Avatar

17/11/2010 | Categoria: Críticas

James Cameron realiza releitura de “Dança com Lobos”, ambientada no espaço sideral e recheada com preocupações ecológicas, mitologia cristã e CGI de primeira

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

No começo de 1998, ao receber o Oscar de melhor filme por “Titanic” (1997), o diretor e roteirista James Cameron protagonizou uma cena curiosa, que repercutiu um bocado nos meses que se seguiram. Ele comemorou o décimo-primeiro troféu daquela noite parafraseando o protagonista de seu filme e gritando a frase “eu sou o rei do mundo” para um bilhão de espectadores. A brincadeira soou como ataque de megalomania para muita gente – e essas pessoas não estavam totalmente erradas. Cameron é mesmo um membro do clube de diretores determinados a realizar feitos que gente normal consideraria impossíveis. Para um sujeito assim, depois de “Titanic” só havia mesmo uma coisa a ser feita: brincar de Deus e construir o seu próprio universo. Doze anos e US$ 300 milhões de dólares depois, “Avatar” (EUA, 2009) cumpre esse destino.

Desde que o cineasta – uma das pessoas mais poderosas de Hollywood – começou a pré-produção, em 2005, após esperar dez anos para que a tecnologia avançasse a um nível que tornasse a transposição da história para as telas possível, o filme passou a ser saudado pela indústria cinematográfica como a obra que colocaria o cinema, tão fustigado pela evasão em massa do público, em um renovado patamar de interesse. Afinal, a luta travada nos bastidores foi quase tão dura quanto as batalhas épicas que se vê na tela, entre os invasores humanos e o povo nativo do planeta Pandora. A equipe de Cameron teve que criar novos softwares para dar conta da completa criação digital de um mundo (incluindo mamíferos, plantas, árvores, insetos, aves, etc.) e inventar uma câmera 3D que fosse leve o bastante para ser operada manualmente. Os desafios técnicos foram todos vencidos, e obviamente aquilo que se vê na tela é um universo mitológico fotorrealista ao extremo.

Já em termos de enredo, “Avatar” é uma história de amor clássica (um tanto quanto açucarada, aliás), vitaminada por uma preocupação ecológica (algo rasteira) e sedimentada sobre uma releitura em CGI da mitologia cristã para adolescentes. Já foi dito antes que “Avatar” seria nada mais do que uma versão de “Dança com Lobos” (1990) ambientada no espaço sideral; eu não poderia criar um aforismo mais perfeito do que esse. A frase resume perfeitamente o que é o longa-metragem. Adicione a essa receita ecos de “O Senhor dos Anéis” (criaturas em CGI, câmera que emula o vôo de um falcão em cenas de batalha), “Matrix” (mitologia cristã sobre o salvador, cerimônias coletivas que parecem um culto afro-brasileiro), “Tarzã” (atores correndo nos galhos de árvores gigantes) e mais um punhado de obras de ficção científica, e você terá uma boa idéia de “Avatar”.

Os paralelos traçados em relação a “Dança com Lobos”, porém, são inúmeros. O protagonista é um militar ferido e desencantado com o mundo que redescobre a alegria de viver ao tomar contato com um povo nativo cuja filosofia é de comunhão total com a natureza (saem os índios, entram os Na’vi, seres azuis com quatro metros de altura e que se conectam – literalmente – com animais de todas as espécies, atando os rabos como fios elétricos). Ele se enturma com os nativos, aprende aos poucos a apreciar os costumes deles, e acaba se voltando contra sua própria raça durante uma batalha de proporções épicas. Cameron se certificou de incluir uma boa dose de preocupações ambientalistas (um tanto rasteiras, aliás), para dotar o filme de um teor de atualidade e fazê-lo politicamente relevante.

O maior ângulo de interesse em “Avatar” surge quando o filme é analisado do ponto de vista das convenções de gênero da ficção científica: trata-se do primeiro longa-metragem a inverter os tradicionais papéis de seres humanos e alienígenas. Até então, virtualmente todos os filmes feitos com extraterrestres mostravam essas criaturas como invasores (hostis ou amigáveis, mas sempre invasores). Desta vez, são os humanos que representam o papel coletivo de vilão: é a nossa raça que invade o mundo puro e ingênuo dos Na’vi, com a finalidade de extrair um minério valioso que pode possibilitar a sobrevivência da Terra, cujos recursos naturais foram esgotados em 2154, ano em que a ação dramática é ambientada.

