Atividade Paranormal 2

10/03/2011 | Categoria: Críticas

Seqüência do sucesso de 2009 basicamente repete o esquema narrativo do filme anterior, agora com mais câmeras

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Não foram poucas as pessoas que traçaram conexões entre o primeiro “Atividade Paranormal” (2009) e o fenômenio indie “A Bruxa de Blair” (1999) – eu mesmo fiz isso. Afinal de contas, as semelhanças iam além do orçamento amador e do fenômeno de popularidade alavancado pela Internet, chegando mesmo à utilização do princípio da câmera diegética (todas as imagens são captadas por equipamentos que existem dentro do mundo ficcional, manuseados pelos personagens). Pois bem: “Atividade Paranormal 2” (Paranormal Activity 2, EUA, 2010) também encaixa bastante bem em “A Bruxa de Blair 2”. Ambos deixam a criatividade de lado e se limitam a copiar clichês do gênero, tendo sido realizados com o objetivo único e explícito de faturar uma grana extra.

Embora se limite a repetir o esquema narrativo do antecessor, só que com mais câmeras filmando tudo simultaneamente, “Atividade Paranormal 2” ainda se coloca um grau acima nessa comparação, pois pelo menos consegue pregar alguns sustos da platéia (embora virtualmente todos os momentos de tensão sejam meras cópias xerox das melhores cenas do primeiro filme, o que dilui demais o possível impacto desses sustos). A boa recepção do público, que deixou US$ 41 milhões nas bilheterias nos primeiros três dias de exibição, apenas nos Estados Unidos, deve garantir que a franquia continue indo de vento em popa. Dessa vez será até fácil cumprir essa meta, já que a semente do terceiro capítulo do enredo está plantada no final da segunda parte.

Uma das poucas diferenças entre o primeiro e o segundo títulos está no orçamento disponível. Se “Atividade Paranormal” foi feito com apenas US$ 15 mil, o filme seguinte consumiu US$ 3 milhões, ou duzentas vezes o valor do longa-metragem anterior – e ainda assim uma quantia ridícula para os padrões dos grandes estúdios de Hollywood. Já a trama é basicamente a mesma: casal de classe média (Sprague Grayden e Brian Boland) encontra a casa revirada e decide instalar câmeras de segurança para monitorar possíveis invasões de vândalos, mas acaba descobrindo que entidades sobrenaturais são responsáveis pelo que ocorre longe dos olhos das pessoas.

O orçamento mais generoso pode ser observado já a partir da própria idéia da câmera diegética. No primeiro filme, toda a ação era captada por um único equipamento, operado pelo marido (Micah Sloat); aqui, são seis câmeras de segurança equipadas com sensores infra-vermelhos e mais uma câmera digital semi-amadora que a filha mais velha (Molly Ephraim) opera algumas vezes. Essa sofisticação extra, contudo, faz mal ao filme: o diretor Tod Williams perde o som (câmeras de segurança não gravam áudio) para sinalizar a presença da entidade sobrenatural, como era feito com um zumbido inteligente na obra anterior; e o ponto de vista narrativo fica forçado e artifical, pois o espectador é o tempo inteiro confrontado com uma instância invisível de narração que seleciona, edita e organiza as imagens que vemos, embora não exista dentro da diegese (como a câmera).

Dessa maneira, o espectador é indiretamente lembrado de que tudo não passa de ficção. Vale lembrar que em “Atividade Paranormal” era Micah quem revia as fitas, todas as noites, para inspecionar o que havia se passado dentro da casa. Aliás, nesse ponto “Atividade Paranormal 2” revela um roteiro frágil e descuidado, já que aqui o dono da casa passa boa parte do filme exercitando a incredulidade quanto ao sobrenatural, sem jamais se dar ao trabalho de conferir as imagens gravadas para descobrir como ocorreram certos acontecimentos estranhos. Isso soa até embaraçoso, já que ninguém em sã consciência gastaria uma grana preta instalando um sistema de segurança desses para em seguida esquecê-lo.

O único aspecto positivo do roteiro, escrito por Michael Perry, é a reaparição do casal protagonista do primeiro filme, agora como coadjuvante. Na realidade, como os eventos narrados se passam de um a dois meses antes da história que vimos em “Atividade Paranormal”, o filme na verdade tenta retomar de outro ângulo vários dos fatos que haviam ficado inexplicados na narrativa do filme anterior. Embora seja perfeitamente possível considerar este um procedimento que dilui e enfraquece a história original – explicar assombrações em detalhes nem sempre é boa idéia, em filmes de horror –, o estratagema dá certo, e os dois enredos convergem com lógica e coerência para um mesmo ponto. Pena que isso não melhore em nada a qualidade de “Atividade Paranormal 2”.

– Atividade Paranormal 2 (Paranormal Activity 2, EUA, 2010)
Direção: Tod Williams
Elenco: Sprague Grayden, Brian Boland, Molly Ephraim, Katie Featherston
Duração: 91 minutos

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