Austrália

09/04/2009 | Categoria: Críticas

Baz Luhrmann deita sobre cama de clichês, mistura “Rio Vermelho” com “E o Vento Levou” e pare um épico vazio e acomodado.

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Não é uma questão de talento, mas de escala. Alguns diretores nasceram para fazer filmes pequenos, baratos e intimistas; outros só conseguem conceber trabalhos cheios de pompa e circunstância, épicos maiores que a vida. O australiano Baz Luhrmann pertence ao segundo time, um time que conta com autores do naipe de D.W. Griffith, Cecil B. DeMille e David Lean. Desdenhar do romantismo deslavadamente brega e dos inúmeros momentos constrangedores que lotam o quarto longa-metragem assinado por ele, “Austrália” (EUA/Austrália, 2008), é fácil. Mas o que esperar do homem que revestiu de linguagem pop a trama secular de “Romeu e Julieta” (inclusive substituindo o “e” pelo sinal gráfico “+”, como faz a juventude dos tempos do Orkut) e redesenhou o musical para o século XXI, através de colagens sonoras e visuais hipercoloridas, em “Moulin Rouge”?

Lançado exatos sete anos após este último longa-metragem, “Austrália” lembra um cruzamento de “Rio Vermelho” (1948, de Howard Hawks) com “E o Vento Levou” (1939, de Victor Fleming), vitaminado por um perigoso flerte com “Pearl Harbor” (2001, de Michael Bay) e inchado com citações pueris a “O Mágico de Oz” (1939, também de Fleming). OK, detratores podem argumentar que citar o nome de Bay na mesma sentença do mestre Hawks significa cometer sacrilégio contra os deuses da sétima arte, mas o cinema de Baz Luhrmann sempre foi assim. Um cinema impuro, despreocupado de visões pré-concebidas sobre cultura alta/baixa. O mesmo cineasta, não esqueçamos, já misturava David Bowie com Whitney Huston em “Moulin Rouge”. Luhrmann faz cinema popular, cinema para as massas. Expressões como sobriedade, discrição ou mesmo verniz intelectual não constam de seu vocabulário. Um caso clássico de ame-o ou deixe-o.

Dito isso, faz-se necessário ressaltar que “Austrália” está a milhas de distância da criatividade vulcânica (goste-se do estilo ou não) que Luhrmann exibia em trabalhos anteriores. É um filme inteiramente construído sobre uma cama de clichês, tanto narrativos (enredo e personagens) quanto estéticos (cenografia, fotografia, sons). O próprio título do filme já deixa antever a arrogância de um criador que se propõe realizar uma tarefa tão impossível quanto reconstituir, em uma trama simples, toda a complexidade e sutileza do espírito cultural de uma nação. Luhrmann usa, para isso, uma moldura narrativa que remota à Hollywood clássica: uma história de amor impossível, tendo como pano de fundo um evento histórico importante. Boa parte do sucesso de “Titanic” (1997), apenas para citar um exemplo famoso, se deve à utilização dessa fórmula. Para capturar a imaginação das platéias, porém, é preciso mais do que efeitos especiais de ponta, belas paisagens ou beijos apaixonados debaixo de chuva. É preciso um elemento imponderável, um “algo mais” que “Austrália” não parece ter.

O paralelo com “E o Vento Levou”, que não passou despercebido a dezenas de críticos, é bastante óbvio. São muitos os pontos em comum. Vejamos: “Austrália” adota o ponto de vista de uma mulher bonita, à frente de seu tempo, que não leva desaforo para casa; narra um romance em que os dois pombinhos, oriundos de classes sociais diferentes, começam à turras e vão se apaixonando aos poucos; conta essa história com a ajuda de um pano de fundo histórico (aqui, bombardeios japoneses ao país continental durante a II Guerra); propõe este mesmo evento histórico como elemento fundamental do rito de passagem do país, de uma pré-história racista para a contemporaneidade; situa o lar dos personagens em uma fazenda abandonada numa região inóspita; e abusa do luxo – figurinos estonteantes, fotografia repleta de tomadas aéreas do pôr-de-sol – para construir visualmente o enredo.

