Aquele que Sabe Viver

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Road movie italiano celebra estilo de vida hedonista com energia inesgotável e humor impagável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Na virada das décadas de 1950 e 60, era na Europa que se produzia o melhor e mais original cinema do mundo. Enquanto Hollywood vivia uma fase de decadência, uma turma de jovens autores empurrava os limites da sétima arte para adiante. Na Itália, em particular, a situação era gloriosa. Fellini, Visconti e Antonioni produziam sucessivas obras-primas. Rossellini e De Sica continuavam na ativa. Com tantos gênios filmando ao mesmo tempo, é natural que alguns cineastas de talento acabassem injustamente relegados a segundo plano. É o caso de Dino Riso, autor de uma verdadeira elegia da vida intensa: “Aquele que Sabe Viver” (Il Sorpasso, Itália, 1962).

Por diversas razões, o filme de Risi não se tornou um clássico incontestável da cinematografia italiana, permanecendo ao longo dos anos uma pequena pérola cult, de circulação limitada, ainda que amada incondicionalmente por um punhado de cinéfilos. O principal motivo talvez tenha sido o aparente elogio ao hedonismo realizado pelo filme. Não custa lembrar que 1962 era uma época perigosa para ressaltar os prazeres de viver o aqui e o agora, sem se preocupar com nada além de praia, garotas e bom vinho. Remoer as agruras da condição humana, como faziam Bergman, Antonioni e tantos outros gênios, estava na moda.

Natural, portanto, que os críticos e cinéfilos não encontrassem espaço, entre títulos como “Persona” e “A Aventura”, para uma produção despretensiosa sobre um bon vivant de 40 anos da idade que passa três anos sem aparecer em casa para ver a filha. Como o filme ainda tem coragem de realizar um final aparentemente moralista, com uma virada abrupta que em uma primeira leitura condena o estilo de vida hedonista defendido alegremente por quase duas horas, é aparentemente menor ainda o direito a uma vaga no cânone do cinema. É mesmo uma pena que críticos de cinema, via de regra, sejam criaturas sem metade do humor de Dino Risi.

Vamos ser sinceros: o filme é uma delícia. Não é preciso ser o rei do hedonismo para simpatizar com a energia inesgotável de Bruno (Vitório Gassman, em atuação espetacular), farrista que arrasta o tímido estudante Roberto (Jean-Louis Trintignant) para dois dias de festa com o pé na estrada, a bordo de um automóvel conversível com uma buzina hilariante (melodia inesquecível que enche o longa como uma assinatura musical) e um toca-discos adaptado no painel (ao lado de uma foto de Brigitte Bardot com uma legenda sacana: “seja prudente, te espero em casa”). Ao som de rock’n’roll e twist, os dois iniciam um road movie alto astral, composto de pequenos esquetes divertidos – os encontros fortuitos da dupla na estrada – que passam como uma flecha e deixam o espectador a fim de embarcar na farra com ambos.

Deliciosamente homogêneo e engraçado, o longa-metragem tem piadas impagáveis (na mais conhecida delas, Dino Riso sacaneia o amigo Antonioni, fazendo Bruno dizer que dormiu durante uma exibição de “O Eclipse”) e momentos inesquecíveis. A mais brilhante de todas as seqüências flagram os dois rapazes visitando parentes de Roberto, momento em que Bruno faz uma série de observações argutas, a respeito dos anfitriões, que o jovem estudante jamais havia percebido. É a maneira sutil de Dino Risi ressaltar a inteligência e, ao mesmo tempo, a solidão que Bruno esconde com movimento permanente, apontando para os espectadores que, no íntimo, este homem com espírito de Peter Pan é um sujeito melancólico e carente. Filmão.

O DVD da Versátil tem excelente qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0). Como extras, entrevistas com o diretor (19 minutos) e com o protagonista Vittorio Gassman (4 minutos), legendadas em português, mais galeria de fotos.

– Aquele que Sabe Viver (Il Sorpasso, Itália, 1962)
Direção: Dino Risi
Elenco: Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Catherine Spaak, Linda Sini
Duração: 104 minutos

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