Artista, O

02/02/2012 | Categoria: Críticas

Legítimo representante da categoria dos “feel good movies”, filme francês celebra nostalgicamente a Hollywood dos anos 1920

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Enquanto boa parte dos cineastas contemporâneos investe energia criativa em filmes que usam e abusam de truques narrativos mirabolantes, como intensas desconstruções cronológicas e investimento maciço em efeitos especiais abundantes – e isso é feito para dar a impressão de que os filmes têm um estofo dramático que não possuem de verdade –, um tipo menos freqüente de cinema almeja apenas a simplicidade. Alguns desses filmes, como “O Artista” (The Artist, França/Bélgica, 2011), celebram nostalgicamente um passado idílico, em alguns casos que nunca existiu, enquanto flertam com o futuro através de técnicas como a manipulação digital da imagem e, porque não, a construção da trama através de alusões a personagens e episódios que fazem parte de uma mitologia social específica. No caso de “O Artista”, a mitologia de Hollywood.

O longa-metragem de Michel Hazanavicius é um legítimo representante da categoria dos “feel good movies”, aqueles trabalhos meticulosamente construídos para fazer a platéia sair do cinema de bom humor e espírito elevado. Esse tipo de drama cômico (ou comédia dramática, como queiram) ganha interesse especial, aqui, por ter sido realizado como um legítimo representante da época que enfoca (a Hollywood da virada entre as décadas de 1920 e 1930): um filme em preto-e-branco, sem diálogos, em que a música não-diegética – ou seja, executada fora do mundo ficcional para sublinhar dramaticamente as ações dos personagens – é, na maior parte do tempo, a única banda sonora ouvida pelo público. Com exceção de duas cenas curtas, não podemos ouvir ruídos e nem mesmo as vozes dos atores.

O enredo tematiza, da mesma forma que o clássico “Cantando na Chuva” (1952), o período de transição do filme mudo para o cinema falado em Hollywood, entre 1927 e o final da década de 1930. Foi um período turbulento. Naqueles 10 anos, o estado de coisas mudou dramaticamente no cinema norte-americano. Grandes astros do cinema mudo (os galãs Rodolfo Valentino e Douglas Fairbanks, a estrela Mary Pickford e os comediantes Buster Keaton e Charles Chaplin são os maiores exemplos) caíram em decadência, enquanto uma nova geração de atores e atrizes assumia o status de grandes estrelas da Sétima Arte. Poucos veteranos sobreviveram com a fama intacta. Greta Garbo estava na linha de frente dessas exceções.

Algumas histórias verdadeiras vividas por esses nomes de prestígio em Hollywood foram ficcionalizadas por Hanavicius, que co-escreveu o roteiro (e montou “O Artista”), em torno dos fictícios George Valentin (Jean Dujardin) e Peppy Miller (Bérénice Bejo). Ele, um grande astro do cinema sem som, que entra em decadência após o surgimento dos filmes sonoros; ela, uma ambiciosa atriz em ascensão, que vai se aproveitar justamente da nova tecnologia para atingir o estrelato. O longa-metragem conta uma história de amor algo convencional, mas ao mesmo tempo encantadora, porque aborda um período da história do cinema que a maior parte dos espectadores simplesmente desconhece, enquanto celebra (sem medo de abraçar o melodrama, vocábulo que nos tempos atuais virou quase um palavrão) os pioneiros do cinema com muita nostalgia e alguma irreverência.

Interessante observar que, ao contrário do que parece, “O Artista” não abraça integralmente a estética do cinema dos anos 1920, como dá a impressão na superfície. É verdade que o tratamento do som é feito à moda do passado, inclusive com o acréscimo de planos realizados especificamente para representar, de modo visual, sons diegéticos que não podiam ser ouvidos num filme realizado naquela época (o mais evidente desses planos é aquele em que, ao final da primeira projeção de uma grande produção estrelada pelo protagonista George, a câmera se detém no rosto tenso de Jean Dujardin, que se desdobra em sorrisos quando ouve os aplausos da platéia – aplausos que, evidentemente, não ouvimos, mas sabemos que estão lá por causa da alegria que vimos na expressão do ator).

Por outro lado, a montagem rápida, que muitas vezes recusa os planos gerais mais abertos, ou os desloca para o meio de uma cena, é um recurso técnico que só veio se consolidar efetivamente nos anos 1980. Da mesma maneira, o uso constante de planos médios e close-ups que se concentram nos rostos dos atores (e, com isso, deixa um pouco de lado a comunicação com o corpo) aponta uma tendência consolidada apenas nos anos 1960. Nada disso, porém, interfere na fluidez admirável da narrativa, que se desenvolve com agilidade, e culmina com um final gracioso, que contém uma surpresinha divertida.

“O Artista” funciona muito bem tanto para a platéia jovem, que tem pouca ou nenhuma familiaridade com o cinema produzido antes de 1927, quanto para os conhecedores dos tempos de ouro de Hollywood. Estes têm aqui um título para se deliciar, reconhecendo dezenas de pequenas alusões a histórias e “causos” de uma época crucial para o desenvolvimento do cinema como o conhecemos. Este é um filme cuja simplicidade aparente esconde certa dose de ousadia, no sentido em que aposta numa estética que já parecia morta e enterrada – uma atitude digna de aplausos dirigidos à equipe criativa que o realizou. Por outro lado, embora seja encantadora, a historieta que conta não vai muito além do esqueleto narrativo de uma comédia romântica tradicional.

– O Artista (The Artist, França/Bélgica, 2011)
Direção: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell
Duração: 100 minutos

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