Assassinato de um Presidente, O

06/11/2007 | Categoria: Críticas

Filmes assustador faz retrato cuidadoso de personagem que mergulha numa espiral de solidão e loucura

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O projeto original de “O Assassinato de um Presidente” (The Assassination of Richard Nixon, EUA/México, 2004) data do ano de 1998. A história conta a jornada de homem desesperado e solitário rumo a um colapso mental. Sam Bicke (Sean Penn) culpa o mundo inteiro por seus problemas, e decide que uma boa maneira de resolvê-los é seqüestrar um avião e arremessá-lo contra a Casa Branca. A idéia nasceu pelo menos três anos antes dos atentados de 11 de setembro de 2001. E, mais importante, foi baseada em um acontecimento real. Houve um Sam Bicke de carne e osso, e ele experimentou uma espiral semelhante de solidão e loucura, embora a retrato cuidadoso e detalhado que o longa-metragem faz do drama íntimo seja inteiramente ficcional. Sob certo aspecto, trata-se de um filme assustador.

Uma rápida olhada nos créditos basta para associar a obra à esquerda engajada de Hollywood. Nomes como Leonardo Di Caprio, Alexander Payne (diretor de “As Confissões de Schmidt”) e Alfonso Cuarón (“Filhos da Esperança”) são apresentados como produtores executivos, e emprestaram um pouco do prestígio na indústria do cinema para viabilizar a produção. Sean Penn, outro ícone da turma politizada, esteve ligado ao projeto desde o início. Nenhum deles arredou pé da produção depois que terroristas islâmicos jogaram aviões comerciais nas torres gêmeas do WTC. Eles sabiam que uma associação entre as duas coisas só aconteceria na cabeça de gente muito ingênua, ou muito burra. O que temos aqui, afinal, é uma história de solidão e loucura, levada às últimas conseqüências por uma mente perturbada.

Sam Bicke é vendedor de móveis, mas não se destaca muito na profissão. O mundo inteiro dele está em colapso. A mulher (Naomi Watts) o expulsou de casa e não demonstra o menor interesse em voltar atrás. Os três filhos não sentem a falta dele (em uma cena particularmente pungente, ele senta sozinho no gramado da residência, com o cachorro, e afaga o animal: “Pelo menos você me ama, certo?”). No trabalho, os chefes têm paciência infinita, tentando doutriná-lo para aumentar os índices de venda. Bicke não parece muito interessado – ele sente que está enganando os clientes ao usar técnicas de persuasão para efetuar as vendas. Ele vê os Panteras Negras na TV, vai até o escritório local do movimento e tenta socializar (“troquem a pantera pela zebra e vocês dobram os seguidores”). Ninguém lhe dá ouvidos.

Evidentemente, há algo de profundamente errado com Sam Bicke. Ele não consegue socializar. É completamente inábil em termos de relações sociais. O amigo Bonny (Don Cheadle) sabe que ele é uma pessoa boa, generosa, e lhe convida para jantar, mas Sam não consegue se conectar. Não sabe identificar a hora de fazer um elogio, ou o momento certo para abraçar alguém. Causa constrangimento a quem gosta dele. As decepções e tristezas se sucedem. Há um ditado que diz mais ou menos o seguinte: “se todo mundo parece errado e só você parece certo, é mais provável que quem esteja enganado seja você”. Sam Bicke não conhece a frase. Acha que o mundo é hostil com ele, e sente necessidade de canalizar todo o turbilhão de sentimentos que roda dentro da cabeça dele – mágoa, tristeza, solidão, saudades, decepção – para algo ou alguém.

“O Assassinato de um Presidente” realiza um soberbo estudo de personagem. Sem pressa, e contando com o auxílio valioso do ótimo fotógrafo Emmanuel Lubezki (“Filhos da Esperança”), o diretor explora os cenários fechados para erguer um retrato impecável do seu protagonista, com todas as nuances de complexidade que o transformam num ser humano digno de pena, e além de qualquer ajuda. A performance sensacional de Sean Penn, num papel que parece feito especialmente para ele, somente reforça as qualidades deste drama sensível. Há algo de Travis Bickle, o alienado e violento motorista de táxi do clássico de Martin Scorsese, em Sam Bicke (perceba que até o sobrenome é parecido), assim como existe uma evidente influência do cinema autoral norte-americano dos anos 1970 – Coppola, Rafelson, o próprio Scorsese – em “O Assassinato de um Presidente”. Ótimo filme.

O DVD simples, da Videofilmes, não é muito bom. A imagem tem formato incorreto (tela cheia, com cortes laterais), o áudio é bom (Dolby Digital 5.1) e há, como extra, apenas uma galeria de cenas cortadas (8 minutos) e trailers de outras produções.

– O Assassinato de um Presidente (The Assassination of Richard Nixon, EUA/México, 2004)
Direção: Niels Mueller
Elenco: Sean Penn, Naomi Watts, Don Cheadle, Jack Thompson
Duração: 96 minutos

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