Arthur e os Minimoys

12/11/2007 | Categoria: Críticas

Apesar dos disparates na narrativa, filme tem bom elenco e as marcas registradas de Luc Besson no visual

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

Sete anos depois de ter dirigido pela última vez, o pop-cineasta francês Luc Besson resolveu voltar a comandar uma grande produção com um projeto no mínimo ousado: uma aventura infanto-juvenil, híbrido de animação computadorizada (CGI) e longa-metragem com atores de carne e osso (live action). “Arthur e os Minimoys” (Arthur et les Minimoys, França, 2006) é baseado em um livro escrito pelo próprio Besson e traz, estampadas em cada fotograma, as marcas registradas do diretor: cores berrantes, cabelos punk-pop coloridos, textura estilizada ao extremo e uma narrativa nitidamente menos inspirada do que o tratamento visual.

O fato de ter desenvolvido uma bem-sucedida carreira de produtor de filmes B de ação, durante o período longe da cadeira de diretor, deu a Besson bastante poder na indústria cinematográfica. Por isso, através de uma série de acordos financeiros, ele teve à disposição o generoso orçamento de US$ 80 milhões, altíssimo para os padrões europeus. Parte da grana foi parar nos bolsos do elenco de luxo, que empresta as vozes para os personagens criados em CGI (Robert De Niro, Madonna, Harvey Keitel, David Bowie, Chazz Palminteri). Curiosamente, os atores que aparecem nos trechos live action têm bem menos cacife (Mia Farrow, Freddie Highmore).

O motivo é visível a olho nu: o cineasta francês preferiu jogar o dinheiro na elaboração cuidadosa de um visual espalhafatoso e carnavalesco, repleto de cores estapafúrdias e personagens usando penteados que parecem saídos diretamente dos sets de “O Quinto Elemento”, ficção científica pop-fracassada de 1997. O resultado final é uma louca salada de referências que vão das mais óbvias e gastas (“Pulp Fiction”, “Os Embalos de Sábado à Noite”) às mais obscuras e, talvez, não-intencionais (“O Pequeno Rincão de Deus”, de Anthony Mann), repleta de exageros visuais à beira da histeria. Lembra um pouco o encontro de uma escola de samba carioca com um bando de punks de cabelos coloridos, dentro de uma boate com luz estroboscópica ligada em velocidade máxima.

O descompasso entre o visual cuidadosamente estilizado e a história, que apela para clichês e não dá muita bola para a lógica narrativa, é evidente. Cada tomada, cada plano, por menor que seja, parece ter sido cuidadosamente concebido por Besson. A ação, no entanto, anda aos trancos e barrancos, sem que o filme se preocupe em explicar detalhes ou desenvolver minimamente os personagens. Arthur (Freddie Highmore) é um garoto solitário que vive no sítio da avó (Mia Farrow). Ele sente a falta dos pais, sempre viajando, e do avô, que sumiu misteriosamente alguns anos antes. Certo dia, o menino encontra o diário que conta as aventuras africanas do velhinho, e acha nele indícios de que o mítico continente está localizando, na verdade, no próprio quintal de casa.

Na grama alta do terreno pode até mesmo estar escondido um tesouro. Com a esperança de encontrar a grana e pagar as dívidas da avó, Arthur começa a seguir as pistas. Acaba parando no reino onde vivem os tais Minimoys, seres do tamanho de formigas. Eles parecem ter nascido do cruzamento entre hobbits e elfos (de “O Senhor dos Anéis”), mas devidamente empoados com perucas coloridas e roupas punk-chiques. Daí em diante, o filme vira um passeio de montanha-russa repleto de referências – sobretudo visuais – a produções infanto-juvenis de outras épocas: “O Cristal Encantado”, “Formiguinhaz”, “Querida Encolhi as Crianças” e mais um punhado de outras.

Há virtudes e defeitos em “Arthur e os Minimoys”, mas infelizmente estes últimos predominam. Os primeiros 15 minutos até que são promissores, sugerindo uma aventura infantil ancorada em uma história não muito original, mas certamente interessante. A partir do momento em que Arthur adentra o reino dos minimoys – tornando-se uma criatura de cabelos brancos espetados que nada tem a ver com o menino sonhador do mundo real – o filme enfileira uma série quase ininterrupta de soluções narrativas capengas, criando um vilão desinteressante que mais parece um cruzamento de Voldemort (franquia Harry Potter) com Mumm-Ra (Thundercats) e apostando num romance inaceitável entre a criança de 10 anos e uma princesa minimoy com 1.000 anos de idade.

O DVD de locação da Europa traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen letterboxed) e áudio OK (Dolby Digital 2.0), mas sem extras. Já a edição especial é dupla, com um DVD só de extras e áudio DD 5.1. Há making of, entrevista com o diretor e videoclipe, além de uma versão em mp4, para tocadores em miniatura, como o iPod.

– Arthur e os Minimoys (Arthur et les Minimoys, França, 2006)
Direção: Luc Besson
Elenco: Freddie Highmore, Mia Farrow, Madonna, Robert De Niro
Duração: 102 minutos

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