Arizona Nunca Mais

26/11/2007 | Categoria: Críticas

Menos sombrio e mais cômico do que o habitual, irmãos Coen zombam (com carinho) dos caipiras do meio-oeste

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Quase todos os filmes de Joel e Ethan Coen compartilham do mesmo esqueleto narrativo: um pecadilho inconseqüente vai se tornando uma bola de neve e tomando proporções inimagináveis, enquanto o pobre protagonista se desespera por não poder fazer nada para evitar o infortúnio. Esta descrição se encaixa perfeitamente no segundo trabalho dos irmãos, “Arizona Nunca Mais” (Raising Arizona, EUA, 1987). É o mais cômico e despretensioso de todos os filmes dos Coen, trocando os tons sombrios da obra de estréia (“Gosto de Sangue”, de 1984) por uma atmosfera mais leve, mais luminosa. O resultado é ótimo, embora estacione num patamar um pouquinho mais baixo do que o alto nível habitual alcançado pela dupla.

Uma das características mais importantes do longa-metragem é o clima de gozação com as idiossincrasias dos moradores do meio-oeste dos Estados Unidos – os caipiras, chamados por lá de “rednecks”. No filme de estréia, Joel e Ethan já brincavam com o tema, mas aqui ele é elevado à condição de fonte principal das piadas, que são de excelente qualidade. Desde então, admiradores do cinema da dupla (oficialmente, Joel dirigiu e Ethan produziu a obra, enquanto ambos assinam o roteiro, mas se sabe que eles dividem igualmente todas as funções) se acostumaram a encarar as brincadeiras espirituosas e ao mesmo tempo carinhosas com a porção rural dos EUA como parte fundamental do trabalho deles, como se pode perceber em filmes como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você” (2000) e “Fargo” (1996).

A história gira em torno de um casal inusitado: um assaltante pé-rapado de lojas de conveniência (Nicolas Cage) e uma rígida policial (Holly Hunter). O longo prólogo de dez minutos explica que eles se apaixonaram durante os freqüentes encontros na delegacia da cidadezinha onde moravam, cada um de um lado da lei. Os dias de felicidade radiante, porém, acabaram quando Edwina descobriu que era estéril e não podia ter filhos. No desespero que se segue, o casal decide que uma boa solução para o problema é roubar um dos gêmeos quíntuplos do próspero comerciante local Nathan Arizona (Trey Wilson). A decisão desastrada atira o casal numa série inesperada de confusões. Eles perdem o controle da situação, de maneira que no terceiro ato, todos os personagens estão tentando pôr as mãos no adorável bebezinho, que assiste a tudo com olhos curiosos.

As principais virtudes do filme estão nos diálogos impagáveis. Em certo momento, um personagem entra num armazém e pede por bolas de soprar. “Tem daqueles tipos que ficam com um formato engraçado quando cheios?”, pergunta. “Desde que você ache engraçado a forma redonda”, responde o vendedor, na maior seriedade. Como se pode perceber, é óbvio que o universo dos irmãos Coen passa longe do realismo habitual das produções norte-americanas. Esta impressão é acentuada pelo uso abundante do steadycam (câmera colocada sobre trilhos que corre a grande velocidade em direção) e pelas atuações de todo o elenco, sempre bem exageradas e melodramáticas.

O efeito geral é muito engraçado, mas “Arizona Nunca Mais” não chega ao mesmo nível dos melhores exemplares da obra dos Coen (caso de “Fargo” e “O Homem que Não Estava Lá”, por exemplo), talvez porque a produção não contenha o mesmo nível de observações argutas sobre a condição humana que os títulos mais dramáticos da dupla. De qualquer forma, é preciso frisar que “Arizona Nunca Mais” fez com que Joel e Ethan se tornassem populares para uma faixa bem maior de público, algo que provavelmente garantiu a carreira de ambos como cineastas autorais de fôlego. E isso, claro, é um dado extremamente positivo.

O DVD da Fox é simples. A qualidade é pobre: imagens granuladas (widescreen 1.85:1 anamórficas) e áudio razoável (Dolby Digital 2.0). O único extra é um trailer.

– Arizona Nunca Mais (Raising Arizona, EUA, 1987)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, Trey Wilson, John Goodman
Duração: 94 minutos

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