Avatar
23/12/2009 | Categoria: CríticasJames Cameron realiza releitura infanto-juvenil de “Dança com Lobos”, ambientada no espaço sideral e recheada com preocupações ecológicas, mitologia cristã e CGI de primeira
Por: Rodrigo Carreiro
NOTA DO EDITOR: 




No começo de 1998, ao receber o Oscar de melhor filme por “Titanic” (1997), o diretor e roteirista James Cameron protagonizou uma cena curiosa, que repercutiu um bocado nos meses que se seguiram. Ele comemorou o décimo-primeiro troféu daquela noite parafraseando o protagonista de seu filme e gritando a frase “eu sou o rei do mundo” para um bilhão de espectadores. A brincadeira soou como ataque de megalomania para muita gente – e essas pessoas não estavam totalmente erradas. Cameron é mesmo um membro do clube de diretores determinados a realizar feitos que gente normal consideraria impossíveis. Para um sujeito assim, depois de “Titanic” só havia mesmo uma coisa a ser feita: brincar de Deus e construir o seu próprio universo. Doze anos e US$ 300 milhões de dólares depois, “Avatar” (EUA, 2009) cumpre esse destino.
Desde que o cineasta – uma das pessoas mais poderosas de Hollywood – começou a pré-produção, em 2005, após esperar dez anos para que a tecnologia avançasse a um nível que tornasse a transposição da história para as telas possível, o filme passou a ser saudado pela indústria cinematográfica como a obra que colocaria o cinema, tão fustigado pela evasão em massa do público, em um renovado patamar de interesse. Afinal, a luta travada nos bastidores foi quase tão dura quanto as batalhas épicas que se vê na tela, entre os invasores humanos e o povo nativo do planeta Pandora. A equipe de Cameron teve que criar novos softwares para dar conta da completa criação digital de um mundo (incluindo mamíferos, plantas, árvores, insetos, aves, etc.) e inventar uma câmera 3D que fosse leve o bastante para ser operada manualmente. Os desafios técnicos foram todos vencidos, e obviamente aquilo que se vê na tela é um universo mitológico fotorrealista ao extremo.
Já em termos de enredo, “Avatar” é uma história de amor clássica (um tanto quanto açucarada, aliás), vitaminada por uma preocupação ecológica (algo rasteira) e sedimentada sobre uma releitura em CGI da mitologia cristã para adolescentes. Já foi dito antes que “Avatar” seria nada mais do que uma versão de “Dança com Lobos” (1990) ambientada no espaço sideral; eu não poderia criar um aforismo mais perfeito do que esse. A frase resume perfeitamente o que é o longa-metragem. Adicione a essa receita ecos de “O Senhor dos Anéis” (criaturas em CGI, câmera que emula o vôo de um falcão em cenas de batalha), “Matrix” (mitologia cristã sobre o salvador, cerimônias coletivas que parecem um culto afro-brasileiro), “Tarzã” (atores correndo nos galhos de árvores gigantes) e mais um punhado de obras de ficção científica, e você terá uma boa idéia de “Avatar”.
Os paralelos traçados em relação a “Dança com Lobos”, porém, são inúmeros. O protagonista é um militar ferido e desencantado com o mundo que redescobre a alegria de viver ao tomar contato com um povo nativo cuja filosofia é de comunhão total com a natureza (saem os índios, entram os Na’vi, seres azuis com quatro metros de altura e que se conectam – literalmente – com animais de todas as espécies, atando os rabos como fios elétricos). Ele se enturma com os nativos, aprende aos poucos a apreciar os costumes deles, e acaba se voltando contra sua própria raça durante uma batalha de proporções épicas. Cameron se certificou de incluir uma boa dose de preocupações ambientalistas (um tanto rasteiras, aliás), para dotar o filme de um teor de atualidade e fazê-lo politicamente relevante.
O maior ângulo de interesse em “Avatar” surge quando o filme é analisado do ponto de vista das convenções de gênero da ficção científica: trata-se do primeiro longa-metragem a inverter os tradicionais papéis de seres humanos e alienígenas. Até então, virtualmente todos os filmes feitos com extraterrestres mostravam essas criaturas como invasores (hostis ou amigáveis, mas sempre invasores). Desta vez, são os humanos que representam o papel coletivo de vilão: é a nossa raça que invade o mundo puro e ingênuo dos Na’vi, com a finalidade de extrair um minério valioso que pode possibilitar a sobrevivência da Terra, cujos recursos naturais foram esgotados em 2154, ano em que a ação dramática é ambientada.
