Aprendiz, O

10/03/2005 | Categoria: Críticas

Excelente exemplo de suspense psicológico mostra que obras de Stephen King prescindem de fantasmas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um dos poucos problemas de “O Aprendiz” (Apt Pupil, EUA, 1998) é a trama, repleta de coincidências incríveis que, apresentadas lado a lado, tornam a trama difícil de acreditar. Se você der esse desconto ao filme de Bryan Singer, no entanto, vai se surpreender com um excelente exemplo de suspense psicológico, uma confirmação inequívoca que os melhores filmes baseados em livros de Stephen King não precisam apelar para elementos sobrenaturais para alcançar um alto nível.

“O Aprendiz” é um dos quatro contos reunidos pelo escritor norte-americano no livro “As Quatro Estações”. Duas das outras três histórias curtas já haviam virado filmes elogiados e de sucesso: “Um Sonho de Liberdade”, de Frank Darabond, e “Conta Comigo”, de Rob Reiner. São histórias ge gente comum enfrentando adversidades e situações de carne e osso. Nada de fantasmas, demônios ou monstros de outras dimensões. O tema da memória se infiltra, às vezes de maneira muito sutil, em todos os contos. “O Aprendiz” é, dos três, o que mais se aproxima daquilo que se espera de um filme associado à obra de Stephen King.

O enredo gira em torno do adolescente Todd Bowman (Brad Renfro). Aos 16 anos, o rapaz está estudando o Holocausto na escola quando percebe que um vizinho, um velhinho morador das redondezas, tem semelhança física acentuada com um antigo comandante de campo de concentração nazista, chamado Kurt Dussander e desaparecido desde o final da II Guerra Mundial. O menino colhe impressões digitais, tira fotos, compara o material com arquivos universitários e chega à conclusão de que o velho, chamado Arthur Denker (Ian McKellen), é o disfarce de Dussander.

Engana-se quem imagina que esta é a trama do filme. Na verdade, toda a investigação do rapaz não toma mais do que 10 minutos do longa-metragem. E engana-se mais ainda quem imagina que, de posse de tão terrível informação, Todd vai denunciar o criminoso de guerra às autoridades. Nada disso. O menino bate à porta do ex-carrasco, explica tudo o que sabe sobre ele e faz a proposta: o velho terá que lhe contar, em detalhes, todas as histórias macabras e terríveis das experiências feitas no campo de concentração. Do contrário, Todd o denuncia ao FBI. Sem opção, Dussander acaba cedendo.

O filme é um ótimo exemplo de suspense psicológico porque se concentra nas transformações experimentadas pelos dois personagens diante da situação inusitada que se estabelece. Obrigado a reviver em minúcias seu passado asqueroso, Dussander volta a sentir uma compulsão violenta que imaginava adormecida. Já Todd, ao invés de se sentir ultrajado pelas barbaridades narradas pelo nazista, fica cada vez mais excitado. Os dois jogam um jogo perigoso, que pode trazer conseqüências trágicas para ambos… ou não.

“O Aprendiz” é muito bom. Para começar, conta com uma ótima trilha sonora de John Ottman, colaborador habitual do diretor Bryan Singer (que depois faria os dois primeiros “X-Men”). A dupla que protagoniza o filme também mostra boa química. Ian McKellen mostra a excelência habitual, e Brad Renfro surpreende com uma atuação desenvolta – a seqüência em que Todd presenteia o assassino com a farda de um oficial da SS é soberba. Além disso, o filme segue uma trilha bastante original, sem jamais deixar de surpreender o espectador.

O único problema é mesmo o excesso de coincidências. Acreditar que um jovem de 16 anos possa ser capaz de reconhecer uma pessoa de 60 ou 70 anos, apenas olhando antigas fotografias de 40 anos antes, não é tarefa simples. Aceitar que um sujeito procurado por serviços secretos do mundo inteiro tenha ido se esconder nos EUA é ainda mais difícil (se o filme se passasse no Brasil ou na Argentina, onde dezenas de chefes nazistas realmente se esconderam, não haveria problema). Mas o final do longa-metragem, que não vou contar aqui, ultrapassa todos os limites em termos de coincidência. Não fosse esse detalhe decepcionante, teríamos uma pequena obra-prima cult para apreciar.

O lançamento em DVD da Columbia Pictures é de ótima qualidade. Para começar, o disco tem dois lados de dados. O lado A apresenta o filme com corte original, na proporção 2.35:1 (widescreen). O lado B traz o filme em tela cheia (4:3). Os dois lados têm transferência de imagem de ótima qualidade, trilha Dolby Digital 5.1 bem potente e com volume alto, um pequeno featurette (2 minutos) com cenas de bastidores e filmografias dos quatro atores principais.

– O Aprendiz (Apt Pupil, EUA, 1998)
Direção: Bryan Singer
Elenco: Ian McKellen, Brad Renfro, Bruce Davidson, David Schwimmer
Duração: 112 minutos

| Mais


Deixar comentário