Aventuras de Azur e Asmar, As

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Francês faz um raro filme infantil à moda antiga, explorando belas texturas e arquitetura de origem árabe

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Michel Ocelot entrou para o primeiro time da animação internacional em 1998, com o sucesso de público e crítica de “Kiriku e a Feiticeira”. A intensa popularidade do trabalho na França lhe deu cacife para ousar mais, tanto que o projeto seguinte demorou quase sete anos para ficar pronto. “As Aventuras de Azur e Asmar” (Azur et Asmar, França, 2006) transita na contramão das tendências contemporâneas das animações infantis, cada vez mais apostando na computação gráfica de traços realistas. Ocelot, ao contrário, proporciona um mergulho intenso no mundo das fábulas árabes. É um raro filme infantil à moda antiga, em que fadas e seres mágicos convivem sem problemas com seres humanos. A produção alcança um resultado encantador.

Parte da boa receptividade obtida pelo longa-metragem francês ante a crítica internacional vem exatamente da recusa em seguir o senso comum. O filme é original tanto no visual quanto na narrativa. Em termos gráficos, Ocelot recorre à animação tradicional com toques de computação em 3D, explorando com abundância os grafismos e a arquitetura árabes, com muitos padrões geométricos (azulejos, tecidos) e explosões de cores e texturas que tornam o filme uma experiência sensorial estimulante. Observe, por exemplo, a seqüência que se passa no mercado público, quando a câmera adota o ponto de vista do personagem narrador (o Azur do título), deslumbrado diante plantas, temperos e ervas de teor exótico. Visualmente, a produção é belíssima.

Do ponto de vista da narrativa, a associação imediata do espectador é com as fábulas milenares da região árabe, notadamente as “Mil e Uma Noites”. A verdade, contudo, é que o roteiro, escrito pelo próprio diretor, conta uma história inédita. Não é, porém, uma narrativa excessivamente explicativa, como quase sempre acontece com as animações norte-americanas. Há muitas cenas com diálogos em árabe que não são traduzidas, porque o diretor quis assim. A intenção dele era colocar a platéia na mesma situação dos personagens, que são imigrantes e, por isso, pouco entendem o que os outros falam. É este, afinal, o grande tema do filme: a necessidade de encontrar uma convivência pacífica entre culturas diferentes.

Isto acontece com os dois protagonistas. Azur e Asmar são garotos da mesma idade que passam a infância juntos. A mãe de Asmar, um menino de cabelos e pele escuros, é babá de Azur, garoto loiro de olhos azuis. Separados pelo destino, eles acabam se reencontrando adultos, revivendo a rivalidade da infância. Ambos têm o mesmo objetivo na vida: libertar a fada que era personagem principal das lendas contadas pela mãe-babá. Aliás, nesta mistura indistinta entre fato e ficção está o maior atrativo para as crianças, já que a narrativa em si pouco tem de infantil. Propor a coexistência de criaturas lendárias e seres humanos é algo bem raro na cinematografia contemporânea, quando a moda é dizer que Papai Noel não existe. Para os espectadores sedentos de ação, vale ressaltar que o filme está repleto de ladrões, trapaceiros, lutas e perseguições arriscadas.

O resultado final é muito bonito, inteligente e instigante, trazendo ainda uma mensagem de respeito às diferenças culturais que encaixa perfeitamente na história, sem soar didática em excesso. De fato, “As Aventuras de Azur e Asmar” se coloca ao lado do também francês “As Bicicletas de Belleville” (2003), de Sylvain Chomet, como um raro filme infanto-juvenil com coragem para apostar em uma receita estética e narrativa original e alcançar sucesso pleno. É um filme altamente recomendado a qualquer um que goste de animação e esteja meio saturado da fórmula eficiente, mas gasta, que rege o gênero dentro da indústria de Hollywood.

O DVD da Videofilmes, sem extras, preserva o enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) e tem áudio de boa qualidade (Dolby Digital 5.1, em francês e dublado e português).

– As Aventuras de Azur e Asmar (Azur et Asmar, França, 2006)
Direção: Michel Ocelot
Animação
Duração: 99 minutos

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