Essa atitude arrogante e destrutiva é encapsulada pelo coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), chefe de segurança da colônia humana no planeta Pandora, que respira, come e dorme a idéia fixa de destruir os alienígenas de uma vez por todas. Ele se tornará progressivamente o grande opositor de Jake Sully (Sam Worthington), o herói do filme. Jake é um ex-fuzileiro naval paralítico, contratado para participar de um projeto secreto que objetiva conhecer melhor a raça extraterrena. Esse projeto visa transferir a consciência de seres humanos para corpos com aparência Na’vi e DNA híbrido, capazes de travar contato com os Na’vi. É com esse novo corpo, com o qual consegue voltar a andar, que Jake se infiltrará entre os alienígenas como espião – e, aos poucos, aprenderá com a princesa Neyriti (Zoë Saldana) um estilo de vida com o qual não tinha até então nenhuma intimidade.
Elogiar a equipe responsável pelo desenho de produção seria chover no molhado. Rick Carter e Robert Stromberg desenharam uma infinidade de plantas e criaturas; o traço que as une é que todas apresentam alguma semelhança com espécies terrestres (cavalos, rinocerontes, macacos, sequóias e muito mais), para facilitar a compreensão da alegoria pelos mais jovens. Esse princípio se aplica também à única raça bípede e com consciência, já que os membros do povo Na’vi têm a aparência de adolescentes rebeldes, incluindo dreadlocks, tatuagens, piercings e perfuradores de orelha – isso deixa absolutamente claro quem é o público-alvo visado por Cameron.
O público-alvo também explica porque as referências mitológicas e espiritualistas são tão óbvias, assim como sua mensagem pacifista-ecológica que ecoa o mito do bom selvagem de Rousseau. Cameron já havia utilizado antes as releituras do mito cristão do salvador (incluindo milagres), na série “O Exterminador do Futuro” e também em “O Segredo do Abismo” (1998). A equipe da Weta (estúdio de criação digital desenvolvido por Peter Jackson e responsável pela trilogia “O Senhor dos Anéis”) dá vida a esse desenho de produção com enorme competência; é preciso ressaltar que a equipe de produção não filmou uma árvore ou bicho sequer, e que todas as paisagens naturais foram produzidas diretamente em computador.
Por fim, James Cameron não se limitou a reescrever a história de “Dança com Lobos” e ambientá-la num novo planeta. O diretor inseriu outras assinaturas estilísticas de seu trabalho como narrador cinematográfico, como a já citada mitologia cristã-espiritualista e as protagonistas femininas duronas, sempre com uma função maior na história do que o normal em Hollywood, onde as mulheres se limitam ao papel de interesse romântico do herói. Infelizmente, o excesso de clichês do melodrama mais chinfrim – que dão à luta final entre herói e vilão, por exemplo, a persistente noção de que sabemos exatamente o que acontecerá nos cinco minutos seguintes – atrapalha um bocado a diversão daquela fatia do público que já tem uma bagagem cinematográfica razoável. Para os adolescentes e para a fatia do público que não se cansam de ver o mesmo filme com roupagem nova, porém, “Avatar” tem tudo para virar a mais nova obra-prima da semana. O que não diminui aquilo que o filme tem de interessante, diga-se de passagem.
- Avatar (EUA, 2009)
Direção: James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Zoë Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver
Duração: 162 minutos


(31 votos. Média de 3,68 em 5)


Quanto a esse Avatar, eu acho que vou fazer o mesmo que a Titanic, onde foi adiando uma vista no filme e acabei não assistindo até hoje. Rsrs.
O mais interessante da história é que o próprio diretor foi que em uma entrevista disse que considera o filme dele um “Dança com Lobos” no espaço…
Sempre acompanho suas criticas inclusive muitas vezes as leio antes de ver um filme… de um modo geral sempre concordo com elas apesar de claro discordar algumas vezes (o q eh masi do q normal).
Excelente critica de Avatar apesar de nao ter entendido a nota final… uma coisa q tenho percebido nas criticas de um modo geral eh q vc sempre “tira pontos” de filmes q, como vc mesmo diz, da pra saber o q ira acontecder daqui a 5 min…
Eu pessoalmente acho isso uma besteira e pra mim nao tira em nda o merito do filme e, sinceramente, vc acha q se fazem filmes hj em dia q surpreendam ainda nessa maneira? Nao eh nem uma critica mas acho sim q nem eh o objetivo deles fazer isso.
