Assim Estava Escrito

03/09/2005 | Categoria: Críticas

Vincente Minelli revela a magia e as contradições dos bastidores de Hollywood com retrato complexo da indústria do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A maioria das pessoas que conhecem um pouco de cinema associa o nome do diretor Vincente Minelli a musicais. É natural, uma vez que o cineasta começou a carreira em Hollywood como coreógrafo. Só que Minelli é muito mais do que um criador de passos de dança. “Assim Estava Escrito” (The Bad and the Beautiful, EUA, 1952) é prova cabal dessa afirmação. O filme, considerado por Martin Scorsese determinante para sua decisão de trabalhar com cinema, é um dos mais brilhantes painéis dos bastidores da indústria do cinema já realizados.

“Assim Estava Escrito” foi feito numa época em que Hollywood começa a se voltar para si mesmo. Dois anos antes do lançamento da obra de Minelli, o austríaco Billy Wilder havia lançado “Crepúsculo dos Deuses”, uma obra-prima que não media ironia ao retratar os astros do cinema como sujeitos alienados do mundo que os cerca. “Assim Estava Escrito” bebe na mesma veia, e tem inclusive uma estrutura narrativa parecida, pois é narrado em flashback, mas oferece um retrato menos implacável e mais complexo.

O segredo de Vincente Minelli foi transitar com naturalidade pelos dois pólos opostos do negócio de fazer filmes. “Assim Estava Escrito” vê os filmes como resultado de um caldeirão de detalhes contraditórios. A fauna humana que habita a Hollywood de “Assim Estava Escrito” possui criatividade, talento e senso de oportunidade, mas também investe em traições, inveja e falta de ética profissional. Minelli sabia disso, e também acreditava que Hollywood devia sua magia justamente a esse choque de egos. Por isso, fez uma obra que não exalta e nem destrói a indústria do cinema. Apenas mostra, deliciosamente, como ela funciona.

“Os melhores filmes são feitos por um produtor e um diretor que se odeiam”, diz o protagonista, o produtor Jonathan Shields (Kirk Douglas), a certo momento. Esta é a frase que resume “Assim Estava Escrito”. Como Martin Scorsese bem observou, no documentário “Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Norte-americano”, o próprio Minelli já havia chegado à conclusão de que o atrito criativo entre um bom produtor e um bom diretor podia ser benéfico a um filme.

O modo escolhido por Minelli para narrar a história de Jonathan Shields remete a “Cidadão Kane”. O filme é uma seqüência de três longos flashbacks, cada um narrado por um desafeto de Shields: a atriz Geórgia Lorrison (Lana Turner), o diretor Fred Amiel (Barry Sullivan) e o roteirista James Lee Bartlow (Dick Powell). Os três tiveram o privilégio e a desgraça de trabalhar com Shields, sujeito que fez fama, fortuna e alguns dos maiores filmes da história antes de afundar em dívidas. O assistente de Shields, Harry Pebbel (Walter Pidgeon), reuniu os três para tentar convencê-los a ajudar o produtor a se reerguer. Donos de carreiras de prestígio, os três podem ajudá-lo. Mas não querem. E tentam explicar isso ao assistente.

Todo o filme é marcado pela sensacional fotografia de Robert Surtees, que ganhou o Oscar pelo trabalho. Há uma brilhante tomada que mostra como os movimentos sutis de câmera são responsáveis pela estética elegante do trabalho. A certa altura, uma mulher está debruçada sobre o cadáver do marido. “Agora que estamos sozinhos, posso lhe falar algumas coisas confidenciais”, ela chora. A câmera se afasta um pouco, para revelar então uma fileira de rostos de assistentes, produtores e atores, que assistem à cena atrás da cadeira do diretor, observando tudo com olhar carrancudo. Sozinhos?

O mesmo sutil movimento de câmera transforma outro momento do filme; o que deveria ser um momento romântico vira pura comédia. É uma tomada em que Jonathan Shields caminha carregando uma mulher bêbada. Uma música romântica se ouve ao fundo. Ele pára, e a câmera se afasta, revelando uma piscina logo à frente. A música é interrompida, e o produtor joga a garota na piscina. É o tipo de tomada que deixaria Sergio Leone orgulhoso, pois mostra como ema ligeira mudança de enquadramento pode revelar ou ocultar elementos que transformam uma cena por inteiro.

O roteiro, de George Bradshaw e Charles Schnee, também é ótimo, dando atenção especial aos diálogos. A ironia final habitual dos melhores trabalhos noir, e que também está presente em “Crepúsculo dos Deuses”, aparece com força. Duas cenas antológicas (ambas comentadas por Scorsese no já citado documentário) ilustram bem como as conversas entre os personagens revelam a natureza ambígua e complexa dos bastidores de Hollywood.

A primeira é travada entre Shields e Amiel, quando ambos se preparam para filmar um longa-metragem de horror B e decidem não mostrar as criaturas monstruosas que, nos testes de figurino, haviam ficado ridículas (preste atenção, nessa cena, ao fantástico trabalho de iluminação). A outra flagra uma discussão entre Shields e o diretor Von Ellstein (Ivan Triesault) durante uma filmagem (“um filme feito só de clímax, Sr. Shields, é como um colar de pérolas sem cordão”). Para completar, o final do filme glorifica essa ironia fina com uma tomada sem diálogos que é puro deleite. “Assim Estava Escrito” é um exemplo de um diretor no auge do seu talento.

O DVD da Warner usa as duas faces do disco. A face A contém o filme com o corte original (fullscreen 4×3) e som Dolby Digital 1.0. A qualidade da imagem é espetacular, sem arranhões e com contrastes fortes e profundos. Já a face B é dedicada ao material extra. A peça principal é um documentário sobre a atriz Lana Turner (90 minutos). Há também um trailer e notas de produção (em texto).

– Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful, EUA, 1952)
Direção: Vincente Minelli
Elenco: Kirk Douglas, Lana Turner, Dick Powell, Barry Sullivan
Duração: 118 minutos

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