Aventura na Martinica, Uma

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Usando textos de Faulkner e Hemingway, Hawks dribla semelhanças com “Casablanca” e faz belo filme

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Ao contrário do que pode parecer, “Uma Aventura na Martinica” (To Have and Have Not, EUA, 1944) não foi produzido pela Warner com a intenção explícita de aproveitar o sucesso de “Casablanca” (1942), com quem guarda enormes semelhanças. O projeto original nasceu de uma aposta entre dois gigantes, o escritor Ernest Hemingway e o cineasta Howard Hawks. É que Hawks costumava afirmar que o romancista era tão craque que poderia fazer um bom filme a partir do pior livro dele. Cético, Hemingway disse duvidar que algo decente pudesse sair do romance “To Have and Have Not”, que ele considerava péssimo. Então, Hawks pegou o livro e vendeu o projeto à Warner. A semelhança indisfarçável da história com a do romance mais famoso do cinema ajudou o estúdio a bancar o filme.

Para escrever o roteiro, o diretor – na época, já considerado um dos melhores de Hollywood – contratou uma dupla nada desprezível, Jules Furthman e William Faulkner. A presença deste último garantiria, no futuro, o status de cult do filme, transformando-o na única produção feita até hoje com o envolvimento direto de dois romancistas premiados com o Nobel de Literatura. Foi de Faulkner, aliás, a tarefa de polir o enredo, realizando abundantes alterações na trama e, ao mesmo tempo, tentando preservar os diálogos duros, substantivos, que sempre marcaram a obra de Hemingway. O resulto ficou muito bom, mas a união entre dois dos maiores escritores do século XX acabaria eclipsada por outra dupla.

Foi durante as filmagens de “Uma Aventura na Martinica” que o ator Humphrey Bogart e a atriz Lauren Bacall se conheceram e se apaixonaram. Ela tinha 19 anos e encarava uma estréia cinematográfica que tinha tudo para ser intimidadora. Afinal, iria contracenar com o maior astro da indústria do cinema, status do qual Bogart desfrutava desde o já citado “Casablanca”. Arrasou – a primeira aparição dela, perguntando se alguém tinha fósforos, se tornaria um dos grandes momentos sensuais de Hollywood em todos os tempos. A química entre os dois, absolutamente incendiária, transpirou da ficção para a realidade. Acabou gerando um casamento estável que só terminaria com a morte dele, quase duas décadas depois.

De fato, qualquer uma das seqüências entre o casal poderia tranqüilamente entrar na galeria dos grandes momentos da era de ouro de Hollywood. Apoiados no roteiro seguro, repleto de frases de duplo sentido, Bacall e Bogart trocam olhares e sorrisos como cúmplices de longa data. Ele não encontra problemas em repetir o personagem de “Casablanca” – um americano no estrangeiro, apolítico e mulherengo, mas também honesto e voluntarioso – e ela faz uma femme fatale de enorme personalidade. De quebra, a atriz ainda brinda a audiência cantando duas canções com a voz rouca que lhe faria famosa. Juntos, os dois deram tão certo que repetiriam a parceria em outros quatro longas.

A história é o ponto fraco. Recende o teor de patriotada da época e, pior, reorganiza quase todos os elementos de “Casablanca” em um enredo que parece cópia xérox. Há no filme membros da Resistência francesa em confronto com colaboracionistas do nazismo, um americano apolítico no exílio que se apaixona por uma mulher bela e durona, um café noturno que serve como cenário, um pianista melancólico, um bêbado contumaz (Walter Brennan, refazendo um papel em que se tornou especialista). Steve (Bogart) é o capitão de um pequeno barco pesqueiro, na Martinica, contratado para resgatar um casal de membros da Resistência francesa. Ele recebe a ajuda de Marie (Bacall), ladra requintada e apaixonada, e é perseguido por um chefe de polícia corrupto e aliado dos nazistas.

A direção firme de Howard Hawks, um dos mais versáteis diretores já existentes, faz a diferença para o bem. Abusando da técnica de foco ativo criada por Gregg Tolland alguns anos antes (“Cidadão Kane” foi o filme responsável por disseminar a técnica, que consiste em manter todos os elementos, tanto no primeiro quanto no segundo plano, com extrema nitidez), Hawks cria imagens de extrema elegância e filma os ótimos diálogos de Hemingway com graça e fluidez, o que transforma o filme numa experiência deliciosa. OK, não é nenhum “Casablanca”, mas é ótimo.

O DVD da Warner é simples, mas eficiente. A qualidade do filme está muito boa, tanto em imagem (tela cheia, formato original) quanto em áudio (Dolby Digital 1.0). Os extras incluem um pequeno documentário (12 minutos), um desenho animado satirizando a produção (6 minutos) e um trailer. O material extra, exceto o trailer, tem legendas em português.

– Uma Aventura na Martinica (To Have and Have Not, EUA, 1944)
Direção: Howard Hawks
Elenco: Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Walter Brennan, Doloren Moran
Duração: 100 minutos

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