Asas do Desejo

15/05/2007 | Categoria: Críticas

Filme de Wim Wenders é um dos mais sublimes estudos da natureza humana dos últimos tempos

Por: Rodrigo Carreiro

[rating:5]

Se os anjos existem de verdade, como serão? Muitos artistas – alguns talentosos, outros nem tanto – já imaginaram a resposta. O cineasta alemão Wim Wenders talvez tenha sido um dos mais criativos a fazê-lo. Wenders usou os anjos como metáfora para tecer um poético e sensível estudo sobre a condição humana em “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin, Alemanha, 1988).

Não é segredo para ninguém que “Asas do Desejo” serviu como inspiração para a comédia romântica “Cidade dos Anjos”, com Nicolas Cage e Meg Ryan. Quem assistiu ao longa-metragem norte-americano já tem uma boa idéia do enredo do filme de Wenders, uma vez que o filme recicla grande parte das idéias do alemão, submetendo-as a à lógica de Hollywood: um anjo se apaixona por uma mulher e decide abandonar a imortalidade para poder viver essa paixão, uma emoção fundamentalmente humana.

Esse resumo serve para descrever, em linhas gerais, os dois filmes. Mas eles não poderiam ser mais diferentes. “Cidade dos Anjos” se concentra apenas no amor aparentemente impossível de um anjo por uma mortal. A trajetória do anjo de Wenders é parecida, mas para o cineasta alemão não é o objetivo final – a conquista – que importa; o foco do filme está na transformação. O amor é a epítome da experiência humana, e Wenders sabe disso, mas não é tudo o que importa. Beber uma xícara de café, esfregar as mãos uma na outra para espantar o frio, fumar um cigarro olhando para a noite, todas podem ser experiências cotidianas tão fascinantes quanto um beijo, para alguém que começa a reconhecer sua própria natureza humana.

“Asas do Desejo” é um filme contemplativo, que observa e comenta sobre a vida. É um filme sobre a passagem do tempo, sobre a consciência a respeito de si; em última análise, filme sobre a descoberta da própria identidade. Em vários momentos, Wim Wenders faz as perguntas que motivam a reflexão provocada pelo filme: “por que eu sou eu e não você? Por que estou aqui e não ali? Onde termina o tempo e onde começa o espaço?”.

Simples, porém abstratp. O próprio Wenders explica, recitando um mantra infantil que seus anjos repetem várias vezes, que essas são as primeiras questões feitas por uma criança, quando ela começa a tomar consciência de si mesma. São, portanto, as questões fundamentais que definem a identidade de qualquer indivíduo. Perguntas aparentemente bobas, mas que nenhum filósofo conseguiu responder. “Asas do Desejo” é pura metafísica e tem uma face espiritual evidente, embora trate fundamentalmente da experiência urbana (e, portanto, humana). Talevz seja por isso que tanta gente acha o filme chato ou incompreensível; ele não procura respostas, apenas reflete sobre as perguntas.

Wim Wenders fez um filme verborrágico mas, contraditoriamente, sem diálogos. A maior parte do filme é construída de monólogos interiores, de pensamento. Os anjos passeiam entre os mortais, ouvindo seus pensamentos como se girassem o dial de um aparelho de rádio, saltando entre diversas estações. De vez em quando, eles encostam as mãos nos ombros das pessoas mais angustiadas e tentam transmitir um sentimento de esperança, que pode ser de grande valia – ou não. Isso é tudo o que lhes é permitido. É uma vida 100% passiva.

Os anjos de Wenders parecem detetives de um filme noir: grandes sobretudos negros, rostos sérios, mãos nos bolsos. Eles vivem em bibliotecas e se empoleiram em pontos altos das cidades. O filme se passa em Berlim, a cidade perfeita no momento perfeito, pois o filme se passa poucos meses antes da queda do muro que a dividia. A cidade é o campo de batalha que expõe a visão de Wenders sobre a experiência urbana contemporânea, marcada pelo isolamento cada vez maior dos invidíduos. “Em Berlim, não é possível se perder, pois qualquer caminho vai dar no Muro”, reflete um anjo. Numa metáfora brilhante, Wenders afirma que cada indivíduo na Alemanha é uma espécie de mini-Estado, com leis e regras próprias. “Londres, Tóquio, Kioto, Nova York”, pensa outro personagem, dentro de um avião. Berlim é um microcosmo do mundo.

