Assalto à 13ª DP

09/09/2005 | Categoria: Críticas

Mais do que apenas refilmar produção de 1976, longa-metragem aposta em estética suja e realista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O claustrofóbico policial “Assalto à 13ª DP” (Assault on Precint 13, EUA, 2005) é anunciado como uma refilmagem de um pouco conhecido filme de John Carpenter, datado de 1976. Mais do que uma refilmagem, contudo, o longa-metragem de 2005 aproveita uma idéia simples do primeiro trabalho – policiais e malfeitores, presos dentro de uma delegacia, precisam se unir para sobreviver a uma emboscada – para filtrá-la através da estética que domina os filmes policiais neste início de século XXI: uma estética mais suja, mais realista, com câmera na mão, imagens fora de foco e cortes bruscos.

Nesse sentido, pode-se apontar o excelente thriller “Narc”, de Joe Carnahan, como epítome dessa nova estética do filme policial. Foi a produção do diretor novato que lançou as bases desse estilo, mais realista e brutal. Carnahan não foi nenhum visionário; apenas ressaltou características visuais que bons filmes antigos do gênero, como “Operação França” (1971), já trabalhavam, eliminando a limpeza asséptica no tratamento visual típico que Hollywood reserva aos seus thrillers e dotando o filme de um senso de urgência quase amadorístico, o que aumenta a sensação de realismo do material.

Basta dar uma conferida nas seqüências de abertura dos dois filmes para identificar as semelhanças. Em “Narc”, era possível acompanhar um agente antidrogas infiltrado em uma quadrilha perseguindo um traficante. A cena, sangrenta e visceral, acabava em tragédia. “Assalto à 13ª DP” busca influência nesta seqüência, utilizando a mesma técnica: câmera tremida e violência explícita. Ainda vai mais longe, utilizando o mesmo perfil para o personagem apresentado. Jake Roenick (Ethan Hawke) também é um policial infiltrado em uma quadrilha de traficantes. A cena também acaba em tragédia.

Oito meses depois, reencontramos Jake no dia de Ano Novo. Agora ele trabalha em função burocrática, numa velha delegacia em seu último dia de funcionamento. Viciado em antidepressivos e álcool, Jake faz tratamento psicológico contra a vontade, com a atraente psicóloga Alex Sabian (Maria Bello), e encara com ironia uma sessão poucas horas antes da contagem regressiva. Uma dupla de parceiros lhe faz companhia no plantão. Tudo parece tranqüilo, apesar da tempestade de neve do lado de fora, num subúrbio de Nova York. A noite, entretanto, não será tão tranqüila.

Paralelamente à trajetória de Jake, somos apresentados a Marion Bishop (Lawrence Fishburne), um gângster que mata um policial disfarçado dentro de uma igreja. Ele é preso. Durante o transporte para a cadeia local, o ônibus apresenta problemas e é desviado para a delegacia do título. Logo, o lugar está cercado por uma enorme quantidade de homens mascarados empunhando metralhadoras, granadas e outras armas pesadas. Parece evidente que o alvo deles é Bishop, já que os demais presos não passam de bandidos fuleiros – um viciado, uma arrombadora de carros, um ladrão de terceira. O problema é que, com poucos policiais para defender o local, Jake precisa se aliar ao gângster a fim de evitar a própria morte.

A idéia é interessante. O roteiro, de James DeMonaco, tem sua parcela de acertos, alguns deles envolvendo os destinos dos personagens. Nesse tipo de filme, como se sabe, é sempre possível adivinhar quem vai servir como “boi de piranha”, e morrer nas cenas de combate, e quem vai sobreviver no final. Mas “Assalto à 13ª DP” surpreende, pelo menos em um caso. Também existem algumas reviravoltas inteligentes na trama, incluindo a chegada surpreendente de um agente que deveria estar de folga e o surgimento de um traidor de identidade misteriosa dentro do grupo.

Por outro lado, DeMonaco parece ter gastado tempo demais desenvolvendo personagens sem necessidade, o que acaba reduzindo o clima de urgência que a edição veloz e o estilo realista pretendem. Além disso, a produção deve ter gastado pouco tempo pensando em detalhes como o figurino. É impossível imaginar que alguém dormiria, no meio de uma tempestade de neve, de cuecas e sem camisa – mas isso acontece em “Assalto à 13ª DP”. Pior ainda é a roupa de reveillon da psicóloga Alex Sabian: um vestido curtíssimo e sapatos de salto alto. Dificilmente alguém sairia de casa com essa roupa para enfrentar meio metro de neve e 20ºC negativos no termômetro.

Um pouco mais de rigor no trabalho do diretor Jean-Franois Richet poderia ter evitado esses erros. É possível perceber, também, que Richet não foi à fundo na opção arrojada da estética realista de “Narc”. Utilizada com abundância na primeira metade do filme, a estética da câmera na mão rende bons momentos, como um longo plano-seqüência de discussão entre policiais e prisioneiros, durante a tentativa de invasão do lugar. A câmera pula, sem cortes, de um personagem para outro, enquanto eles dialogam. Mas a opção vai sendo abandonada na segunda metade do longa-metragem, e desaparece da cena final, que se passa dentro de uma floresta (?). Não é nada parecido com “A Supremacia Bourne”, que leva a opção realista a extremos, mas tudo bem. “Assalto à 13ª DP” não quer mudar o mundo, e cumpre o papel de divertir com certa eficiência.

O DVD da Universal é bem recherado. O filme está no formato original (widescreen anamórfico), tem trilha de áudio Dolby Digital 5.1 e venm acompanhado de cinco featurettes, mais uma pequena galeria de cenas excluídas, um comentário em áudio (reunindo diretor, roteirista e produtor e trailer, tudo com legendas em português.

– Assalto à 13ª DP (Assault on Precint 13, EUA, 2005)
Direção: Jean-François Richet
Elenco: Ethan Hawke, Lawrence Fishburne, Gabriel Byrne, Maria Bello
Duração: 109 minutos

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