Do ponto de vista da trama, por outro lado, o filme inspirador é claramente o faroeste épico de Howard Hawks. Os personagens do trabalho de Baz Luhrmann passam a maior parte do tempo às voltas com a mesma jornada desafiadora que John Wayne e Montgomery Clift tinham que cumprir em “Rio Vermelho”: transportar uma manada de 1.500 cabeças de gado, através do sol abrasador do deserto, até uma cidade a centenas de milhas de distância, para então vendê-la e impedir a falência da fazenda. Se um trabalho desses já era complicado para o maior caubói do século XX, que dirá para Sarah (Nicole Kidman), uma fina aristocrata inglesa? Para piorar, ela conta apenas com a ajuda de um punhado de aborígenes inexperientes e de um vaqueiro bronco com físico de halterofilista e coração de manteiga (Hugh Jackman), com quem não consegue trocar duas palavras sem discutir.

Nesta salada narrativa promovida pelo diretor australiano, que inclui um dramalhão desnecessário no terceiro ato (sem qualquer relação com os outros dois), tão bombástico quanto o “Pearl Harbor” de Michael Bay, a história é contada por uma criança órfã e mestiça (Brandon Walters). Esse postulado é seguidamente trapaceado pelos próprios roteiristas, que deixam de lado o ponto de vista sempre que lhes é conveniente, criando inúmeras cenas em que o casal protagonista aparece sem a presença do menino. Sem se importar com esse tipo de purismo, Luhrmann também não tem medo de criar personagens unidimensionais e simplistas, como o vilão Fletcher (David Wenhan), um vaqueiro corrupto que é mau simplesmente por ser mau, sem qualquer razão prática. Não ajuda muito o fato de que Sarah e o Capataz (Jackman) sejam pessoas igualmente anódinas, só que do outro lado do espectro humano: boazinhas e insossas. Preto e branco, sem nuances de cinza.

Essa foi uma armadilha que o produtor David O. Selznick soube sabiamente evitar em “E o Vento Levou”, criando um romance improvável entre dois personagens muito mais interessantes – uma lady orgulhosa e arrogante, e um mercenário com uma ponta de vulgaridade tipicamente masculina. Luhrmann tenta compensar a insipidez dos seus personagens compondo uma quantidade anormalmente generosa de tomadas aéreas e com movimentos de câmera impossíveis. Os efeitos digitais, tão bem utilizados em “Moulin Rouge”, aqui parecem estranhamente sem vida, tão sem textura quanto o rosto sem rugas de Nicole Kidman (o par dela, Hugh Jackman, parece pouco à vontade nas cenas mais apelativas, como uma que o mostra tomando banho sem camisa e com calça, no meio de um acampamento, em momento inacreditavelmente kitsch, daqueles que faz metade do cinema soltar risinhos de constrangimento).

A seqüência do estouro da boiada, supostamente uma das mais emocionantes do filme, exemplifica todos esses defeitos. Acompanhados por uma trilha sonora irritante e óbvia, os bois digitais deixam a cena sem sal, sem gosto, por mais que Lurhmann tente escamotear o problema recorrendo à edição frenética e, nos momentos mais importantes, a imensos close ups de rostos com lágrimas rolando em câmera lenta. Não custa lembrar quão irreal seria esperar, do diretor de “Moulin Rouge”, um filme menos grandiloqüente, menos exagerado, menos kitsch. Nas experiências anteriores, porém, pelo menos havia uma energia criativa palpável que tornava o todo selvagem e intenso, como no caso do musical de 2001. “Austrália”, infelizmente, não tem nada disso. É apenas mais um épico vazio e acomodado.

O DVD da Fox preserva o formato original da imagem (widescreen anamórfico) e o áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Austrália (EUA/Austrália, 2008)
Direção: Baz Luhrmann
Elenco: Hugh Jackman, Nicole Kidman, Brandon Walters, David Wenham
Duração: 165 minutos

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