O filme vislumbra esse aspecto solitário da existência humana através dos olhos impassíveis dos anjos. Eles são invisíveis aos humanos, com exceção das crianças; os pequenos são os únicos seres que olham diretamente para os anjos, embora o filme jamais explicite se as crianças são realmente capazes de vê-los. Nesse sentido, Wenders opera uma metáfora fantástica, associando os anjos às crianças. Eles se identificam com elas; são seres puros, inocentes, que começam a descobrir sua identidade. Os adultos, mergulhados no turbilhão de problemas do cotidiano, já perderam de vista as três questões fundamentais. É quase um ensinamento budista.

A maneira que Wenders encontrou para realçar a passividade dos anjos foi filmando “Asas do Desejo” sempre da perspectiva desses seres, retirando a cor quase completamente. Os anjos vêem um mundo monocromático, sem emoções – sem cores. Quase 80% do filme são em preto-e-branco, com a exceção da parte final, quando o protagonista, Damiel (Bruno Ganz), toma a decisão crucial de existir. Os poucos planos coloridos no meio do filme sugerem que o processo de conversão de Damiel, de anjo em humano, tornou-se irremediável em determinado momento. Ao se apaixonar, a vida começou a ficar colorida para ele. Quando isso finalmente ocorre, “Asas do Desejo” ganha cores explosivas.

As atuações são espontâneas, mas cuidadosas. Ganz tem o maior destaque por conseguir imprimir um ar altivo e melancólico enquanto anjo. A interpretação muda radicalmente quando ele desce à Terra. Não são apenas as roupas ou o penteado; algo mais sutil lhe empresta a humanidade necessária antes do seu encontro com a trapezista Marion (Solveig Dommartin). O modo como ele se entrega aos pequenos prazeres do cotidiano, o sorriso bobo, a maneira de caminhar, o olhar perplexo; de repente, Damiel é como uma criança crescida. Descobre o que é sentir, o que é ser, efetivamente, humano.

A dicotomia crianças X anjos torna-se evidente a partir da atuação de Ganz. Combinada com a sutileza da direção de Wenders, a performance do ator dá agilidade ao filme, reforçando o sentido da lentidão melancólica dos primeiros 90 minutos. A partir desse momento, o filme ganha um senso de humor refinado, encarnado perfeitamente pelo personagem de Peter Falk (quando o ator aparece, interpretando a ele mesmo no personagem mais fascinante e enigmático do filme, o filme ganha ironia e diálogos deliciosos).

Isso tudo é prova da maturidade de um cineasta no pleno domínio do seu talento. Wim Wenders já havia ganho Cannes e feito grandes filmes, mas “Asas do Desejo” é tido por muitos críticos como a sua obra-prima, e um dos mais importantes filmes europeus dos últimos 20 anos. É fácil perceber o porquê.

“Asas do Desejo” conserva a gravidade e a capacidade de penetrar na psiquê humana, algo que os grandes cineastas europeus das décadas de 1960 e 1970 faziam com propriedade. Wenders se aproxima especialmente do italiano Michelangelo Antonioni, com suas longas caminhadas silenciosas e a temática insistente da incomunicabilidade. O diretor alemão parece um pouco mais otimista. E esse otimismo se revela profético, na medida que o muro de Berlim, símbolo preferido de Wenders para a solidão do homem de hoje, cairia pouco depois.

Vejamos: “Asas do Desejo” tem falas em alemão, inglês, francês, japonês e espanhol. O músico australiano Nick Cave aparece em três canções ao vivo; ele coroa uma trilha sonora dissonante e eclética, que vai dos corais religiosos ao pop furioso para sublinhar a dificílima e sublime mistura de espiritualidade com globalização tecida por Wim Wenders. Obra-prima.

“Asas do Desejo” é um lançamento da Europa Filmes, com boa qualidade de imagem (letterboxed) e áudio (Dolby Digital 2.0). Nos EUA, o disco lançado pela MGM tem melhor qualidade: a imagem é anamórfica, e existe um documentário de 43 minutos e mais 32 minutos de cenas cortadas, com comentários em áudio do diretor e do astro Peter Falk.

– Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, Alemanha, 1988)
Direção: Wim Wenders
Elenco: Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander, Peter Falk
Duração: 128 minutos

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