Auschwitz – Os Nazistas e a Solução Final

28/02/2007 | Categoria: Críticas

Pesquisa histórica impecável e rigor no trato com a informação são qualidades do documentário em seis partes da BBC

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O nome de Auschwitz dispensa apresentações. Localizado no sul da Polônia, o campo de concentração nazista ganhou infame notoriedade internacional após a descoberta de que aproximadamente 1,3 milhão de pessoas – a maioria judeus húngaros – foram assassinados na região, durante a II Guerra Mundial. Mais do que o número inaceitável de crimes de guerra lá cometidos, contudo, a horrível fama do lugar se deve ao fato de que foi um dos poucos campos de concentração deixados intactos pelos nazistas. Os criminosos não tiveram tempo de destruir as evidências do massacre e escondê-las das tropas soviéticas, que invadiram a região em janeiro de 1945.

O documentário em seis partes “Auschwitz – Os Nazistas e a Solução Final” (Inglaterra, 2005) dá a impressão, pelo título, de que vai se dedicar a narrar o cotidiano de sofrimento daqueles que passaram pelo complexo da morte. Mas o programa, roteirizado e dirigido pelo pesquisador Lawrence Rees, a serviço da BBC britânica, vai além disso. Reconstitui, através de pesquisas rigorosas, toda a trajetória dos crimes de guerra perpetrados pelos alemães. O maior mérito do ótimo documentário é lançar luz sobre a tortuosa evolução do conceito de “Solução Final” – o extermínio total do povo judeu – entre os nazistas, a partir da invasão da Polônia em 1939.

Os seis episódios da série são narradas de forma cronológica, em linguagem didática, com o uso de recursos modernos de computação gráfica para reconstruir, a partir das plantas originais, os barracões de prisioneiros e as macabras câmaras de gás, onde os prisioneiros eram mortos por asfixia. A narração objetiva, quase jornalística, conduz o espectador para dentro do Estado nazista, tornando-o testemunha de reuniões secretas (através da discutível técnica de reconstituição dos eventos, usando atores fantasiados), apresentando-o a documentos sigilosos e fazendo-o ouvir mais de 100 depoimentos de sobreviventes dos campos de concentração e ex-recrutas da SS, a Polícia especial nazista, responsável pela política de extermínio e assassinato em massa.

Produzida com extremo rigor no trato com a informação, a série se destaca não apenas por proporcionar ao espectador acesso a dados raros ou inéditos, mas também por oferecer um retrato implacável do furacão nazista que varreu a Europa. Os produtores do programa encontraram personagens maravilhosos (o prisioneiro que fugiu de Auschwitz vestido como soldado da SS, a mulher que foi cobaia das experiências cruéis do médico Joseph Mengele junto com a irmã gêmea) e contaram a história dos crimes nazistas com riqueza de detalhes. Há raras e impressionantes imagens de filmes de época, alguns deles mostrando execuções de mulheres e crianças, ou pilhas de cadáveres maltrapilhos espalhados pelos campos de concentração.

Além disso, Rees tem a coragem de jamais poupar os entrevistados de perguntas embaraçosas. Os ex-soldados da SS entrevistados para o programa, por exemplo, são confrontados o tempo todo com os crimes perpetrados no passado. O documentário também recusa o maniqueísmo, mostrando que nem todos os soldados alemães eram cruéis (uma das histórias mais tocantes narradas pelos sobreviventes do holocausto é sobre um comandante nazista na Polônia que fez o possível para salvar judeus), e explicando abertamente que o horror não terminou com a chegada dos soviéticos às regiões ocupadas, já que os russos logo se especializaram na nada recomendável prática do estupro em massa das mulheres judias.

No mar de documentários, livros e romances que jogam luz sobre detalhes obscuros da II Guerra Mundial, “Auschwitz” merece destaque especial por causa da visão austera e imparcial do conflito. Pode-se discordar de certas escolhas estéticas, como a música por vezes melodramática ou as exageradas reconstituições filmadas com atores, uma mania da BBC que dilui um pouco a crueza e o impacto emocional das imagens verdadeiras de dor e morte vindas dos campos de concentração. Mas é impossível negar a qualidade impecável da pesquisa histórica que resultou no documentário, e que faz da série um dos documentos mais impressionantes sobre o período mais sangrento do século XX.

O pacote completo da BBC não foi lançado no Brasil em DVD, embora tenha sido exibido pela TV Cultura, em janeiro de 2006. A caixa é ótima: imagens cristalinas (widescreen 1.78:1 anamórficas), áudio perfeito (Dolby Digital 2.0) e, como extras, seis debates entre especialistas, cada um comentando um episódio da série, além de uma entrevista com o diretor Lawrence Rees.

– Auschwitz – Os Nazistas e a Solução Final (Inglaterra, 2005)
Direção: Lawrence Rees
Documentário em seis partes
Duração: 47 minutos por episódio (seis partes)

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