela e ritmo vívido e veloz, que a audiência jamais esqueça da motivação pessoal do protagonista para permanecer vivo, uma motivação tipicamente norte-americana – ele precisa salvar a família, que corre o risco de morrer afogada na gruta subterrânea, quando o aguaceiro despenca sobre a selva. A fotografia de Dean Semler, com 100% das tomadas captadas de forma digital, é clara e econômica, sem arroubos estilísticos, de forma a acentuar o caráter realístico da história. Só a música de James Horner decepciona, com a típica música que sempre adorna os “filmes de selvagens” de Hollywood, percussiva e dissonante.

De certa forma, “Apocalypto” funciona como complemento do ótimo “O Novo Mundo”, de Terrence Malick, que também documentava a vida dos habitantes originais do continente americano. São filmes de estética muito parecida, embora os olhares que lançam ao objeto de estudo sejam completamente diferentes, como o são também as ambições de cada obra. No fim das contas, “Apocalypto” se revela uma aventura visceral, relativamente convencional em termos de narrativa (a única real ousadia de Mel Gibson foi manter o filme inteiramente falado na língua original do povo que ele retrata). Dentro deste enfoque, o filme funciona muito bem.

O DVD da Fox traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mas sem extras.

– Apocalypto (EUA, 2006)
Direção: Mel Gibson
Elenco: Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead
Duração: 139 minutos

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