Arenas Sangrentas

02/06/2006 | Categoria: Críticas

Melodrama infanto-juvenil que deu o Oscar a Dalton Trumbo ganha versão em formato digital

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O melodrama infanto-juvenil “Arenas Sangrentas” (The Brave One, EUA, 1957) foi responsável por uma cena curiosa que ocorreu na cerimônia de entrega do Oscar em 1957 e entrou para a história da premiação por seu ineditismo. A cena ocorreu no momento em que foi anunciado que o troféu de melhor roteiro tinha sido ganho por Robert Rich, responsável pelo texto do filme de Irving Rapper. Os aplausos irromperam, mas o palco permaneceu vazio, pois o desconhecido Rich não apareceu para pegar a estatueta dourada. A ausência apenas confirmou o que todo mundo em Hollywood já sabia: Robert Rich era um pseudônimo usado pelo veterano Dalton Trumbo, que estava legalmente proibido de trabalhar nos estúdios de Hollywood durante aquela época.

Trumbo, junto com outros nove cineastas, havia sido banido da indústria do cinema, alguns anos antes, por se recusar a delatar colegas acusados de comunismo por uma comissão parlamentar de inquérito. Como os demais nomes presentes na lista negra, porém, ele nunca deixou de trabalhar de fato – apenas passou a assinar roteiros com pseudônimos. Mas a hipocrisia reinante era tão grande que somente em 1960, três anos após “Arenas Sangrentas”, o roteirista pôde admitir que era Robert Rich. E apenas em 1975, um ano antes de morrer e já bastante doente, ele recebeu o Oscar com efeito retroativo.

De certa forma, a grande surpresa dessa história toda é que um filme tão convencional como “Arenas Sangrentas” tenha faturado um Oscar, além de concorrer a mais três. Dirigido pelo hoje obscuro cineasta Irving Rapper, o melodrama narra uma história de amizade entre um menino mexicano (Michel Ray) e um touro. Trata-se de uma produção na linha da secular história “Beleza Negra”, tantas vezes transformada em filme dentro de Hollywood (a primeira versão data de 1910). É um filme anti-preconceito que ressalta o poder da amizade. Mas a melhor parte de “Arenas Sangrentas”, além da excelente fotografia em glorioso e espetacularmente colorido Technicolor, é a parte final, que encena uma tourada com modulação dramática perfeita.

Antes disso, os espectadores poderão acompanhar a história de Leonardo, o pirralho de quatro anos que salva um bezerro em noite de tempestade e cai de amores pelo animal. O animal, batizado de Gitano, é criado pelos pais do menino, agricultores de uma grande fazenda de gado no México. O filme acompanha a luta heróica de Leonardo para manter a posse do bicho, dado a ele pelo dono da propriedade, mas cobiçado por gente malvada. Gitano, é claro, se torna um touro forte e birrento (e é interessante perceber que, embora a ação cubra um período de quatro anos, o menino não cresce).

A narração em si é convencional e a história, bastante previsível, mas quando Irving Rapper transfere a ação para a Cidade do México, o filme ganha ares melodramáticos e uma montagem paralela muito bem feita, que mantém o interessa da platéia enquanto Leonardo percorre a cidade correndo, buscando uma maneira teoricamente impossível de salvar Gitano. Vale ressaltar, ainda, que por causa do enorme interesse de intelectuais como Ernest Hemingway e Gore Vidal, as touradas eram, na época, objeto de forte interesse dentro da sociedade norte-americana.

O DVD da Aurora é simples e traz apenas um trailer como extra. O filme em si está com boa qualidade de imagem (wide 2.35:1 letterboxed) e som OK (Dolby Digital 2.0)

– Arenas Sangrentas (The Brave One, EUA, 1957)
Direção: Irving Rapper
Elenco: Michel Ray, Rodolfo Hoyos Jr, Elsa Cárdenas, Carlos Navarro
Duração: 100 minutos

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