O q vc me diz de gran torino, q foi muito elogiado por vc (com muito justiça por sinal); pessoalmente no meio do filme talvez antes eu ja sabia o q ia acontecer e isso nao tira nem um pouco o merito do filme (e o final nao deixa de ser cliche tb)…
Acho so q vc deveria repensar q coloca isso nas criticas pq muitas vezes soa como algo negatico no filme…
Excelente filme, vale a pena muito ver e revoluciona o modo de fazer filme… a historia nao eh surpreendente ate pq esse nao eh o objetivo dele, alem de claro possuir alguns clichês (q filme nao tem?)…
O unico lado negativo eh ter visto a porcaria dublada em 3D o q eh um absurdo….
1) Todo filme de gênero consiste essencialmente num conjunto de regras e convenções narrativas que se repetem, em maior ou menor grau. Em “Avatar” creio que essa repetição foi um tanto excessiva. É minha opinião.
2) Ainda pretendo escrever um post refletindo sobre a questão das legendas em 3D. Particularmente, acho que elas se tornam um elemento visual a mais para competir com tantas camadas de imagem. Mas essa discussão é complexa…
Um abraço e parabéns pelas críticas. São as minhas preferidas da internet.
Acho que o mais certo seria dizer: “Rodrigo, Vá ao pirateiro mais próximo…”
Digo isso porque não sei se já perceberam, mas as locadoras estão todas fechando, no meu bairo não tem mais video locadora, quando quero assistir algum filme em casa recorro aos pirateiros é lamentavel, mas vou fazer o que se nem as autoridades fazem nada, a polícia ou guarda munícipal passa em frente as barraquinhas e não estão nem aí, eu era rato de locadora agora virei rato de barraquinha de pirateiro por falta de opção.
Beto, q comentário infeliz.
Pessoalmente, até pouco tempo atrás me recusava terminantemente a assistir filmes dublados, opção que foi se “flexibilizando” recentemente (irmãos menores). Agora, com o advento do 3D legendado, me encontro num dilema.
Assisti a Avatar dublado (e dividido quanto à questão). As poucas cenas legendadas do filme (os diálogos na língua dos Na’ vi) não me “tiraram” da “sensação 3D”. Mas um filme completo assim?
Ainda não sei.
Realmente é um assunto complexo…
P.S.: Rodrigo, o cara é megalomaniaco, mas vai arrebatar as duas maiores bilheterias da história… ele nasceu pra isso.
Porém acho que o filme tem muitos clichês. A Batalha final é recheada deles. Não é o melhor filme do ano e nem o melhor filme de Cameron. Mas é um ótimo filme.
Para mim “The Hurt Locker” é o melhor filme do ano e merecedor da estatueta.
Como sei da sua competência te provoco a construir outro texto – O Impacto AVATAR no futuro do cinema? Você sabe que terá impacto. Eu acho que ele é o novo Star Wars da nossa geração. Essa inhaca vai gerar outros filmes e o melhor ainda estar por vir. O impacto 3D, creio que é só o começo.
Sentiu-se provocado ?
Abraço seu grande acompanhador, Gilvam
O universo inteiro é cliche infinito: um fractal.
O ser humano não é diferente e nunca será.
Não existe história diferente. não adianta nem tentar
e aí está a beleza da fantasia e do mito
tudo se trata de um único grande feito.
A mensagem de Avatar é das mais lindas possíveis.
A linguagem é um tanto conhecida, claro.
mas isso não interfere na mensagem ( falo aqui da “ecologia rasteira” )
e é a falta da ecologia mais banal
mais íntima e óbvia
que faz do mundo um inferno para o próprio mundo
Todos nós somos o mundo e temos o céu estampado em nossa face.
” esses são os olhos do mundo. e essa é a voz do mundo…o que mais???” Bem disse Campbell
essa verdade íntima que as primeiras culturas conhecem bem, e que Avatar ressuscita. é isso que importa.
O que importa é a historia ao redor do fogo.
Vi ontem…depois escrevo mais…estou sem tempo agora rsrsrsr
Há quinze anos atrás eu poderia até ter gostado (embora não acredite muito), mas a verdade á que não tenho mais a menor paciência para tanto clichê e pieguice. Haja saco!
Essa baboseira milionária não chega aos pés dos verdadeiros grandes filmes do ano que passou (Guerra ao Terror, Bastardos Inglórios, Deixa Ela Entrar, Gran Torino…).
Ok, eu não esperava um screenplay “Charlie Kaufman” da vida. Mas porra, qualquer filme da Pixar consegue ter muito mais profundidade em uma única cena do que Avatar tem no filme inteiro.
Todas as receitas deste lixo digital deve ser doado à caridade para compensar, em parte, como o filme é estúpido.
Parabéns, Rodrigo. Por não dar 5 estrelas para filmes como Avatar e The Dark Kinight.
Vale a pena assistir, mas não acho que merece tantos prêmios, como levou no GG, e como acredito que vá acontecer no Oscar.