Assalto, O

02/10/2003 | Categoria: Críticas

David Mamet dá aula de montagem e diálogos econômicos em filme despretensioso e eficiente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O roteirista e dramaturgo David Mamet tem uma carreira apenas esporádica como diretor de cinema. Com uma reputação a zelar nos círculos acadêmicos, ele não se mete em projetos megalomaníacos e prefere dirigir pequenas produções, com elenco reduzido e pouca ação física. “O Assalto” (Heist, EUA, 2001), a última incursão de Mamet no terreno cinematográfico, repete essas características e acrescenta mais uma: o talento do sujeito para tecer tramas aparentemente simples, mas cheias de reviravoltas.

“O Assalto” poderia ser descrito como “Onze Homens e Um Segredo” para um público menos interessado em verniz pop. O enredo básico é semelhante: Joe Moore, um ladrão de jóias de habilidade e inteligências excepcionais (Gene Hackman), comete um pequeno erro em um assalto e passa a correr o risco de ir para a cadeia. Prudente, ele decide se aposentar e ir morar na Argentina (parêntese: nossos ‘hermanos’ ainda não estavam mergulhados na crise quando as gravações do longa aconteceram, obviamente, ou do contrário a inteligência do gatuno seria comprovadamente questionada com essa escolha).

O plano dá errado porque o financiador dos seus planos mirabolantes, Bergman (Danny DeVito), exige que ele aja mais uma vez uma carga preciosa. É um roubo arriscado, mas, pressionado pelo sócio e desconfiado da fidelidade da esposa, Fran (Rebecca Pidgeon), ele decide ir em frente. Vai receber a ajuda providencial de dois parceiros tradicionais, Bobby e Pinky (Delroy Lindo e Ricky Jay), e do sobrinho do chefão, Jimmy (Sam Rockwell).

Os atores, em geral aproveitados como meros coadjuvantes em Hollywood, aproveitam a trama seca, concentrada nos diálogos cínicos e concisos, para brilhar. Hackman e Lindo exibem a tranqüilidade usual e um timing perfeito, enquanto Pidgeon esbanja charme e parece, apropriadamente, um tanto deslocada como a sedutora mulher de Joe. Eles aprenderam bem a lição maior do Mamet cineasta, herdada do velho e bom Eisenstein – em se tratando de palavras, menos é mais. A economia valoriza ainda mais os diálogos.

Se o enredo parece simples, a sofisticação exibida pela direção de David Mamet garante o interesse do espectador desde os primeiros instantes, que flagram apresentam os membros da quadrilha em pleno golpe. O grande destaque do filme, porém, fica com a montagem espetacular de Mamet, um rígido seguidor das teorias do russo Sergei Eisenstein, que proclamam a edição de planos e seqüências como o verdadeiro elemento responsável pela mágica do cinema. O significado no cinema, para Mamet, é criado na montagem, e o filme dá uma verdadeira aula prática no tema.

Nesse filme, o cineasta mostra como domina a arte da montagem à perfeição. As duas longas seqüências que flagram a quadrilha executando assaltos são excepcionais, e prescindem de palavras. Os diálogos, cheios de bom-humor, garantem a agilidade da trama e casam perfeitamente com o clima de ‘banditismo cool‘, inaugurado na era contemporânea pelo Tarantino de “Cães de Aluguel”. Tudo bem, há alguns excessos (não dá para acreditar num sujeito baleado que, morrendo, balbucia “vocês não querem ouvir minhas últimas palavras?”), mas eles são apagados da memória no momento em que se deixa a sala de cinema. O que fica é uma aula de montagem e a lembrança de um filme honesto, despretensioso e eficiente.

– O Assalto (Heist, EUA, 2001)
Direção: David Mamet
Elenco: Gene Hackman, Delroy Lindo, Rebecca Pidgeon, Danny DeVito
Duração: 111 minutos

| Mais


Deixar comentário