Apollo 13

06/08/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Ron Howard ilustra tensão crescente de viagem espacial com aula de roteiro e edição

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Quando um ator iguala um recorde histórico e fatura dois Oscar em anos consecutivos, por filmes consecutivos, o que esperar do filme seguinte com o sujeito? Mais uma batelada de estatuetas douradas, certo? Talvez por causa dessa alta expectativa, “Apollo 13” (EUA, 1995) tenha passado a impressão de que era um fracasso, mesmo tendo concorrido a nove troféus (e faturado dois deles). Nada de fracasso. Nem comercial e muito menos artístico. O filme de Ron Howard foi construído com todas as notas certas, e é um triunfo da conjugação entre técnica e emoção a serviço da Sétima Arte. Ou seja, é Cinema com C maiúsculo, independente do gosto amargo que pode ter deixado na boca de um ou outro espectador.

A reconstituição cinematográfica da fracassada e angustiante viagem da espaçonave norte-americana que dá nome ao filme tinha todos os ingredientes para dar errado. Como todos sabem, uma explosão em pleno ar impediu a aeronave de pousar na Lua, conforme o planejado, e obrigou os astronautas e a equipe da NASA, em Houston (EUA), a passarem duas noites em claro fazendo cálculos frenéticos na esperança de economizar energia suficiente na nave para trazer os três astronautas de volta. A missão foi cumprida, e esquecida, até que Ron Howard e Tom Hanks, dois fanáticos por missões espaciais, resolveram relembrá-la.

Com o ator mais quente do momento dando suporte ao projeto, a Universal não economizou esforços para cercar a produção de minúcias. Uma réplica exata da sala de controle de Houston foi construída em estúdio. Dois ambientes (a cabine de vôo e o módulo lunar) da Apollo 13 ganharam cópias exatas. Para completar, as cenas dos atores flutuando na nave foram filmadas dentro do “Vomit Comet”, um avião especial da NASA capaz de voar em alta velocidade na direção da Terra, de forma a anular o efeito da gravidade.

Ao todo, 600 tomadas foram feitas dessa forma. Cada parábola feita pelo avião proporcionava 23 segundos sem gravidade. Ao todo, a equipe passou 13 dias filmando dessa maneira. O resultado de todo esse esforço foi um prodígio de fotografia e edição. A fotografia de Dean Kundey garante enquadramentos complexos que aproveitam a falta de gravidade para realizar movimentos de câmera impossíveis, em três dimensões, sem tremedeiras ou momentos desfocados.

A montagem da dupla Dan Hanley e Mike Hill, premiada com o Oscar, consegue acompanhar até quatro acontecimentos em paralelo (os astronautas, as famílias, a sala de controle em Houston e o colega deixado na Terra por estar com sarampo) sem confundir a cuca da platéia.

Além disso, os roteiristas William Broyles Jr e Al Reinert conseguem encontrar o meio-termo exato para narrar os detalhes do projeto, sem abrir mão da veracidade histórica e, ao mesmo tempo, explicando direitinho para os leigos tudo sobre os complicados cálculos necessários para resolver os problemas com a nave e fazê-la economizar energia suficiente para a volta. Os astronautas usam gírias em quantidade suficiente, mas o filme sempre encontra uma maneira de traduzir as complicadas expressões em linguagem acessível.

Ron Howard utiliza, por exemplo, diversas cenas de telejornais, colocando os repórteres na TV para explicarem ao público leigo todas as dificuldades e problemas da operação da NASA. Em uma cena, por exemplo, um comentarista de TV tenta mostrar como é difícil fazer a nave retornar usando bolas de tênis e basquete como se fossem a Terra e a Lua. Noutra cena, um dos técnicos da NASA atira dezenas de pequenos objetos numa mesa, avisando aos técnicos que eles têm 45 minutos para, usando aqueles objetos, “fazer um quadrado caber dentro de uma bola”. Perfeito.

Se ainda não se convenceu, tente um teste simples: acompanhe o desenrolar do filme de olho no relógio. Os melhores longas-metragens costumam acabar rapidamente, fazendo a platéia esquecer de olhar a hora. “Apollo 13” tem 140 minutos, o que faz do filme uma produção mais longa do que o normal, mas essas duas horas e vinte minutos correm mais rápido do que muitos filmes de hora e meia. E esse teste é infalível.

Duas edições do filme existem em DVD no Brasil. A primeira foi lançada pela Columbia, com o filme, um bom documentário de bastidores (60 minutos), trailer, dois comentários em áudio (o primeiro com o diretor, e o segundo com os verdadeiros Jim e Marilyn Lovell) e a trilha sonora completa de James Horner. Os extras, contudo, não são legendados.

O segundo lançamento, da Universal, traz os mesmos extras, menos a trilha sonora, desta vez legendados, além de mais dois documentários. O primeiro detalha a conquista espacial (48 minutos) e o segundo relembra os fatos reais sobre a viagem mostrada no filme (12 minutos). Este lançamento é duplo. Nas duas versões, o filme comparece no formato original de imagem (widescreen 2.35:1), com áudio Dolby Digital 5.1; o lançamento da Universal traz ainda uma faixa de áudio DTS, que é mais forte e clara.

– Apollo 13 (EUA, 1995)
Direção: Ron Howard
Elenco: Tom Hanks, Kevin Bacon, Bill Paxton, Gary Sinise
Duração: 140 minutos

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