Auto da Compadecida

01/10/2003 | Categoria: Críticas

Sucesso na TV e no cinema, filme de Guel Arraes vai marcar a produção nacional dos anos 1990 pela qualidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Deve haver poucos brasileiros que, nos últimos anos, não tenham ouvido falar em “O Auto da Compadecida”. Claro que a peça mais famosa de Ariano Suassuna já garantiu lugar no inconsciente coletivo nacional, mas a minissérie exibida pela Globo em 1999 tratou de dar rostos definitivos aos impagáveis João Grilo e Chicó.

A adaptação do pernambucano Guel Arraes dispensa elogios, de tanto que já foi falada. Arrancou elogios unânimes da crítica nacional, arrebatou prêmios internacionais, teve uma audiência estrondosa na TV e ainda ganhou uma reedição mais ágil para o cinema, onde fechou o ano passado como a produção nacional mais vista desde 1995, com 2,2 milhões de espectadores. Sucesso absoluto.

O lançamento do filme em DVD, portanto, vem encerrar um ciclo iniciado na década de 70, quando Guel Arraes começou a estudar cinema – já que, desde então, ele acalentava o sonho de adaptar o “Auto”. O DVD é o primeiro disco duplo produzido no Brasil e fecha com chave de ouro o caminho percorrido pela produção de Guel. A Columbia Home Video caprichou e produziu um DVD que, se não atinge a perfeição, pode reivindicar lugar de honra entre os raros lançamentos nacionais no formato digital.

O mérito da Columbia começa já na caprichada embalagem: a distribuidora fez uma luva de papel duro e embalou duas capas plásticas, em tons diferentes de sépia para diferenciar os dois discos. Depois, criou um menu animado (OK, nada fantástico como os de “O Segredo do Abismo”, mas mesmo assim bom), simples mas bem eficiente, que apresenta situações e personagens da minissérie.

No disco um, há os tradicionais trailers de cinema, notas de produção e informações sobre o elenco. E os 104 minutos da edição que foi aos cinemas nacionais, tudo com legendas em inglês. Uma bobeada menor é a inclusão de um único canal de áudio em formato Dolby Digital 2.0, que não aproveita os seis canais disponíveis no DVD.

O disco ainda tem um making of editado em estilo tradicional, com 17 minutos e entrevistas com Guel Arraes, com quase todos os atores e até trechos do autor, Ariano Suassuna, fazendo elogios à adaptação. Para quem gosta de saber detalhes sobre a escolha das locações, o trabalho com os figurinos e métodos de ensaio utilizados pelo diretor, além de curtir histórias engraçadas que rolaram nos bastidores das filmagens, em Cabaceiras (BA), vale a pena.É curto, mas é OK.

No disco dois vem a cereja do bolo: os 157 minutos da minissérie completa, sem os cortes feitos pelo diretor para formatar o filme nas telonas. Embora o longa-metragem seja ágil e muito engraçado, a minissérie completa ganha disparado, já que dá para curtir de novo, finalmente, histórias hilariantes que acabaram no chão da sala de edição, como a primeira morte de João Grilo (Matheus Nachtergaele, em interpretação magistral) e o conto do gato que descomia dinheiro.

Quando ao “Auto”, não há muito o que elogiar. O texto não é 100% fiel ao original de Suassuna, mas os acréscimos feitos por Guel são originais (a personagem Rosinha, feita por Virgínia Cavendish, veio de outra obra de Ariano, para dar o toque de romance necessário a qualquer superprodução). Além disso, o texto é uma sucessão veloz de piadas engraçadíssimas, o que transforma o longa numa das comédias mais engraçadas dos últimos tempos. Para ver mais de uma vez e guardar em casa com orgulho.

– O Auto da Compadecida (Brasil, 2000)
Direção: Guel Arraes
Elenco: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro
Duração: 104 e 157 minutos

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