Assassino da Furadeira, O

11/12/2005 | Categoria: Críticas

Estréia do maldito Abel Ferrara nos longas-metragens é um filme punk travestido de horror B

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Este filme deve ser tocado alto”. O aviso na abertura de “O Assassino da Furadeira” (The Driller Killer, EUA, 1979) é razoavelmente comum em selos de discos de bandas punk, mas bastante raro em filmes. Trata-se de uma pista importante para decifrar a mistura curiosa de horror B e filme de arte que é a estréia em longas-metragens do diretor Abel Ferrara. “O Assassino da Furadeira” é uma tentativa bem sucedida de capturar a urgência e a excitação do clima punk que a juventude de Nova York vivia no finalzinho da década de 1970, quando a cena musical da cidade tinha bandas como Ramones, Blondie e Television despontando com força.

Sim este é um filme punk, mas não no sentido celebratório e nostálgico que outros cineastas utilizaram na abordagem ao mesmo período. “Velvet Goldmine”, de Todd Haynes, por exemplo, é um retrato afetuoso da cena glam, a mesma retratada por Ferrara. Já “Sid & Nancy”, de Alex Cox, filtra o período pela ótica inglesa, mais política e de índole menos libertária com relação ao sexo, por exemplo. Perto da fúria e da crueza de “O Assassino da Furadeira”, aliás, esses dois títulos são como versões “censura livre” do que foi o turbilhão punk.

É interessante, portanto, que o personagem principal seja um homem avesso ao estilo de música. Reno (Abel Ferrara, sob o pseudônimo Jimmy Laine) é um artista plástico que mora em Nova York e passa por um período particularmente difícil. Ele mal tem dinheiro para comer, deve dois meses de aluguel e enfrenta conflitos diários com a namorada Carol (Carolyn Marz). Para completar, uma banda punk ensaia 24 horas por dia no apartamento vizinho, e o som pesado e distorcido não o deixa dormir.

Reno está obcecado pela pintura em que trabalha atualmente. A obra mostra a figura de um búfalo com um enorme e ameaçador olho negro. O quadro parece hipnotizar Reno, que numa das melhores cenas ameaça “esfaquear” o animal e termina, aos beijos, soltando juras de amor para o olho. O artista tem sonhos e devaneios recorrentes, que o mostram encharcado de sangue, aos berros. Não demora muito para que Reno compre um bizarro equipamento anunciado na TV, que permite a ligação de um aparelho elétrico sem o uso de eletricidade, e saia de casa armado com uma furadeira, durante os transes, matando aleatoriamente quem cruza o seu caminho.

“O Assassino da Furadeira” não é o tipo de filme que fãs de séries como “Halloween” ou “Sexta-Feira 13” vão curtir, simplesmente porque não é cinema comercial. Sua narrativa é caótica e flerta com o cinema experimental, de sensações, com longas cenas sem diálogos e delírios visuais típicos de artistas performáticos. Além disso, apresenta um saudável desprezo pelas regras narrativas típicas da diversão sanguinolenta para adolescentes.

O que a obra de Abel Ferrara faz exemplarmente é capturar a atmosfera elétrica (sem trocadilhos) da Nova York da época. Os personagens falam alto e rápido, estão constantemente banhados de suor frio, com um senso aguçado de excitação, como pessoas chapadas de anfetamina ou cocaína. O estilo é documental, com câmera nervosa na mão, cortes secos, iluminação amadora impensável num filme de estúdio (observe nas cenas da banda tocando ao vivo como os refletores são filmados de frente, cegando o espectador em vários momentos) e muitos ruídos industriais como pano de fundo. Tudo perfeito para mostrar a agitação caótica daqueles tempos.

O filme de Ferrara faz uma referência óbvia às alucinações perpetradas por Roman Polanski, “Repulsa ao Sexo”. A certa altura do filme, Reno ganha de presente com um coelho morto e sem pele, idêntico ao cadáver descarnado que leva a personagem de Catherine Deneuve à loucura completa, no épico sobre apartamentos do diretor polonês. A primeira manifestação de violência vinda do artista plástico, por sinal, tem relação direta com a visão repulsiva do animal morto. De alguma maneira, ele se conecta subconscientemente ao búfalo da pintura perturbadora que “fala” com Reno e o faz mergulhar na paranóia urbana típica de Nova York.

Embora desconhecido do público, “O Assassino da Furadeira” é um dos trabalhos mais admirados de Abel Ferrara, diretor maldito que jamais filmou para Hollywood e permaneceu restrito aos círculos alternativos. Um dos seus fãs é o texano Robert Rodriguez, que inclusive surrupiou a linha de baixo da canção que a banda punk vizinha de Reno toca a toda hora e a transformou no tema de abertura de “Sin City”. O filme baseado nos gibis de Frank Miller pode ser considerado, aliás, um herdeiro direto de “O Assassino da Furadeira”, pois celebra o submundo das grandes metrópole utilizando o mesmo estilo frenético de Abel Ferrara.

A edição lançada no Brasil pela Aurora é bem caprichada. Além do filme (com ótima imagem wide letterbox 1.85.1 e som Dolby Digital 2.0), há três curtas-metragens feitos na primeira metade da década pelo diretor, mais trechos de críticas e um trailer.

– O Assassino da Furadeira (The Driller Killer, EUA, 1979)
Direção: Abel Ferrara
Elenco: Abel Ferrara,
Duração: 95 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »