Armações do Amor

10/08/2006 | Categoria: Críticas

Respiração boca-a-bico de homem num periquito é só uma das muitas cenas constrangedoras desta comédia pateta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ½☆☆☆☆

Em certo momento da comédia “Armações do Amor” (Failure to Launch, EUA, 2005), um dos personagens é obrigado a fazer massagem cardíaca e respiração boca-a-boca (nesse caso, boca-a-bico) em um periquito. A seqüência, uma das mais constrangedoras jamais filmadas em Hollywood, dá o tom do longa-metragem: uma mistura de humor pastelão de terceira categoria com um toque politicamente incorreto, roubado diretamente da obra dos irmãos Peter e Bobby Farrelly. Pense no hilário “Quem Vai Ficar Com Mary?” (1999) feito no piloto automático por uma equipe criativa displicente e sem inspiração. O resultado é uma comédia romântica previsível e sem graça, verdadeira coleção de cenas patéticas que perigam só agradar a quem tem menos de 16 anos.

Um bom exemplo da sucessão de equívocos está na seqüência em que Tripp (Matthew McConaughey), o personagem principal, vai surfar com dois amigos viciados em esportes de ação. Munidos de pranchões, os três entram em um mar sem ondas. Um deles usa uma bóia salva-vidas e óculos de mergulhador. Isso tudo para surfar, repito, num mar sem o mínimo traço de ondulações. Aí, aparece um bando de golfinhos, e um dos animais não apenas derruba Tripp da prancha, como o ataca com uma mordida, no que talvez seja o primeiro caso na história da humanidade de pessoa atacada por golfinho.

Não é preciso ser nenhum especialista para verificar a quantidade absurda de bizarrices sem nexo nesta cena, mas vamos lá: quantas vezes você já viu surfistas boiando em um mar liso como o de Itamaracá? E quantas vezes você já viu um surfista usando bóia e óculos para pegar ondas? Será que os roteiristas Tom J. Astle e Matt Ember não fizeram uma pesquisa básica para poder conhecer minimamente a realidade que tentavam levar para a tela? E será que o diretor Tom Dey, ou qualquer outra pessoa da produção, não percebeu que uma simples olhada em revistas ou DVDs de surf, encontráveis em qualquer banca de revista ou locadora, poderia evitar o vexame de mostrar um negócio irreal desses?

O pior é que a cena citada, indigna de uma produção de US$ 50 milhões, é apenas um dos muitos equívocos de “Armações do Amor”. Na verdade, não haveria problema se o longa-metragem se assumisse como uma sátira escrachada, no estilo do grupo britânico Monty Python ou dos brasileiros do Casseta e Planeta. Não é o caso. A intenção da equipe criativa parece ter sido simplesmente criar uma comédia romântica convencional, seguindo a fórmula-padrão do gênero, em cima da percepção de um fenômeno social curioso: homens solteiros acima dos 30 anos de idade estão, cada vez mais, preferindo permanecer morando com os pais, ao invés de alugarem um apartamento para viverem sozinhos.

Esse pano de fundo é a única coisa interessante de todo o filme, pois documenta um fenômeno social específico – adultos com alma de meninos, os adultescentes, que fogem de responsabilidades típicas da idade – já percebido e retratado em produções bem mais inteligentes e engraçadas, como “Alta Fidelidade” (2000). De resto, “Armações do Amor” é uma mera repetição de fórmula, que inclui um casal inicialmente antagônico que acaba de apaixonando, amigos engraçadinhos das duas partes e um ator decente para dar um verniz respeitável à produção. A bola da vez, aqui, é Kathy Bates, ganhadora do Oscar pelo suspense “Louca Obsessão” (1990).

A trama básica é a seguinte: casal de meia-idade (Bates e Terry Bradshaw, este obrigado a ficar nu, de costas, em outra cena lamentável) contrata a profissional Paula (Sarah Jessica Parker, da série “Sex and the City”) para fazer com que seu filho Tripp, um garotão bronzeado de 35 anos (Matthew McConaughey), se apaixone por ela e, assim, vá morar sozinho. Não é preciso ser adivinho para saber que, no processo de seduzir o garotão cheio de músculos, a mulher vai acabar se apaixonando de verdade por ele. Como atração extra, o filme lança ainda uma inacreditável teoria sobre o motivo de Tripp ser atacado por esquilos, golfinhos e calangos vegetarianos: os animais estariam sentindo que ele está “fora das ordens naturais das coisas”. Não é só falta de criatividade, é algo pior: ausência de bom senso.

Com um pouco de atenção, dá até para perceber o desconforto dos atores mais experientes, tendo que pagar um mico atrás do outro. Fala-se que, nos bastidores, Sarah Jessica Parker andou se estranhando com a equipe, chegando mesmo a brigar com o galã McConaughey (que, entrevistado num programa de TV e perguntado o que achava dela, sapecou um indiscreto “uma mulher peculiar”). Dá para entender. Qualquer pessoa obrigada a interpretar uma prostituta de luxo num filme pateta teria a mesma reação. Você pode até alegar que ela não é uma prostituta (“não durmo com clientes”, diz Paula, em certo momento). Ah, OK. Então o filme quer convencer a platéia que, em pleno século XXI, um cara de 35 anos vai morar com uma mulher sem nunca ter transado com ela? E em Papai Noel, você acredita?

Disco simples da Paramount, o DVD contém o filme em boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e vídeo (widescreen 2.35:1 anamórfico). Além de making of, três featurettes enfocam os fenômenos de comportamento abordados pela história. Há ainda seção de perguntas com a diretor e o galã.

– Armações do Amor (Failure to Launch, EUA, 2006)
Direção: Tom Dey
Elenco: Matthew McConaughey, Sarah Jessica Parker, Kathy Bates, Zooey Deschanel
Duração: 97 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário