Atividade Paranormal

11/03/2010 | Categoria: DVD

Filme amador realizado por US$ 15 mil aferra-se ao princípio da câmera diegética para criar tensão inesgotável, pregar grandes sustos e repetir o fenômeno de popularidade de “A Bruxa de Blair”

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Cinéfilos em geral simplesmente amam a idéia de um filme amador, realizado por uma equipe criativa sem a mínima experiência, ter a capacidade de seduzir a imaginação de milhões de pessoas. Há um elemento romântico de rebelião e irreverência nessa idéia. Talvez seja por isso que o fenômeno “A Bruxa de Blair” (1999) tenha deixado uma grande comunidade transnacional de órfãos que esperou, com grande ansiedade, a aparição de um fenômeno idêntico. Pois bem, o dia chegou: as semelhanças entre “Atividade Paranormal” (Paranormal Activity, EUA, 2007) não estão apenas na estética amadora, mas também na importância do boca-a-boca gerado através da Internet para o sucesso comercial da produção caseira que virou um mega-hit.

Primeiro a má notícia: originalidade não é exatamente o forte do primeiro filme do cineasta iniciante Oren Peli. “Atividade Paranormal” cruza uma sinopse claramente inspirada na produção de 1979 “Terror em Amityville” (jovem casal que acaba se de mudar para uma nova casa é perturbado por aparições sobrenaturais) com o princípio da câmera diegética de “A Bruxa de Blair” (ou seja, todas as imagens presentes no filme são registradas por uma câmera amadora de vídeo que é manuseada por um dos personagens da história).

Agora a boa: todos sabemos que a originalidade não é e nem nunca foi pré-requisito obrigatório para uma boa experiência cinematográfica. E, neste caso, temos mais uma prova disso. A simplicidade da narrativa, que desenvolve a história sem pressa – espectadores acostumados com a velocidade supersônica dos enredos de ação da Hollywood do século XXI deverão achar o filme lento, especialmente na primeira metade – mas com grau sempre crescente de tensão, garante que os momentos realmente assustadores, que são poucos e bem inseridos na trama, realmente dêem ao espectador o que se espera de um bom filme de horror: atmosfera sinistra implacável, alguns sustos de parar o coração e um clímax perfeitamente forte e dramaticamente adequado.

Além disso, fica claro o quanto o princípio da câmera diegética funciona bem em filmes do gênero fantástico. Histórias de fantasmas (como o próprio “A Bruxa de Blair” já prenunciava) ganham muito quando são filmadas em tom naturalista, com textura caseira, porque reforçam a ilusão de que poderia estar acontecendo agora mesmo, na casa ao lado. Desta forma, quando o jovem casal Katie (Katie Featherson) e Micah (Micah Sloat) começa a ser confrontado com as imagens perturbadoras que a câmera do casal registra de madrugada, o espectador não consegue conter um arrepio na espinha.

A textura amadora das imagens, ao contrário de prejudicar a experiência por suas limitações técnicas – som pobre, registros visuais sem senso de profundidade, cores desbotadas, etc. –, reforça a noção de se estar assistindo a uma experiência do mundo real, e não a uma encenação artificial recriada a partir de efeitos computadorizados. Não importa que os atores sejam tecnicamente limitados, ou que haja cenas inteiras praticamente decalcadas de filmes anteriores (as duas visitas à residência do especialista em fenômenos paranormais reencenam momentos idênticos do já mencionado “Terror em Amityville”, com a única diferença que se passam com um padre). “Atividade Paranormal” se aferra ao princípio do registro amador de um acontecimento extraordinário, desenvolve a tensão até um nível insuportável e providencia um final devidamente assustador. Pronto, o estrago está feito.

Talvez mais interessante do que o filme em si seja a novela de bastidores que atrasou seu lançamento comercial em dois anos, contribuindo involuntariamente para que o filme se tornasse um fenômeno de bilheteria. Embora tenha sido filmado e montado no início de 2007, a um custo de apenas US$ 15 mil (cada ator recebeu apenas US$ 500, a locação é a casa real do diretor), o longa-metragem percorreu um longo caminho antes de ser exibido no circuito comercial. Oren Peli inicialmente mostrou-o em festivais especializados em horror, mas não conseguiu inscrevê-lo em Sundance (o mais famoso evento independente dos EUA), onde foi recusado por ser, supostamente, um trabalho amador.

Desta forma, “Atividade Paranormal” começou a ser distribuído em DVDs, principalmente para pessoas que trabalhavam na indústria cinematográfica. Em 2008, o filme chegou às mãos de executivos da DreamWorks, que o enviaram para Steven Spielberg, cujo aval levou o estúdio a pagar US$ 300 mil pelos direitos autorais da obra. Spielberg também convenceu os executivos do estúdio a trocar a idéia de fazer uma refilmagem (a partir do mesmo roteiro e com equipamento profissional, a ser dirigida pelo mesmo diretor) pelo lançamento do filme original, só que com um final diferente. Na mesma época, porém, a DreamWorks foi comprada pela Paramount e o lançamento acabou adiado.

Aí é que entra o papel da Internet na publicidade do filme. Durante os anos de 2008 e 2009, rumores a respeito do filme percorreram sites e comunidades de cinéfilos, criando uma expectativa pelo lançamento que foi crescendo exponencialmente. Só então a Paramount decidiu adotar uma política de lançamento gradual, expandindo aos poucos o circuito exibidor entre os meses de setembro e novembro. Essa política acabou favorecendo o boca-a-boca (ou melhor, o PC-a-PC) e o filme acabou por se transformar num fenômeno, ultrapassando a barreira dos US$ 100 milhões arrecadados. Conto de fadas macabro, portanto.

O DVD da Playarte é simples e traz apenas o filme, com imagem OK (widescreen anamórfica) e áudio apenas razoável (Dolby Digital 2.0).

- Atividade Paranormal (Paranormal Activity, EUA, 2007)
Direção: Oren Peli
Elenco: Kate Featherston, Micah Sloat, Mark Fredrichs
Duração: 86 minutos

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14 comentários
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  1. Opa, Rodrigo, beleza?

    Comentei poucas vezes por aqui, mas sou frequentador assíduo do site, inclusive já tendo comprado filmes sem nem te-los visto por ver nas suas opiniões quase xérox das minhas… ;)

    Enfim, sobre esse tipo de filme, acho q não devemos nos esquecer de REC, por que não, Cloverfield e, agora, mais recentemente, um filme q assisti na sexta numa mostra de cinema fantástico aqui em São Paulo chamado COLIN.

    Assistiu?

    Tá sabendo dele? Mostra oficial de Cannes…

    Achei bem interessante o filme….mas é o tipo de filme q não é mole não ser analisado numa única assistida. Achei bem mais qualidades do q defeitos no filme. É praticamente um filme de DRAMA, oq, por ser o protagonista um morto-vivo, já é algo curioso. O legal é q, ao final da sessão, o diretor do filme (vendido como o filme feito com orçamento de 45 libras) estava na sala para um bate-papo com a platéia. Ficou claro q o cara manja de cinema e q é fã dos Mortos-vivos do Romero.

    Enfim, vale a pena. Achei uma experiência única ver o filme….em contra-partida, um q parte da câmera diegética mas q é uma verdadeira BOMBA (no mal sentido) é um tal de Evil Things. Meu Deus…dai-me paciência..eheeheh

    Perdão pelo quase “off-topic”, mas realmente tenho muita curiosidade sobre sua visão do Colin.

    Abraço!

  2. Já ouvi falar do filme, Aldo, mas não o vi porque não foi exibido ainda no Recife. Com certeza escreverei sobre ele quando o ver. Abraços!

  3. Pô muito Loko essa Treta gente Adorei esse filme, o melhor amador que já vi (!)

  4. Rodrigo, eu não gostei desse filme! Acho que ele falha em criar esse clima de medo, suspense e angústia. Dá para a gente se preparar para o que está por vir, porque o filme é bem previsível nesse sentido, quando deixa a câmera estática, praticamente nos prevenindo de que algo vai ocorrer. A única parte que me surpreendeu mesmo foi o final!

  5. Kamila, se você olhar lá no meu Twitter verá comentários de amigos que curtiram o filme, mas não gostaram justamente do final! A lição que essas divergências nos deixa é que, no que se refere a filmes de gênero, as expectativas para o reconhecimento de determinados códigos de gênero sempre guiam nossa percepção do filme. Poderia te dizer que nos filmes desse tipo você SEMPRE está esperando que “algo vá ocorrer”. Neste caso, como em “Blair”, a gente deduz os momentos em que isso vai ocorrer por causa da encenação (a madrugada, né?). A chave da coisa toda é a velha e sempre útil diferença entre suspense e horror, cortesia de Hitchcock. No suspense a gente sabe o que vai ocorrer (sabemos mais do que os personagens) e ficamos torcendo secretamente para que não aconteça. No horror, a gente não sabe (sabemos o mesmo que os personagens) e tomamos mais sustos – mas a tensão é infinitamente menor. Você pode se identificar mais com um aspecto ou outro; O cineasta escolhe como encenar. você escolhe o que te fala mais ao coração.

  6. Bela resposta, Rodrigo. Acho que eu prefiro os filmes de suspense. Gosto de saber onde estou me metendo, o que vai acontecer. Mas, ao mesmo tempo, também gosto de ser surpreendida. E este filme me falhou nestes dois aspectos.

  7. Qual o outro final?
    rs

  8. Eu concordo com Kamila em tudo, principalmente que você deu uma bela resposta, definindo bem a diferença entre suspense e horror. Fui ver o filme na expectativa de medo, suspense e angustia, o que não aconteceu.
    Se o filme foi “inspirado” em Terror em Amityville, usando princípios de A bruxa de Blair e o final foi sugerido por Spilberg (li isto por aí) não sobrou nada para o diretor…

  9. Uma resposta a essa questão, Mabel, renderia um tratado. Resumidamente, claro que você está enganada. O grosso do trabalho do diretor não está nos aspectos mais gerais do filme, e sim nos pequenos detalhes. Coisas como a progressão dramática, o ritmo, as escolhas de encenação, o uso do som, a inserção de determinados detalhes de caracterização de personagem, etc. Nesses aspectos menores, acho que o diretor foi muito bem (especialmente considerando o dinheiro). Sinceramente, eu interpreto essas críticas como uma dificuldade que parte do público tem de colocar um distanciamento crítico em relação ao que se vê nos filmes de horror tradicionais. Estou cansado de ler críticas elogiosas sobre filmes cujo medo/tensão é todo construído em cima de clichês grosseiros (vultos passando na frente da câmera, ruídos cujo volume aumenta abruptamente, música em crescendo, etc.). Já um filme como esse, cuja encenação é mais discreta e delicada (e original), as pessoas acham lento, chato, etc. O que fazer, né? Só posso lamentar.

  10. o filme é bom, contudo pelo orçamento, enquadro em ótimo!
    é impressionante a quantidade de filme com orçamento muito superior que se vê por aí que não envolve o espectador como esse!

    que venham mais filmes de 15 mil dolares.

  11. Primeiro quero dizer que a muito tempo não sentia uma tensão e um medo tão
    grande em um filme gostei pela maneira simples o filme me transmitiu realismo
    sinceramente muito melhor que A Bluxa de Blair , os atores foram excelentes, já
    estava cansada de ver aqueles fimes nojentos de terror onde só tem sangue para
    todo lado rostos deformados o diretor esta de parabens e os atores tambem.
    Adorei o filme definitivamente faz a gente gritar de pavor ….

  12. Gosteii Muiito Do Filme Mesmoo Só Não Gostei Do Final E Queria Saber Se é Real!!

    Ou Ficção??

  13. assista ao trailler e terá visto o filme

    a idéia é mto boa e realmente te envolve e tem duas cenas muito boas….
    mas esse eh o problema, só tem duas cenas
    e o filme demora muito para engrenar, fica mto tempo num lenga lenga bem monótono
    bruxa de blair segue imbatível

    parabens pelo site

  14. vendo os comentarios… sinto medo só de ver o filme. o trailer do filme, e pelo que tenho pesquisado a real intençao do filme, (além de nao te-lo visto) é a seguinte: o objetivo do filme é deixar o espectadores assustados,tensos com reaçoes de panico mesmos, contendo algns sustos de arrepiar o corpo todo, dentro e fora !! estou louco para assisti-lo. sem falar que quando assisti ao filme REC fexei os olhos o filme todo naum consegui durmir durante alguns dias !. é como eu disse esse filme ATIVIDADE PARANORMAL é totalmente pareçido com o filme REC onde os filmes (ambos) sao caseiros (pareçem real) , mais as história ja muda completamente !! nao tem a ver com atividades paranormais, mais sim a ver com os residentes que moravam no edifício !!!
    entao ja esta dada a minha opiniao !!
    espero anciosamente a chegada de ATIVIDADE PARANORMAL aqui, em sp !!

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