Essa atitude arrogante e destrutiva é encapsulada pelo coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), chefe de segurança da colônia humana no planeta Pandora, que respira, come e dorme a idéia fixa de destruir os alienígenas de uma vez por todas. Ele se tornará progressivamente o grande opositor de Jake Sully (Sam Worthington), o herói do filme. Jake é um ex-fuzileiro naval paralítico, contratado para participar de um projeto secreto que objetiva conhecer melhor a raça extraterrena. Esse projeto visa transferir a consciência de seres humanos para corpos com aparência Na’vi e DNA híbrido, capazes de travar contato com os Na’vi. É com esse novo corpo, com o qual consegue voltar a andar, que Jake se infiltrará entre os alienígenas como espião – e, aos poucos, aprenderá com a princesa Neyriti (Zoë Saldana) um estilo de vida com o qual não tinha até então nenhuma intimidade.

Elogiar a equipe responsável pelo desenho de produção seria chover no molhado. Rick Carter e Robert Stromberg desenharam uma infinidade de plantas e criaturas; o traço que as une é que todas apresentam alguma semelhança com espécies terrestres (cavalos, rinocerontes, macacos, sequóias e muito mais), para facilitar a compreensão da alegoria pelos mais jovens. Esse princípio se aplica também à única raça bípede e com consciência, já que os membros do povo Na’vi têm a aparência de adolescentes rebeldes, incluindo dreadlocks, tatuagens, piercings e perfuradores de orelha – isso deixa absolutamente claro quem é o público-alvo visado por Cameron.

O público-alvo também explica porque as referências mitológicas e espiritualistas são tão óbvias, assim como sua mensagem pacifista-ecológica que ecoa o mito do bom selvagem de Rousseau. Cameron já havia utilizado antes as releituras do mito cristão do salvador (incluindo milagres), na série “O Exterminador do Futuro” e também em “O Segredo do Abismo” (1998). A equipe da Weta (estúdio de criação digital desenvolvido por Peter Jackson e responsável pela trilogia “O Senhor dos Anéis”) dá vida a esse desenho de produção com enorme competência; é preciso ressaltar que a equipe de produção não filmou uma árvore ou bicho sequer, e que todas as paisagens naturais foram produzidas diretamente em computador.

Por fim, James Cameron não se limitou a reescrever a história de “Dança com Lobos” e ambientá-la num novo planeta. O diretor inseriu outras assinaturas estilísticas de seu trabalho como narrador cinematográfico, como a já citada mitologia cristã-espiritualista e as protagonistas femininas duronas, sempre com uma função maior na história do que o normal em Hollywood, onde as mulheres se limitam ao papel de interesse romântico do herói. Infelizmente, o excesso de clichês do melodrama mais chinfrim – que dão à luta final entre herói e vilão, por exemplo, a persistente noção de que sabemos exatamente o que acontecerá nos cinco minutos seguintes – atrapalha um bocado a diversão daquela fatia do público que já tem uma bagagem cinematográfica razoável. Para os adolescentes e para a fatia do público que não se cansam de ver o mesmo filme com roupagem nova, porém, “Avatar” tem tudo para virar a mais nova obra-prima da semana. O que não diminui aquilo que o filme tem de interessante, diga-se de passagem.

O DVD simples da Fox traz apenas o filme, com alta qualidade de imagem (widescreen 1.85:1) e áudio (Dolby Digital 5.1), e em formato 2D tradicional. Cinéfilos que viram o longa-metragem nos cinemas podem estranhar, já que o formato de exibição era scope (proporção 2.35:1), mas James Cameron fez o corte na proporção mais estreita para exibição em IMAX e supervisionou pessoalmente a edição para o mercado caseiro. A edição especial estendida tem três versões do filme, duas delas mais extensas (com 8 e 16 minutos adicionais, respectivamente, e mais dois discos exclusivos com material de bastidores, incluindo um documentário completo de 2h30, mais de uma hora de cenas cortadas e várias demonstrações de efeitos especiais.

– Avatar (EUA, 2009)
Direção: James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Zoë Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver
Duração: 162 minutos

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