Assassinato no Expresso Oriente

13/09/2006 | Categoria: Críticas

Filme de Sidney Lumet possui o espírito de diversão nostálgica da trama de Agatha Christie

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Boa parte dos escritores modernos, talvez influenciados pelo cinema, possuem estilos eminentemente visuais, com descrições vívidas que se adequam perfeitamente à linguagem cinematográfica. Agatha Christie, porém, nunca foi moderna; ao contrário, é quase sinônimo de uma aristocracia inglesa que está extinta. Por isso, os longas-metragens baseados na obra dela sempre esbarraram numa dificuldade: os enredos são calcados na palavra, e não em imagens. Sidney Lumet foi o diretor que logrou o melhor resultado dentro os que tentaram, com o divertido thriller “Assassinato no Expresso Oriente” (Murder on the Orient Express, EUA, 1974).

A idéia de filmar um dos mais chiques e famosos romances da dama inglesa da literatura de mistério surgiu enquanto o cineasta ainda lia o livro, entusiasmado. Na primeira metade dos anos 1970, Lumet era um dos autores mais quentes de Hollywood, e por isso não teve grandes dificuldades para atrair um elenco invejável de craques, incluindo Lauren Bacall, John Gielgud, Jaqueline Bisset, Sean Connery, Anthony Perkins, Martin Balsam e Ingrid Begman. Junta, esta turma de atores geniais foi capaz de traduzir para o filme o espírito de diversão e nostalgia contagiantes da trama de Agatha Christie, embora o enredo – complicado e cheio de reviravoltas – tivesse que ser um pouco sacrificado para isso.

Na verdade, a história é bastante simples. Durante uma viagem do famoso Expresso Oriente, um trem chique e lendário usado pela aristocracia européia que atravessa vários países da antiga Cortina de Ferro, como Bulgária e Romênia, um milionário (Richard Widmark) é misteriosamente assassinado. O famoso detetive Hercule Poirot (Albert Finney, em interpretação saborosamente exagerada), presente no veículo, é convocado para investigar o caso e encontrar o assassino, antes que o expresso chegue à Iugoslávia, onde a viagem poderá ser interrompida se o caso não estiver solucionado.

Sidney Lumet precisou driblar duas grandes dificuldades para conseguiu um resultado satisfatório. Para começar, o enorme número de personagens; são mais de 20 pessoas, todas suspeitas do crime e com contribuições importantes para dar à história. O outro problema é o expressivo número de vezes em que a narração precisa ser interrompida para que flashbacks expliquem detalhes do passado de cada personagem, ou esclareçam minúcias da investigação de Poirot, baseada em raciocínio lógico e perguntas inconvenientes.

O cineasta veterano resolveu o problema montando uma firme estrutura narrativa clássica, baseada em três atos distintos, facilmente reconhecíveis. A primeira parte apresenta os personagens e introduz o espectador na atmosfera exótica, aristocrática e levemente surreal do mundo de Agatha Christie. O segundo trecho é basicamente uma série de interrogatórios, conduzidos pelo detetive, com cada um dos passageiros e funcionários do trem. O clímax, esplendidamente filmado pelo diretor de fotografia Geoffrey Unsworth, realiza um monólogo fascinante, de 17 minutos, em que Poirot explica a solução inacreditável do enigma.

No excelente livro de lembranças “Fazendo Filmes”, Lumet explicou que sua maior dificuldade não estava nos diálogos longos, na montagem difícil dos flashbacks, ou mesmo na administração dos egos de tantas estrelas trabalhando juntos (coletivamente, aliás, uma interpretação uniformemente excelente). Para o diretor, o mais difícil de tudo foi alcançar um registro divertido, “de espírito leve”, que pudesse espelhar perfeitamente a atmosfera da literatura escrita pela dama do crime. Pois bem, Lumet conseguiu. “Assassinato no Expresso Oriente” pode não ser uma obra-prima, mas é uma delícia de filme.

O DVD nacional, fraco, é um lançamento Universal. Contém apenas o filme, e a qualidade de imagem (wide 1.78:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 2.0) é boa, mas ele está ligeiramente acelerado em relação à rotação normal, o que faz com que a duração seja cinco minutos mais curta. Nos EUA, existe uma edição especial com imagens restauradas, áudio em cinco canais (DD 5.1) e um documentário de 48 minutos em quatro partes.

– Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express, EUA, 1974)
Direção: Sidney Lumet
Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman
Duração: 122 minutos

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